O caracol e o caramujo: artistas & companhia na cidade

Nota do Editor: Em Abril e Maio publicaremos (às quintas-feiras) matérias extraídas de teses e dissertações aprovadas nas Faculdades e Institutos da UNICAMP. Essa oferta do IHGG Campinas visa ampliar os canais de apreciação do conhecimento que a Universidade produz sobre a região onde atua. As teses e dissertações estão disponíveis no Repositório da Produção Científica e Intelectual da Unicamp. http://repositorio.unicamp.br

The snail and the slug: artists & company in the city (Campinas, SP, Brazil).

Paulo Sérgio Barreto – sociólogo, pesquisador do grupo de Mitopoética da Cidade (CNPq), ligado ao Instituto de Psicologia Social da USP.

No Governo Washington Luiz, nos anos de 1920, a questão social no Brasil era tratada como caso de policia. Nos anos de 1970, o então ministro da Educação Ney Braga, no Governo Geisel, parafraseando Hermann Ghoering, ministro do III Reich, quando ouvia falar em cultura, “sacava logo a arma”. A questão da cultura dentro de uma concepção abrangente sempre esteve as voltas com o poder. Ora como uma questão (também) social em que se necessita “sacar logo as armas” para contê-la e enquadrá-la, naquilo que determinadas frações dominantes vêm como ameaça cultural ao status quo. Ora em contraposição a isso possibilitando, entre outras, a afirmação da cidadania e a democratização do acesso aos bens culturais para o conjunto da população.

Em Campinas, a questão da produção cultural vem acompanhando, com seus ritmos e contramarchas, o movimento de expansão e consolidação do mercado de bens simbólicos do País. Muitas vezes em proximidade com o eixo Rio-São Paulo, outras dentro de um movimento ensimesmado, gerador de uma produção local atrelada a uma história cultural concêntrica, insular e de autoproteção. A proposição da existência da “arte campineira” e do “artista campineiro”, designa formas de apreensão e de visões de mundo sutis, que escamoteiam as diferenças sociais.

O acompanhamento da história social e cultural de Campinas, desde o início do século passado até os anos de 1980, possibilitou o aproximar de dois níveis de análise. De um lado, como determinadas frações e/ou grupos sociais dominantes se apropriam do fazer cultural como forma de distinção e de exclusão social. De outro, como o processo de expansão e constituição do campo cultural é atravessado por uma visão de mundo ensimesmada, a-histórica e ufanista sobre a cidade e seus artistas. Esses dois movimentos estão muito próximos da ideia acima referenciada sobre a cultura como uma questão social – um caso de polícia e de poder, logo: “sacam-se as armas”!

A preocupação, porém, desta dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em 1994, foi com o processo de constituição do campo cultural e a dependência social dos artistas, criadores e intelectuais para com as instituições tradicionais do poder e, em grau diminuto, com o mercado cultural transpassado de maneira difusa na cidade. Este último foi visto muito pouco. Deixo-o para o futuro … quem sabe até lá possa haver um mercado cultural em Campinas, e se possa referenciar como objeto de estudo o trabalho artístico longe das concepções que designam a cidade como a “Campinas artística” e o “artista campineiro”.

Neste sentido as “armas” utilizadas foram as ideologias de mundo, os valores comungados por determinadas frações e/ou grupos dominantes em exaltação às potencialidades artísticas e culturais como fato social inerente à gente de Campinas. Esse discurso, de certa maneira, resvala no campo cultural local em detrimento da autonomia do trabalho artístico. O que se pretendeu foi recuperar determinados movimentos e eventos culturais representativos de vários grupos sociais, em consonância com o trabalho artístico às voltas com o exercício legítimo de disposição artística onde a taxinomia, as regras e as hierarquias são formuladas e exigidas a partir dos pares concorrentes.

O primeiro capítulo traz a apropriação da arte, da cultura e da ciência no interior de um espaço legitimado pela fração cultivada da classe dominante, como marcação de uma sociabilidade definidora da distinção e da exclusão social e cultural. O aspecto interessante é como determinadas instituições da época – a Igreja, a família, os jornais, os partidos políticos etc. –, dimensionam o fazer artístico como prática de reprodução social a favor dos antigos Barões do Café e dos capitalistas em ascensão.

No segundo capítulo traço o movimento de constituição de uma produção cinematográfica autônoma em Campinas, que reproduz em menor escala as dificuldades e os embates da filmografia nacional nos anos de 1920. As mudanças de hábitos e os valores são dimensionados na cidade não só pelos filmes aqui exibidos, mas, também, pelas características dos filmes produzidos. A tentativa de designar a cidade como a Hollywood mirim e de sotaque caboclo, refere-se ao momento de transição e de renovação do capital urbano e industrial na cidade e no País.

O terceiro capitulo retrata, no contexto da industrialização pesada e de tendência à metropolização, o surgimento tardio da arte moderna na Cidade e o expansão do mercado de arte da capital paulista. Em particular as limitações dos grupos de artistas às voltas com a arte de vanguarda, em contraposição às visões de mundo conservadoras e de exaltação da arte acadêmica. No fundo, as disputas entre essas duas concepções tiveram seus limites pautados no ufanismo e no bairrismo sobre a cidade e a ausência de uma ruptura conceitual no campo cultural.

