A Febre Amarela

The Yellow Fever.

José Nogueira Novaes e Lycurgo de Castro Santos Filho* – escritores. Lycurgo foi médico e é patrono da Cadeira 14 do IHGG Campinas. 

Sabido é que a febre amarela não existia no Brasil na ocasião da descoberta. Veio a manifestar-se somente em fins do século XVII, em 1685, trazida por escravizados provenientes da ilha africana de São Tomé. Principiou em Recife, Pernambuco, e estendeu-se por todo o país colonizado. Em Salvador, Bahia, entre milhares de vítimas matou cinco desembargadores, o comandante das tropas tenente-general Manuel Freire de Andrade, o arcebispo Dom Frei João da Madre de Deus, e o capitão-general Matias da Cunha, governador geral do Brasil. A epidemia ensejou a João Ferreira da Rosa, médico residente em Recife, a publicação do primeiro tratado sobre a doença na literatura mundial. Intitulava-se Tratado único da Constituição Pestilencial de Pernambuco, Lisboa, 1694, livro que foi o segundo, em vernáculo, das letras médicas nacionais.

Desapareceu depois a febre amarela, para voltar em fins de 1849, principiando pela Bahia, onde haviam desembarcado amarelentos provenientes de Nova Orleans. Daí para cá permaneceu o mal em todas as províncias do Império sob as formas endêmica e epidêmica. E do Brasil, a febre passou à Argentina, chegando ao bairro sul de Buenos Aires, em 1858.

Não era conhecida a etiologia. Como responsáveis pela febre amarela eram apontadas as causas mais disparatadas: indigestões, exposição à chuva, umidade, sereno, insolação, supressão da transpiração, fadiga, ao excessivo calor, abusos sexuais, perturbações atmosféricas, qualidade das águas de serventia, etc. Quanto à disseminação, havia os partidários do contágio e os que o negavam, alinhando-se entre estes o eminente clínico e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, o barão de Torres Homem (1837-1887). A origem microbiana da febre surgiu no Brasil com Domingos José Freire Júnior (1842-1899), professor de Química Orgânica e Biológica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que a atribuiu a um certo Cryptococus xanthogenicus, um micro germe da espécie algas (1885-1886). Acreditado a princípio, fabricou uma vacina que foi inoculada, sem qualquer resultado favorável, em centenas de pessoas. Sua teoria foi logo abandonada. Outro brasileiro, o fisiologista do Museu Imperial do Rio de Janeiro, João Batista de Lacerda (1846-1915), julgou haver descoberto o responsável. Estava também equivocado.

A correlação entre os surtos epidêmicos coincidindo com o aumento da quantidade de mosquitos foi observada no exterior e no Brasil. Assim é que na Venezuela, em 1853, Louis Daniel Beauperthuy (1807-1871) e no Brasil, em 1885, Filogônio Lopes Utinguaçu (1854-1898) chegaram a aventar a hipótese, que não puderam comprovar, da transmissão da febre amarela por um mosquito.

Quanto à necessidade imperiosa da descoberta de uma vacina contra o mal, sabe-se que o imperador Pedro II, na década de 1880, propusera ao francês Louis Pasteur (1822-1895) viajar ao Brasil para aqui pesquisar e preparar a vacina. Pasteur respondeu que viria se o imperador consentisse na inoculação em condenados à morte, da sua recém descoberta vacina contra a raiva. Pedro II retrucou que não aceitava a proposta, porquanto era de seu costume comutar todas as penas de morte pela prisão perpétua.

Na mesma década de 1880, em Havana, Carlos Juan Finlay Y de Barrés (1833-1915) concluiu que o transmissor da febre amarela era o mosquito Stegomyia fasciata, hoje denominado Aedes aegypti. Não foi acreditado até que uma Comissão de Saúde do Exército Norte Americano, chefiada por Walter Reed (1851-1902) em 1900, repetiu exaustivamente as experiências de Finlay e deu-lhe razão. Era o mosquito o transmissor. Essa descoberta permitiu então a Emílio Marcondes Ribas (1862-1925), paulista de Pindamonhangaba, conhecer o porquê do seu sucesso no saneamento de Campinas e de outras cidades paulistas. Chefiando a Comissão Sanitária de Campinas em 1896-97, Ribas,

apenas por intuição, sem ainda conhecer a razão, conseguiu dominar os surtos epidêmicos de febre amarela em Campinas e em outros centros interioranos paulistas, através de obras de saneamento, como drenagem de charcos e pântanos, entupimento de alagadiços e destruição de recipientes que pudessem conter água. Sem o saber, estava no caminho certo, destruindo os focos de criação de mosquitos transmissores do mal.

Emílio Ribas foi a grande figura no combate à febre amarela em São Paulo. Antecipou-se a Osvaldo Gonçalves Cruz (1872-1917), também paulista e diretor do Instituto de Manguinhos (hoje Instituto Osvaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ), pois saneou cidades do interior de São Paulo e conseguiu erradicar a febre amarela do estado antes do sucesso de Osvaldo Cruz no Rio de Janeiro.

