A Estrada de Ferro Funilense

The Funilense Railway (Campinas, SP, Brazil).

Kelly Baldini – professora de história e pesquisadora de patrimônio histórico.

A Estrada de Ferro Funilense surgiu no contexto de aumento da malha ferroviária em São Paulo, a partir da década de 1870, para favorecer o escoamento de produtos, negócios e pessoas. Foi inicialmente construída, em 1899, para atender ao Núcleo Colonial Campos Salles, na região do Conchal (distante cerca de 40 quilômetros de Campinas).

Grande parte da documentação sobre a Funilense foi encontrada nas obras escritas por escritores regionais, que trataram de escrever a história das cidades que surgiram e foram atendidas pela ferrovia. Alguns cronistas, memorialistas e historiadores de Campinas também descreveram a Funilense, não mais do que um ou dois parágrafos, apenas relatando a sua existência. Outro ponto importante para a dificuldade de localização das fontes, é que essa ferrovia permaneceu em poder de diferentes instituições ao longo de seu funcionamento, como parte da Companhia Carril Agrícola Funilense, como parte do Ramal Férreo Campineiro, ora em poder do estado e ora em poder da Companhia Sorocaba. Sendo assim, sua documentação oficial encontra-se espalhada por vários arquivos.

Apesar de ter sido uma ferrovia deficitária e de pequeno porte e extensão, o que nos chega da história da Funilense revela um passado de grande importância para a região, principalmente por ter sido a grande responsável pelo abastecimento do núcleo Campos Salles, dos outros núcleos coloniais daquela região, e ter contribuído para a formação de novas cidades no interior do estado.

A antiga região do Funil hoje compreende as cidades de Cosmópolis e Artur Nogueira. A região é favorecida pelo complexo fluvial formado pelos rios Camanducaia, Pirapitingui e Jaguari. A junção dos dois últimos rios formava o Salto do Funil, devido à sua forma composta de grandes paredões que se afunilavam.

A grande fazenda da região levava, justamente, o nome de Funil e nela havia um pequeno engenho de açúcar entre densa floresta. Entretanto, no caminho entre Campinas e a Fazenda existiam outras propriedades produtoras de café, como a Fazenda Santa Genebra, do Barão Geraldo de Rezende. Além desta, havia as Fazendas Rio das Pedras, Morro Alto, Funchal e São Bento. A comunicação entre Campinas e essas propriedades era bem dificultada, o que atrapalhava o escoamento do café, o abastecimento das fazendas e povoados, além do oferecimento das pequenas produções dessas populações para a cidade.

A Fazenda Funil é uma vasta propriedade com superfície agrária perto de cinco mil alqueires, cuja quase totalidade consiste ainda em matas virgens e capoeirões. […] As terras desse grande imóvel, bem como as que circundam até certa distância, têm-se conservado geralmente incultas em razão da dificuldade de transporte, sem embargo de se prestarem vantajosamente à pequena lavoura. […] Era, pois, intuitiva a conveniência de ligar-se aquela extensa zona aos centros consumidores, onde não raro escasseiam produtos que ela poderia fornecer-lhes nas mais favoráveis condições.

O autor da citação, Antônio Carlos de Moraes Salles, descreveu a região em 1899 e ressalta a oportunidade que tal localidade apresentava a Campinas, com as fazendas de café que já produziam e com as plantações de alimentos; mas, também, demonstra quanto incultas eram suas terras e a dificuldade para se chegar dos centros urbanos até lá. Com isso, ele justifica a necessidade de se fundar uma companhia férrea para atender a região.

A criação da Companhia Carril Agrícola Funilense surgiu, então, juntamente com a intenção de colonização da região, aproveitando o desempenho das plantações de café, a possibilidade de abastecer as populações locais de produtos vindos de Campinas e abastecer Campinas com os gêneros alimentícios produzidos por lá.

Os primeiros incorporadores da empresa foram Antônio Carlos de Moraes Salles, José Guatemozim Nogueira e Alfredo Pinheiro, todos fazendeiros dessa região. No entanto, a Funilense não foi criada logo na primeira tentativa. Apesar dos benefícios e privilégios concedidos pela municipalidade de Campinas, não foram possíveis resultados satisfatórios para o inicio das obras. Jolumá Brito cita que, além de circunstâncias imprevistas, houve em 1889 a aterrorizante epidemia de febre amarela que devastou a cidade de Campinas, tendo que ser paralisadas as obras da companhia.

Depois disso, a Fazenda Funil foi vendida para a Companhia Sul Brasileira de Colonização, cujo diretor era o Barão Geraldo de Rezende. De grande destaque e importância no cenário político dentro do partido Republicano e agora proprietário da Fazenda Funil, além da Fazenda Santa Genebra, o Barão investiu firmemente na ferrovia que ligou várias propriedades a Campinas. Em 1890 consegue-se finalmente criar a Companhia Carril Agrícola Funilense, cujos incorporadores foram Vicente Fonseca Ferrão, Barão Geraldo de Rezende e José Guatemozim Nogueira.

