As construções antigas de Campinas (final)

The Campinas’s Old Buildings (SP, Brazil), Conclusion.

Benedito Barbosa Pupo* – jornalista, pesquisador. Patrono da Cadeira 43 do IHGG Campinas.

Continuação da edição anterior.

Para uma análise dos edifícios em geral, é necessário recorrer ao conhecimento do arquiteto Nestor Goulart Reis Filho, que em seu último livro, Quadro da arquitetura no Brasil, faz uma síntese da evolução da arquitetura.

Para esse autor, não eram só as fachadas das casas brasileiras que sofriam a influência de Portugal, mas também a sua planta. Deixadas em parte ao gosto dos proprietários, as plantas eram sempre monótonas, mostrando que os padrões oficiais apenas completavam uma tendência espontânea. Essas construções são assim descritas por Nestor Goulart Reis Filho:

As salas da frente e as lojas aproveitavam as aberturas sobre a rua, ficando as aberturas dos fundos para a iluminação dos cômodos de permanência das mulheres e dos locais de trabalho. Entre estas partes com iluminação natural, situavam-se as alcovas, destinadas à permanência noturna e onde dificilmente penetrava a luz do dia. A circulação realizava-se sobretudo em corredor longitudinal, que, em geral, conduzia da porta da rua aos fundos. Esse corredor apoiava-se a uma das paredes laterais, ou fixava-se no centro da planta nos exemplos maiores.

Na construção das residências mais importantes eram empregados pedra e barro e, mais raramente, tijolos e cal, com técnicas geralmente primitivas. Paredes de pau-a-pique, adobe ou taipa de pilão constituíam os elementos das construções mais simples. A execução dos telhados em duas águas tinha por objetivo dividir o fluxo pluvial, lançando-se uma parte dele sobre o quintal e outra sobre a rua. Evitava-se, assim, o emprego de qualquer outro sistema de captação de águas de chuva, que constituía raridade. Sendo nossa sociedade carente de aperfeiçoamentos, mas contando com abundante mão-de-obra graças ao trabalho escravo, era patente o primitivismo tecnológico nas construções da época. As casas de esquina, entretanto, apresentavam variações. O fato de serem construídas com duas fachadas permitia alterações nos esquemas de planta e telhado.

Além dos tipos de habitação mencionados, havia as chácaras. Esse tipo característico de habitação colonial, geralmente situado na periferia, conseguia reunir as facilidades de abastecimento e dos serviços das habitações rurais. Campinas ainda hoje apresenta testemunhas desse tipo de propriedade, remanescentes do passado, não se podendo, entretanto, afirmar quais foram construídas na era colonial e quais o foram posteriormente.

Uma das características urbanas marcantes da era colonial está no aspecto uniforme das ruas, com sobrados e casas térreas construídos no alinhamento das vias públicas e nos limites laterais do terreno. Naquela época, só duas opções havia para construção de casas, não se admitindo meios-termos. As casas eram então urbanas ou rurais. Não se concebiam casas urbanas recuadas do alinhamento da rua, com jardins, estilo que só foi introduzido no século XIX.

A rua, que se caracterizava pela presença de habitações, pois uma via pública demarcada por cercas era apenas uma estrada, existia sempre como um traço de união entre o conjunto de prédios e por eles era definida espacialmente.

Para bem compreenderem-se os problemas urbanos da era colonial, é aconselhável a leitura do seguinte trecho de Nestor Goulart Reis Filho:

Nessa época ainda eram desconhecidos os equipamentos de precisão da topografia e os traçados das ruas eram praticados por meio de cordas e estacas e não havia portanto possibilidade de serem mantidos por muito tempo os traçados rígidos, sem que fossem erigidos os edifícios correspondentes. A impressão de monotonia era acentuada pela ausência de verde. Inexistindo os jardins domésticos e públicos e a arborização das ruas, acentuava-se naturalmente a impressão de concentração, mesmo em núcleos de população reduzida. Atenuavam-se apenas os pomares derramando-se por vezes sobre os muros.

Surge no século XIX uma transformação no padrão arquitetônico nas residências brasileiras. Representada pela casa de porão alto, esse novo tipo de residência era uma transição entre as casas térreas e os velhos sobrados. Isso já significava algo de avanço, numa época em que as construções estavam vinculadas ao braço do escravo.

Na primeira metade do século XIX, ainda se consideravam praticamente as mesmas normas na construção das casas urbanas, já que os usos e costumes da população, dependentes ainda do trabalho escravo, não sugeriam grandes transformações. Até essa época, mantinha-se ainda o velho esquema de vincular a habitação ao lote urbano, conservando-se com pequenas alterações as normas coloniais. O costume de se construírem as casas avançadas até o alinhamento das ruas e os limites com o vizinho, como se fazia no século anterior, permanecia.