Médico pela Faculdade do Rio de Janeiro em 1887, diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, desde 2 de maio de 1898 e por muitos anos até se aposentar, em 1917, Ribas combateu a peste bubônica em Santos (1899) com o emprego do soro preparado por decisão sua no Instituto Butantã, pelo cientista Vital Brasil Mineiro da Campanha (1865-1950). Com a vacinação obrigatória diminuiu a mortalidade causada pela varíola. Atalhou a propagação da febre tífóide, ordenando a remoção do lixo e promovendo o extermínio das moscas. Propugnou pela adoção da estância de Campos de Jordão, SP, como a mais indicada para os tuberculosos. Mandou construir o primeiro grande leprosário paulista, o de Santo Ângelo, para tratamento dos morféticos. Fundou um serviço especializado para a profilaxia e tratamento do tracoma. E o seu marcante êxito foi o obtido contra a febre amarela. Ele publicou 1901 um opúsculo intitulado O mosquito como agente de propagação da febre amarela, no Diário Oficial de São Paulo, primeiro trabalho a aparecer no Brasil sobre o controvertido assunto, onde perfilhou a doutrina de Finlay, de Havana, e propôs diversas medidas para a extinção de águas estagnadas, o emprego do querosene para matar as larvas dos mosquitos, o uso de cortinados nas camas, telas nas janelas e pós inseticidas para a desinfecção das moradias. Ribas chamava o mosquito transmissor de Culex taeniata. E o certo é que este mosquito, segundo César Pinto, teve 36 sinônimos, desde 1762, quando Carl Linneu (1707-1778) o classificou como Culex aegypti, até 1926, ocasião em que foi denominado de Aedes aegypti, como é até hoje conhecido.

Em janeiro de 1901 Emílio Ribas encetou a extinção dos mosquitos em Sorocaba, onde durante os seis primeiros meses de 1900 grassou mortífera epidemia, com 2.322 casos notificados. Era uma campanha preventiva, destinada à extinção dos mosquitos, e que se coroou de êxito. Entretanto, os opositores à teoria do mosquito transmissor alegaram que a febre amarela desaparecera de Sorocaba em virtude apenas das obras de saneamento ali levadas a cabo. Resolveu então Emílio Ribas repetir as experiências de Havana em São Paulo. Realizou-as no Hospital do Isolamento que, por sinal, passou mais tarde a ostentar o seu nome. Escolheu uma comissão fiscalizadora composta de três médicos, Antônio Gomes da Silva Rodrigues, Adriano Júlio de Barros e Luis Pereira Barreto. Era este clínico reputado, fora senador estadual, autor de obras sobre o positivismo, agricultor progressista, propugnador do plantio do café em terra roxa e entusiasta da cultura da videira.

Larvas do mosquito Stegomyia fasciata foram recolhidas em Itu, SP, cidade então indene da febre. Já adultos, os mosquitos foram levados a São Simão, SP, onde a 2 de dezembro de 1902 picaram um amarelento que estava nos primeiros dias da doença. De lá recambiados a São Paulo, ali voltaram a picar seis homens em perfeito estado de saúde, e que eram Adolfo Lutz (1855-1940), o próprio Emílio Ribas e mais quatro voluntários: Domingos Vaz, Oscar Marques Moreira, André Ramos e Januário Fiori. Três deles contraíram a febre amarela, mas felizmente não morreram. Os outros três, Adolfo Lutz, Emílio Ribas e Oscar Moreira não adoeceram, pois teriam adquirido anteriormente imunidade.

Prosseguindo na experiência, no mesmo Hospital do Isolamento, a partir de dezembro de 1902, em um quarto bem preparado e vedado, para evitar a penetração de mosquitos, três imigrantes italianos recém-chegados ao Brasil, Giuseppe Malagutti, Ângelo Paroletti e Siniscalchi Giovanni, passaram dez dias e noites fechados, em contato com roupa de cama e vestes de amarelentos mortos, sujas de sangue, de vômitos, fezes e urina. Não contraíram a doença. E foram dispensados no dia 10 de maio de 1903. Estava então repetida a experiência com prova e contraprova e bem demonstrada a teoria do mosquito transmissor. Todos foram premiados. Tais experiências também foram realizadas posteriormente no Rio de Janeiro, por uma missão médica francesa sob as vistas de Osvaldo Cruz, obtendo-se os mesmos resultados.

Como diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, Emílio Ribas mandou publicar e distribuir, datado de 31/12/1901, um folheto de quatro páginas contendo as Instruções sanitárias para evitar a propagação da febre amarela. Acompanhavam desenhos, em ponto grande, do Culex toeniatus ou fasciatus, para que o leitor tivesse a ideia exata do mosquito. Ribas morreu em São Paulo. A rua Emílio Ribas, no bairro do Cambuí, em é uma dos campineiros homenagem à sua memória.

* In memoriam

Referência bibliográfica:

SANTOS FILHO, Lycurgo de Castro e NOVAES, José Nogueira. A Febre Amarela em Campinas: 1889-1900. Campinas: CMU Publicações (Coleção Campiniana, 2), 1996.

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