Algum tempo depois das obras iniciadas, devido a falhas no orçamento, as obras foram paralisadas e permaneceram por nove anos abandonadas. A conclusão se deu a 18 de setembro de 1899. Possuía 41 km de extensão, partindo de Campinas (da Estação Guanabara – pertencente à Cia. Mogiana e cedida para a Funilense utilizar como estação inicial até a finalização da sua própria estação) até alcançar a estação Barão Geraldo de Rezende, localizada exatamente onde, em 1897, o governo de São Paulo instalou Núcleo Colonial Campos Salles.

Quando da sua inauguração, a empresa já não era mais de propriedade do Barão Geraldo de Rezende, o Grupo Nogueira & Cia havia comprado a Fazenda Funil e a companhia no ano anterior. Estando a ferrovia quase falida, sem recursos materiais e financeiros, o Grupo Nogueira passou a administração desta para o Ramal Férreo Campineiro (inaugurado em 1894 para ligar Campinas à região das Cabras / Sousas). De 1899 a 1905, a Funilense teve sua administração e funcionamento garantido pelo contrato com o Ramal Férreo.

Mesmo com algum dinheiro e um pequeno lucro, com mercadorias primárias e secundárias circulando pela ferrovia, e com um mínimo transporte de passageiros, pouco cuidado havia com a manutenção da estrada e dos equipamentos. Após cinco anos de funcionamento a empresa não conseguia pagar as dívidas com o governo e encontrava-se praticamente destruída. Uma das cláusulas do contrato estabelecido com o governo definia que em caso de inadimplência ela passaria para as mãos do governo. Foi o que aconteceu em 1905 e a Companhia passou a chamar-se Estrada de Ferro Funilense, administrada pela Inspetoria de Estradas de Ferro e Fluviais, órgão da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo.

A partir desse momento, o interesse do governo em mantê-la funcionando fundiu-se aos interesses da política de imigração e colonização sobre a região do Funil – idealizada, neste caso, com o núcleo colonial. Além de continuar garantindo a facilidade de escoamento das colheitas de café das fazendas do Funil, a Funilense seria responsável por auxiliar o governo estadual, na região de Campinas, na solução das crises de alimentos e de mão de obra para a lavoura. Ligando, desta maneira, o importante centro urbano que era Campinas, as fazendas de café na região e o próspero Núcleo Colonial Campos Salles. A crise no setor de mão de obra para as fazendas poderia ser suprida com os colonos do núcleo: esses mesmos venderiam suas produções de gêneros alimentícios para a cidade, que sofria com a carestia de alimentos, e os cafeicultores da região teriam a garantia do escoamento de suas produções, apoiando a política do governo de imigração e colonização através dos núcleos coloniais.

Em 1903 foi iniciada a construção da Usina Ester na Antiga Fazenda Funil por iniciativa do Grupo Nogueira. Produtora de açúcar e álcool, esta também foi determinante para o incentivo de funcionamento da Funilense, já que seu produto seria escoado até Campinas através da ferrovia e o transporte de trabalhadores para a Usina seria facilitado.

Uma vez desfeita a Cia. Carril Agrícola Funilense e surgida a Estrada de Ferro Funilense, iniciaram-se as reformas e a manutenção que, agora, além de interesse do governo, também era do Grupo empresarial Nogueira. Dessa união entre setores público e privado, em 1905, inicia-se o prolongamento da ferrovia para mais 9 km até a Estação Artur Nogueira, além da ligação da antiga estação inicial, Guanabara, com a nova estação inicial, a Carlos Botelho, localizada no mercado central de Campinas, inaugurada em 1908. Segundo Odilon Nogueira de Mattos, o prédio da Estação Carlos Botelho foi oferecido pelo governo estadual como incentivo à nova linha para ser a estação inicial. O local ficou popularmente conhecido como a Estação do Mercado, pois era o local onde os colonos do núcleo Campos Salles vendiam seus produtos para os moradores de Campinas. A estação deixou de funcionar em 1925, sendo ativada então como o Mercado Municipal de Campinas.

Em 1913 a ferrovia atingiu 94 km até a sua última estação, denominada Estação de Conchal na margem do rio Mogi-Guaçu, atendendo então aos núcleos coloniais Conde de Parnaíba, Visconde de Indaiatuba e Martinho Prado Júnior, que foram criados pelo governo estadual em 1911.

Por volta de 1918 as despesas e a administração da ferrovia não se apresentavam mais viáveis para o governo. Em 1921 a Sorocabana incorporou a linha e em 1924 a antiga Funilense tornou-se apenas um ramal desta companhia, recebendo o nome de Ramal Pádua Salles. Em 1923 foi construída a Estação Vila Bonfim, cujo terreno foi doado pela prefeitura de Campinas, sendo desativada a estação inicial, Carlos Botelho, e passando a Bonfim a ser a estação inicial. A linha foi fechada no inicio de 1960, tendo seus trilhos arrancados sob protesto de algumas populações locais atendidas pela linha. Hoje são bem poucos os resquícios da Funilense.

Referência bibliográfica:

BALDINI, Kelly. Núcleo Colonial Campos Salles / Campinas: um estudo de caso sobre a dinâmica das relações bairro rural – cidades. Campinas: IFHC – UNICAMP [dissertação de mestrado], 2010.

As teses e dissertações estão disponíveis no Repositório da Produção Científica e Intelectual da Unicamp <http://repositorio.unicamp.br&gt;  

 

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