Na Suécia, Olof Palme, Ingrid Bergman e Sílvia, a rainha brasileira

At Sweden, Olof Palme, Ingrid Bergman and Sílvia, the brazilian queen.

Geraldo Affonso Mussi – embaixador, escritor. Titular da Cadeira 4 do IHGG Campinas.

Servi na embaixada do Brasil em Estocolmo na Suécia, meu segundo posto (Moscou foi o primeiro) por três anos, exatamente entre setembro de 1976 e setembro de 1979. Alguns dos momentos marcantes foram a visita do rei Carlos XVI Gustavo ao estande do Brasil na feira de Malmo, o dia em que Vinícius de Morais veio à Suécia, e os curtos momentos em que vi a atriz Ingrid Bergman passar em frente à chancelaria da nossa embaixada na rua Sveavagen, bem como quando avistei o primeiro ministro Olof Palme, o inesquecível líder social democrata.

A família real sueca provém da dinastia do general francês Bernadotte, que o parlamento sueco Riksdag escolheu para regente no período das invasões napoleônicas, tornou-se rei por volta de 1815, e dura portanto mais de 200 anos no palácio real da cidade velha em Gamla Stan. O rei Gustavo VI Adolfo, ficou muito conhecido no Brasil em junho de 1958, quando cumprimentou todos os jogadores brasileiros campeões do mundo no estádio Rasunda, no bairro de Solna, após a vitória sobre a Suécia por 5 x 2, na partida final do dia 29 de junho, com dois gols do menino Pelé, de 17 anos. Seu neto Carlos XVI Gustavo tinha apenas 12 anos na época mas seguramente acompanhou aquela histórica Copa da FIFA. Nascido em 1946, Carlos XVI foi coroado rei em 1973. Um ano antes tinha ido a Munique para assistir as Olimpíadas de Verão e ali conhecera a bela Sílvia Sommerlath, filha de uma brasileira e pai alemão e se casaram quatro anos depois, em 1976, na Catedral Luterana de Estocolmo. Sílvia viveu no Brasil até os 14 anos e estudou no Colégio Porto Seguro em São Paulo. Em 1957 a família se mudou para Munique; ela trabalhou para o consulado da Argentina e, em 1972, no cerimonial dos jogos olímpicos, quando conheceu Carlos XVI.

Aquelas Olimpíadas entraram para a história de forma trágica, quando o grupo terrorista alemão Setembro Negro causou a morte de 17 pessoas na Vila Olímpica de Munique, dos quais onze atletas e dirigentes da equipe de Israel.

O rei e a rainha têm três filhos, duas princesas e um príncipe. A herdeira direta do trono é a princesa Vitória. O embaixador do Brasil em Estocolmo no final da década de 70 era Pimentel Brandão, que periodicamente era convidado para cerimônias no Palácio Real. A embaixada do Brasil, promovia a participação brasileira em feiras internacionais na Suécia, entre elas uma de produtos alimentares em Malmo, a terceira cidade do país. No meu álbum de retratos tenho foto do rei Carlos XVI Gustavo ainda bem jovem, visitando o nosso estande, quando provou do suco de laranja brasileiro.

Vinícius de Morais visitou a Suécia naquela época. Tinha sido colega do embaixador Pimentel Brandão no início da carreira diplomática de ambos e foi tomar um drinque na residência oficial da embaixada na praça KarlsPlatz. Eu também fui convidado e o embaixador me pediu para levar Vinícius para uma via sacra de bares em Estocolmo. Em toda parte Vinícius era reconhecido pelos seus admiradores e chegamos a cantar juntos no restaurante da Geralda o seu famoso Samba da Benção. O inesquecível poetinha bebia sem parar mas mantinha a compostura e o senso de humor. Depois de um século do seu nascimento, em 2013, Vinícius nunca é esquecido no Brasil e marcou época ao compor Garota de Ipanema em dupla com Tom Jobim. Ele é reverenciado também na Bahia como pai de santo pelos devotos dos orixás, as divindades africanas, tais como Xangô, Oxóssi e Exu.

Uma das maiores atrizes de Hollywood foi a sueca Ingrid Bergman, premiada três vezes com o Oscar da Academia de Cinema. Nascida em 1915, viveu relativamente pouco, 67 anos. Na época em que servia em Estocolmo, recordo-me do dia e da hora pela manhã em que ela, já com mais de 60 anos mas sempre linda, passou em frente à chancelaria da embaixada; por coincidência, eu estava em pé diante da porta principal na rua Sveavagen, com vista para o parque e o hotel Anglais, onde normalmente eu estacionava o meu Volvo. Eu era apaixonado por ela desde a adolescência em Belo Horizonte, quando assisti o filme Joana d’Arc, em que ela era a heroína francesa de 16 anos, e também o filme Casablanca em que ela estava ao lado de Humphrey Bogart na inesquecível cena em Marrocos em que o pianista Sam cantou a canção As time goes bye; ou ainda, sob a direção do cineasta italiano Rossellini no filme Stromboli, que é o nome de uma ilha. Eu já a havia visto em mais de uma dezena de filmes, mas aquela foi a primeira e única vez em que a vi pessoalmente. Paralisado, não ousei nem cumprimentá-la porque sabia que na Suécia os seus admiradores evitavam perturbá-la. Em Estocolmo, as celebridades são intocáveis.

Nem todas as celebridades são intocáveis. Uma delas foi o primeiro ministro social democrata Olof Palme que também contemplei de perto, quando nos cruzamos andando a pé diante do Teatro Dramático, na rua do cais do porto Strandvagen. Na Suécia, até mesmo as maiores autoridades, não tinham carro nem motorista oficial e iam trabalhar de metrô, de ônibus ou bicicleta. Olof Palme foi a figura central da política sueca por mais de quinze anos. Ele reprovava a repressão e os regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile, na década de 70. Por influência de Palme, o embaixador da Suécia em Santiago, conseguiu obter a custódia e a transferência para Estocolmo de dezenas de prisioneiros políticos do ditador Pinochet. Entre eles havia algumas dezenas de jovens brasileiros que haviam sido libertados em troca de diplomatas estrangeiros sequestrados e levados de avião para o Chile, ainda na época do presidente esquerdista Salvador Allende, deposto e morto pouco tempo depois pelos militares chilenos. O mais famoso dos jovens brasileiros recambiados para o Chile e daí para a Suécia, foi o jornalista Fernando Gabeira, que eu conhecera em Belo Horizonte desde a adolescência, quando ele e eu iniciávamos nossa carreira no mesmo jornal. Tive vários contatos com ele na Suécia, onde frequentávamos ocasionalmente a mesma piscina pública, jogamos futebol juntos e assistimos filmes em um festival do cinema brasileiro. Pois bem, Olof Palme, o social democrata (não comunista) que era profundamente admirado na Nicarágua, onde também servi temporariamente como Encarregado de Negócios e conheci dona Violeta Chamorro e Daniel Ortega, pois bem, Olof Palme, que viveu em um dos países mais civilizados do mundo, onde o respeito à pessoa e à vida humana são sagrados, acabou assassinado por um alcoólatra revoltado, quando andava com a esposa por uma rua do centro de Estocolmo à noite, vários anos depois da época em que lá vivi.

Referência bibliográfica:

MUZZI, Geraldo Affonso. Trilha Diplomática: trilogia internacional. Campinas: Pontes, 2014.

 

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