Essa primeira metade tem a peculiaridade de abranger 22 anos do período colonial, extinguindo-se com a proclamação de D. Pedro I, em 7 de setembro de 1822. Pertencendo, portanto, à era colonial do Brasil, nele não se processaram transformações de vulto, subsistindo comumente as formas de utilização das habitações, assim como os mesmos processos construtivos do sistema escravagista, que alguns anos após começava a se alterar.

Era, ainda, o Brasil colônia de Portugal, quando, em 1816, a Academia de Belas Artes iniciou suas atividades no Rio de Janeiro. Naquele ano, chegara ao Brasil a Missão Artística Francesa, estabelecendo-se então o ensino oficial das artes plásticas no país. Graças a esses dois eventos, o panorama da arquitetura no Brasil começou a sofrer transformações de vulto, dando origem a construções mais refinadas. Nesse período, introduz-se aqui, por influência dessa Missão Artística, o neoclassicismo. Abrindo-se às influências culturais internacionais, o Brasil vê a arquitetura sofrer grandes transformações.

A transformação digna de nota foi o aparecimento do novo tipo de residência, na qual se introduziu o porão alto. Ainda alinhada na rua, essa construção representava, entretanto, uma transição entre as casas térreas e os velhos sobrados. Lê-se, ainda, em Nestor Goulart Reis Filho:

Longe do comércio, nos bairros de caráter residencial, a nova fórmula de implantação permitiria aproximar as residências da rua, sem os defeitos das casas térreas, graças aos porões mais ou menos elevados, cuja presença era muitas vezes denunciada pela existência de óculos ou seteiras com grades de ferro, sob as janelas dos salões.

No meio do século XIX, a cafeicultura expandia-se nas terras do Oeste paulista, passando a substituir a cultura canavieira. Na segunda metade daquele século, transformações sécio-econômicas e tecnológicas operaram-se no Brasil, renovando os velhos hábitos de construir e habitar. Campinas inseria-se no contexto nacional, adotando então novos padrões para as suas construções. O advento da ferrovia e o transporte fluvial favoreceram essas mudanças, ao proporcionarem transporte fácil de equipamentos pesados, cujas implicações na tecnologia das fazendas foram ponderáveis, com reflexos nas moradias urbanas.

Libertando-se das normas condicionadas pelo sistema servil, as construções já não se sujeitavam aos esquemas rígidos de situação nos limites do lote. Apareceram então os prédios recuados. primeiramente de um dos lados, depois de outro e, finalmente, dg alinhamento da rua. Essa evolução fez surgirem casas isoladas, afastadas dos vizinhos, com jardins laterais e na frente.

Como assevera Nestor Goulart Reis Filho, é tarefa difícil, mesmo para os especialistas, determinar-se com precisão as datas da construção de cada um dos edifícios. Situar, num trabalho condensado como o presente, os estilos predominantes nas várias épocas – colonial, neoclássico e eclético – é tarefa que transcende o objetivo em vista, que é o de apenas pôr diante dos olhos do leitor aspectos curiosos da cidade e das fazendas.

Campinas possui (e possuiu), em sua zona urbana como na rural, curiosas construções, dignas de serem focalizadas. Algumas ainda podem ser vistas, ostentando seus curiosos aspectos e suas fachadas pobres, mas pitorescas ou suntuosas. Das que existiram, algumas podem ser apreciadas em desenhos ou fotografias existentes na Biblioteca Pública Municipal Prof. Ernesto Manuel Zink.

A pintora Fúlvia Gonçalves, do Instituto de Artes da Unicamp, empolgou-se por essas fachadas, resolvendo desenhá-las a traço, sem preocupar-se com seu significado arquitetônico, apenas levando em conta os aspectos interessantes e curiosos oferecidos por elas. Disso resultou a magnífica coleção de desenhos que constitui essa maravilhosa documentação iconográfica, que abrange tanto aspectos rurais como urbanos de Campinas, cuja memória tem para sua preservação a presente obra.

Este trabalho de Fúlvia Gonçalves é, pois, o coroamento de pesquisas desenvolvidas tanto por ela como por mim, em arquivos, em busca de informações e imagens fixadas no passado, por fotógrafos, pintores e desenhistas. Isso acrescido de peregrinações que fizemos pelas ruas de Campinas para fotografar aspectos curiosos que depois desapareceram, sacrificados pelo progresso.

* In memorian

Referências bibliográficas:

GONÇALVES, Fúlvia e PUPO, Benedito Barbosa. Testemunhos do passado campineiro. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1986.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: José Olympio Editora, 1971.
MELLO, Joaquim Corrêa de. Café Campinas. (s.n.t.), 1872. Original digitalizado pode ser encontrada em: <http://pro-memoria-de-campinas-sp.blogspot.com/2011/01/memoria-escrita-cafe-campinas-por.html&gt; , acessado em outubro de 2019.
REIS FILHO, Nestor Goulart dos. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1973.

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