Os narradores de Campinas

The Campinas’ rapporteurs.

Flávio de Godoy Carnielli – professor, cineasta. Correspondente do IHGG Campinas em Paulínia, SP.

Conforme apontou José Roberto do Amaral Lapa (2000, p.65), Jolumá Brito, José de Castro Mendes e Júlio Mariano viveram uma fase em que fazer história ainda não possuía uma vinculação estrita ao universo acadêmico. Eles conformaram uma geração de amadores, e é bom ressaltar que eles jamais trabalharam com história, ou seja, nunca foram professores, primários ou secundários e, raramente, ganharam algum dinheiro com suas publicações. Por muitos anos eles mantiveram outros empregos, especialmente na imprensa.

Na época, esses autores amadores disputavam espaço pelos jornais e pelo reconhecimento em um mercado limitado. A maior parte era jornalista e dedicaram seus esforços, muitas vezes também financeiros, a obterem os mais diferentes aspectos do passado da cidade.

Entretanto, entre as décadas de 1950 a 1980, Júlio Mariano, José de Castro Mendes, Jolumá Brito e mais outros estudiosos, foram os donos da história local, além de vozes representativas enquanto formadores de opinião. Seus nomes, já havia muito tempo estampados quase ou mesmo diariamente na imprensa, faziam-nos relativamente conhecidos de boa parte da cidade, não somente enquanto jornalistas, mas também e, principalmente, enquanto historiadores.

Eram praticamente sumidades relacionadas ao passado: organizadores de museus e efemérides, membros de comissões de estudos oficiais ligadas à prefeitura e à câmara municipal, assim como orgulhosos donos de medalhas e prêmios em reconhecimento aos seus esforços por recuperarem o passado por meio de palestras, livros, programas de rádio e colunas de jornais.

Além de terem reunido e compilado um enorme conjunto documental, os três autores escreveram bastante sobre suas vidas na cidade, especialmente por meio de reminiscências, compondo, no conjunto, o que é chamado na academia de memorialismo urbano.

Seus escritos ajudaram, por um lado, a selecionar o que deveria ser preservado como um registro do passado campineiro, com a busca e compilação de documentos (como os da Câmara Municipal de Campinas e os do Centro de Ciências, Letras e Artes), a organização de acervos museológicos e até mesmo com a voz ativa destas figuras, o que refletiu inclusive na organização do patrimônio institucionalizado na cidade.

Por outro lado, em suas memórias, as reminiscências, concentram-se em grande parte em um olhar que acabou sendo emprestado a Campinas, especialmente sobre um determinado período da história local, quando a cidade passou por aquilo que a historiografia chama de momento de ruptura (Carpinteiro, 1996, p.13), com enormes transformações urbanas, especialmente na região central, transformações estas que os autores leram e divulgaram como rememorações que acabaram se transformando em efemérides.

Como uma maneira de escrever sobre o passado, o memorialismo urbano é sim uma atividade ultrapassada e não há como negar que esses autores tiveram sua fase de ouro durante algumas décadas do século XX, quando encontraram tanto as ferramentas quanto o clima intelectual propício para a elaboração, divulgação e também aceitação de seus trabalhos.

Especialmente a partir de meados da década de 1970 e início da de 1980, a pesquisa a respeito da história de Campinas passou gradualmente a trocar de mãos, ficando a cargo de historiadores formados sobretudo pelas universidades paulistas, que começaram a se dedicar não só à docência, mas também à pesquisa, o que se evidencia com o maior número de pesquisas e teses da história da cidade nas universidades locais e em muitas outras de várias regiões do pais e do mundo.

Esta passagem, em princípio, não afetou a produção dos memorialistas, mas com o passar dos anos marcou um declínio evidente e que obviamente se acentuou com suas mortes – e a falta de herdeiros imediatos – e com o enfraquecimento da imprensa puramente bairrista que incentivava o olhar e a produção de Campinas para Campinas.

Além disto, nesta mesma década de 1970, a população de Campinas aumentou drasticamente, dando os contornos iniciais de uma cidade que, ao menos na estatística, tornava-se cada vez mais uma metrópole real. Dentre estes novos habitantes, os migrantes que vinham em busca de oportunidades, assim como uma nova elite, industrial e intelectual, acabaram por diluir um pouco a ideia de um exclusivismo dos campineiros.

Isto não significa, entretanto, que a obra deles tenha morrido, ou que por algum designo seja impossível alguém pegar uma folha de papel e escrever suas memórias e as memórias de sua cidade. É possível, e existem ainda alguns trabalhos conduzidos pela ideia do querer bem, amar a cidade. No caso de Campinas, basta abrir os jornais ou fazer uma rápida busca pelas páginas da rede.