O último capitulo é uma síntese sobre as designações de origem que, de certa maneira, esbarram na constituição de um campo cultural dotado de relativa autonomia. O aspecto a ser ressaltado foi a transição, dos anos de 1970 para os de 1980, do discurso que afirmava a arte e a cultura como “da e para a cidade de Campinas”. E mais, como essas designações vão ser assumidas pelo poder público em substituição aos produtores tradicionais, bem como na tentativa efêmera de novos grupos sociais em relativizar essa prática cultural, em decorrência da busca de autonomia do campo cultural e do processo democrático em curso no inicio da década de 1980.

Em conformidade a isso, as mudanças estruturais na dinâmica do capital nacional e internacional facilitaram e aproximaram – via indústria cultural e meios de comunicação de massa – novas referências e identidades culturais, diluindo aos poucos a visão ensimesmada, concêntrica e ufanista de produção local. O aprofundamento e a expansão do eixo cultural Rio-São Paulo, a partir dos anos de 1970, processou uma nova dinâmica na produção, na difusão e no consumo local. Fora isso, desde os anos de 1950, ocorria na cidade mudanças na composição do capital econômico, acentuando como aspecto positivo a urbanização, a diversificação dos serviços e do contingente migratório.

A ideia de mercado cultural nos anos de 1980 na é precária, tardia e ainda se encontra desarticulada até hoje. O aprofundamento sobre a história social e cultural da cidade, levou-me a reorientar as minhas preocupações iniciais. O meu objetivo inicial era de verificar a existência do trabalho artístico no crivo das relações capital / trabalho, no campo cultural da cidade. Foi mais producente a análise sobre a história cultural e as limitações da mesma, como um exemplo típico de produção cultural fora do eixo Rio-São Paulo.

Utilizei dados em várias instituições, em particular no Centro de Memoria – UNICAMP e no conjunto das instituições ligadas à Secretaria Municipal de Cultura e à Prefeitura: MIS (Museu da Imagem e do Som), DIAC (Divisão de Ação Cultural), BPM (Biblioteca Pública Municipal), IMA (Informática dos Municípios Associados), entre outras. Foram úteis as informações coletadas na imprensa local, os depoimentos realizados por terceiros e os bate-papos informais que mantive com dirigentes, artistas e criadores. Além disso, com bolsas concedidas pela FAEP / UNICAMP realizei levantamento de dados em Brasília, nos ministérios do Trabalho, da Cultura, da Educação e nas bibliotecas do Senado, Câmara e na Universidade Nacional de Brasília. Os dados coletados nestas instituições estão subjacentes às analises sobre o mercado e sobre a dinâmica cultural do País.

O acompanhamento da história do campo cultural da cidade revelou indicadores sugestivos sobre as visões de mundo e os valores professados por várias frações de classes e/ou mesmo dos grupos sociais, ao longo desses anos. O fundamental ao se rastrear a dinâmica dos movimentos culturais expressivos de Campinas, foi a possibilidade de se inferir sobre a situação de dependência social dos artistas em relação às distintas instituições extra-campo cultural.

A preocupação em enfatizar e designar a cidade com os epítetos “Campinas artística”, “artista campineiro” ou mesmo “centro cultural” representou o distanciamento dos artistas, criadores e intelectuais à lógica da constituição de um campo cultural dotado de relativa autonomia. Esses diversos momentos demonstraram como parcelas significativas de artistas, criadores e intelectuais incorporaram a exaltação da arte e da cultura como algo ensimesmado, concêntrico, pontual e inerente, dificultando a crítica cultural, bem como a busca de critérios e práticas artísticas designadas a partir dos pares concorrentes.

Essa situação histórica, em certa medida, está em consonância com determinados aspectos da sociedade brasileira: seja pela formação tardia de um campo de produção erudita, seja pelo surgimento recente da indústria cultural, ou pela estrutura social do país que, através dos mecanismos de exclusão social, revela no processo criativo essa própria exclusão, impossibilitando assim a socialização e a democratização dos bens culturais.

As mudanças estruturais na dinâmica do capital urbano na cidade e a expansão do mercado simbólico – via indústria cultural e meios de comunicação de massa –, configurou-se como fator de deslocamento dos espaços dos produtores tradicionais. A busca de uma autonomia no campo cultural, nesse período, se processou a partir da negação do discurso ao inserir a produção da cidade no interior do mercado de bens simbólicos.

A questão cultural ainda é vista por determinadas frações de dirigentes de maneira conservadora e retrógrada. É fundamental a constituição de um campo cultural autônomo, relacionando-se com a possibilidade de emergir a diversidade e a diferença para quem produz, difunde e consome cultura no Brasil.

Referência bibliográfica:

BARRETO, Paulo Sérgio. O Caracol e o Caramujo: artistas & Cia. na cidade. Campinas: IFHC – UNICAMP [dissertação de mestrado], 1994.

 

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