Ciência não é crença

Science is not belief.

Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da UNESP. Titular da Cadeira 19 do IHGG Campinas.

Há pouco tempo foi publicado no principal jornal de Campinas o artigo O lado obscuro da ciência, de Roque Ehrhardt de Campos (Correio Popular, p. A2, 13/2/2020). Alguns contrapontos ao conteúdo desse texto e em defesa da ciência têm sido feitos, especialmente no Correio do Leitor, espaço que o periódico reserva para comentários curtos de seus assinantes. Mas, nesse caso, uma reflexão mais aprofundada é requerida.

O título do artigo pressupõe que os lados da ciência sejam intrínsecos a ela (um obscuro e outro, provavelmente não), com ausência de um ator do processo. De antemão posso afirmar que, por mais pura que seja a ciência, assim não é o cientista. Mas não é isso que o autor do artigo se propõe a discutir. Ele representa um grupo de pessoas que investe contra postulados estabelecidos há um bom tempo – como o método científico, a evolução e a ética científica –, dando uma aura de bom-mocismo inexistente que quer nos revelar algo que já é sabido.

A base de sua argumentação é o crítico literário e escritor Clive Staples Lewis, muito conceituado também como teólogo, mas sem formação científica. Opinião todos podemos ter, mas, quando a proposta é de refutar teses ou propor leis e postulados, a ocupação de um adequado lugar de fala se faz necessário. Ocupar com responsabilidade, pois a propagação de inverdades seguida do silêncio quando refutadas é ato que pode até ser presidencial, mas é leviano e criminoso, pelo menos dentre pessoas que coabitam a civilidade.

O autor defende o design inteligente, veementemente refutado por qualquer cientista sério, que nada mais é que uma crença religiosa da criação divida do mundo, travestida de científica. Essa sim é uma falácia que quer usar a ciência para forçar um credo e não o contrário. Já fiz uma abordagem sobre o assunto em meu Blog dos Três Parágrafos (https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2020/02/perdas-na-ciencia.html).

O método científico, também criticado pelo autor, é a base do entendimento e das conclusões de estudos de investigação que são feitos. Sem ele, qualquer resultado sem a devida delimitação e controle pode ser entendido como representativo de um todo. Na medicina, por exemplo, é pelo método científico que será evidenciada uma efetiva ação de um tratamento em relação ao efeito placebo. Deve haver repetição, reprodutividade, robustez, experimentos controle e outros protocolos. Mas sua aplicação e entendimento não são óbvios e o autor prefere se ocultar em sofismas a encarar que seu aprendizado leva tempo. E deixemos claro que o método científico não é uma forma de moldar o pensamento humano.

Impossível discutir a visão histórica do articulista em relação à evolução da ciência, pois a mistura de assuntos díspares, como sistemas econômicos, psicanálise e guerras mundiais, torna a sopa indigesta. A questão fica muito mais crítica quando defende que a ciência é mágica ou uma religião. Na espera pelo conserto do carro, nesta semana, ouvi de Ana Maria Braga em seu programa matinal a pérola sobre a formação e estabilidade de um merengue após bater os ovos: “é o milagre da química dos alimentos”. Não, é simplesmente a química dos alimentos. Estudemo-la e saberemos entendê-la e explicá-la. A ciência é exatamente o contraponto a pressupostos míticos, místicos e mágicos. Ou seja, totalmente oposta ao que o artigo em tela afirma.

“A ciência não tem [sic] uma ética ou código de conduta”, afirma o autor chegando ao final de seu libelo. O que guia a boa ciência são os comitês de ética, nos vários níveis: médico, humano, ambiental e animal. Tente aprovar um projeto de pesquisa sem passar por esses comitês nas instituições sérias de pesquisa científica – e novamente é bom lembrar que falamos de instituições públicas, nas quais acontece mais de 90% da produção científica brasileira. E se o autor se valeu da comparação, pergunto-me onde ficam a ética e os códigos de conduta nas denominações religiosas que se baseiam na ignorância e medo de seus adeptos para auferirem proventos financeiros? E, a partir daí, é ético impor a toda a sociedade isenções fiscais e benefícios para manter seus patrimônios muito distantes de um sentido espiritual?

O processo evolutivo, tão questionado por esses criacionistas, é muito lento, quase imperceptível na existência humana, mas que tem sido comprovado cada vez mais de forma contundente pelos biólogos. Não apenas os fósseis são testemunhas do processo, mas também a vasta gama de experimentos de aceleração evolutiva ou observação de espécies e ecossistemas em suas adaptações confirmam o que Charles Darwin já propusera.

No mais, um autor distópico como George Orwell, também citado no artigo, deve sempre ser lido, mesmo que distante de uma base científica em sua visão de mundo. Lê-lo, ainda mais em dias correntes nos quais boa parte de nossa conduta política e social é baseada em mentiras propaladas por redes antissociais e espaços impressos de jornais.

Publicado originalmente no Correio Popular, 13 de abril de 2020.

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