Os memorialistas urbanos sobrevivem além do famigerado plaquismo (o empréstimo de nomes para ruas, praças e estabelecimentos culturais) e das pequenas reportagens que de tempos em tempos os veículos de comunicação (especialmente aqueles em que eles trabalharam durante vários anos) produzem em homenagem a eles e às efemérides, pois ainda há muito dos trabalhos de Jolumá Brito, Júlio Mariano e José de Castro Mendes na cidade de Campinas.

Diversas das imagens criadas ou propagadas por eles a respeito da cidade ainda perduram, especialmente em se tratando de história e basta uma rápida busca pelos estudos históricos presentes nos processos de tombamento do Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC) para constatar esta afirmação.

O conjunto de suas obras, pelo recorte temporal e pela quantidade de temas abraçados, permanece sendo parte importante da historiografia de Campinas, pois estes autores continuam a ser referências constantes nas pesquisas acadêmicas, especialmente por fornecerem, com boa habilidade, datas, transcrições de documentos e até mesmo, ainda que esta possa não ter sido a intenção, uma direção inicial acerca de onde encontrar as fontes primárias.

Constatar que seus trabalhos são construções a respeito da história de Campinas parece bastante óbvio e é, sem dúvida, uma constatação que qualquer historiador com um mínimo de senso crítico deve ter a respeito, aliás, de toda e qualquer produção historiográfica. O empenho deve estar concentrado na tentativa de desvendar como e por quais razões se construiu o passado com este ou com aquele enfoque.

Por tal razão, ao analisar as obras dos memorialistas urbanos, é preciso não se perder de vista que Campinas sempre foi uma cidade diversificada socialmente, culturalmente e em diversos outros aspectos que levam a terminação mente e, por isso, a produção de Brito, Mariano, Castro Mendes e outros não pode ser encarada como o conjunto dos relatos de uma verdade absoluta ou de uma experiência global da população da cidade em um determinado recorte temporal.

Isto porque, se suas leituras sobre a cidade carregam alguns elementos particulares, atendem, também, a formações discursivas relacionadas àquilo que a geração dos autores tinha olhos pra ver sobre o passado e o presente da cidade, que se relaciona especialmente à ideia de que falavam sobre uma metrópole em formação e uma noção que, se não foi criada, ao menos foi extremamente divulgada por eles, em que, tal como construções a priori como raça e nação, acreditava-se que o ser campineiro era algo perfeitamente distinguível, que existia marca própria dele e que, por isso, deveria necessariamente interessá-lo. Uma cidade de poucos, para poucos e que ainda existe, com seus marcos físicos e simbólicos, seus representantes e sua auto imagem.

Estes autores compuseram, em maior ou menor medida, um conjunto historiográfico no qual predominam o gênero masculino (a própria idealização da cidade enquanto mulher é significativa nesse sentido), o homem branco e uma concepção de elite campineira que, embora não se restrinja aos mui abastados, valoriza por demais a questão da biografia ligada à cidade, especialmente por meio do entendimento de que vivência, dedicação constituem, além de uma declaração de amor e pertencimento, a única porta possível de entrada no universo da história local, e a proximidade de suas ideias a respeito de Campinas deixa isso bem claro.

Nesse sentido, os memorialistas urbanos foram, a exemplo dos javéicos, os narradores de Campinas. Nesta comparação não está em discussão (como acredito que não está no filme: Os Narradores de Javé, direção de Eliane Caffé, 2003, 100′) o que é verdade e o que é mentira, mas sim a constatação de que Brito, Mariano e Castro Mendes, os mais prestigiados e festejados homens de história de seus tempos, procuraram, a todo instante, se integrarem na vida e principalmente na história de Campinas, com a concepção de que a biografia de si e a biografia da cidade caminhavam inseparáveis.

Referências bibliográficas:

CARNIELLI, Flávio de Godoy. Gazeteiros e bairristas: histórias, memórias e trajetórias de três memorialistas urbanos de Campinas. Campinas: IFCH – UNICAMP (dissertação de mestrado), 2007.
CARPINTERO, Antonio Carlos Cabral. Momento de Ruptura: As transformações no centro de Campinas na década de cinquenta. Campinas, CMU, 1996.
LAPA, José Roberto do Amaral. A cidade, os cantos e os antros: Campinas, 1850-1900. São Paulo: EDUSP, 2000.
RUBINO, Silvana. “O mapa do Brasil passado” in: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 24, 1996, pp. 97-105.

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