Nós e a caverna de Pont D’Arc, França

We and the Pont D’Arc cave, France.

Maria Eugênia de Lima e Montes Castanho – professora, pesquisadora. Titular da Cadeira 36 do IHGG Campinas.

Há anos atrás pesquisei a linguagem através da arte concluindo ser ela uma atividade
humana de valor cognoscitivo pleno. O pensamento plástico é uma das atividades primeiras do homem, tão fundamental como as outras formas de explorar a realidade. Assim, a arte não é atividade complementar, acessória, mas um dos aspectos para entender a historicidade da sociedade humana. Não é puro eflúvio emocional, pois envolve o ser humano total.

Entro atualmente em contato com uma descoberta impressionante que confirma tudo isso. Muitíssimos séculos antes da palavra escrita – há 36.000 anos atrás – em uma caverna descoberta na França os seres humanos produziram verdadeiras obras de arte pictórica com complexos processos mentais, refutando a ideia de uma evolução gradativa da pintura. Foi um salto.

A caverna pré-histórica foi descoberta em 1994 com as pinturas rupestres mais antigas de que se tem notícia. Fica em Pont D’Arc, no Sul da França. As informações de que aqui me valho foram colhidas em Antonio Baquero, Historia y Vida, nº 565, Barcelona. Foi achada em uma grande ação de exploração de trabalho de três espeleólogos (estudiosos de cavidades naturais nas vertentes de sua formação).

Eles detectaram uma pequena corrente de ar procedente de um orifício da rocha. Apartando algumas pedras, observaram que se abria um estreito vão. Avançaram chegando a um lugar onde não precisavam mais se arrastar e podiam ficar de pé. Descobriram que sob seus pés havia um grande vazio. Em novo espaço, viram no solo numerosos ossos de animais, muitos dos quais mais tarde confirmou-se serem ossos cavernosos.

Os três espeleólogos exploraram o local declarando: Encontramo-nos bruscamente
em um mundo desconhecido, sem qualquer referência espacial ou temporal…. Quanto mais contemplavam detidamente as paredes do rochedo mais desenhos afloravam.

Saíram da caverna mais de meia noite. Uma vez no ar livre, enquanto amontoávamos pedras para esconder o acesso, a evidência nos golpeou mais à frente. Havíamos penetrado num espaço inviolado de dezenas de milhares de anos. Um santuário intato. Um lugar fora do comum em condições ótimas de preservação.

Jean Clottes, importante autoridade em pré-história e responsável pelo patrimônio junto ao Ministério da Cultura, foi encarregado de auferir a autenticidade da descoberta. Acedendo à caverna recorda: Para mim foi uma autêntica comoção… soube que tinha ante mim um descobrimento excepcional e que essas pinturas tinham um valor similar às de Altamira ou Lascaux. Era um achado como só há um em um século. Seus desenhos têm 36.000 anos de antiguidade! São 36 milênios, 360 séculos!

A descoberta anula a ideia de que a arte pré-histórica evoluiu gradualmente: Os desenhos não são rudimentares, são extraordinariamente realistas e sofisticados, há 36.000 anos já havia um incrível sentido estético e um domínio de técnicas complexas.

Para conseguir, por exemplo, ritmo e movimento, algumas pinturas estão formadas por superposições sucessivas de desenhos de animais, o que se constata nos murais de leões e de cavalos. Há autênticas narrações visuais de cenas de caça e de luta no caso dos rinocerontes. O Mural dos Leões, por exemplo, tem 12 metros de comprimento e 3,50 metros de altura. Representa oito leões perseguindo rinocerontes e ossos cavernosos. O realismo do traço é tal que o efeito de movimento é conseguido. Antes dessa descoberta considerava-se que o apogeu estético da arte era bem mais recente: a caverna de Lascaux, com pinturas de 19.000 anos.

Para preservar local de tal importância histórica foi feita uma réplica dessa caverna que é a maior cópia do mundo de uma caverna com pinturas rupestres. Reproduz as paredes, pisos e tetos decorados em 3.500 metros quadrados com dez pontos de observação. Investiram-se 54 milhões de euros nessa réplica aberta ao público. A fidelidade é total ao original: a umidade, o silêncio, a obscuridade e determinados odores próprios de Pont D’Arc. https://archeologie.culture.fr/chauvet/fr

Consequências de tudo isso nos levam a reforçar a convicção de que o pensamento plástico é discurso como os demais, já que nele realizam-se processos que envolvem todas as possibilidades cognoscitivas (raciocínio, memória, imaginação, abstração, comparação, generalização, dedução, indução, esquematização).

Levam-nos a pensar a educação. A formação da sensibilidade, a experiência de formas novas, a confrontação e a crítica de conteúdos diversos contribuem para o desenvolvimento da personalidade. O ato artístico inclui como condição prévia os atos de conhecimento racional, compreensão, reconhecimento, associação etc.

A descoberta de ricos e complexos desenhos feitos há 36.000 anos, (360 séculos!), revela, nos seres humanos, o desenvolvimento de processos mentais para a expressão da realidade vivida (muitos séculos antes da palavra escrita!) e enriquece as provas de que na arte estão presentes todas as operações cognoscitivas, valorizando a necessidade de um ensino que desenvolva ricos processos mentais, proporcionando condições de o estudante compreender os caminhos da arte e da história.

Publicado originalmente no Correio Popular, em fevereiro de 2020.

 

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