Saúde e doença: um enfoque antropológico

Health and illness: an anthropological approach.

Marcos de Souza Queiroz* – sociólogo, pesquisador do Centro de Memória – UNICAMP.

O livro focaliza as posturas que se antagonizam com o método positivista de intervenções de cura e saúde. O debate entre a racionalidade científica hegemônica e oficial e as racionalidades alternativas está sendo sendo muito produtivo no Brasil, resultando em obras que procuram desvendar o sentido intrincado do relacionamento entre uma determinada racionalidade científica e os níveis socioculturais e políticos mais amplos. Sobre esse tema desenvolvemos uma crítica teórica consistente — assentada em fatos históricos e etnográficos — ao paradigma positivista mecanicista hegemônico na medicina “oficial” e ao sistema de saúde brasileiro. Espera-se que a pesquisa empírica — realizada nas Faculdades de Medicina da UNICAMP e da PUCAMP e na Rede Básica de Serviços de Saúde de Campinas, no final dos anos de 1990 — esclareça o sentido do termo “alternativo” em saúde e doença.

O ponto de vista teórico central percebe que a inadequação do paradigma mecanicista, para dar conta da saúde da população em geral, tem um papel significativo nas várias crises do setor saúde. Pesquisar as experiências práticas que procuram ampliar os conceitos de saúde e doença, incluindo neles as dimensões socioculturais e psicológicas, significa trazer luz a um problema que, apesar das inúmeras evidências que comprovam suas virtudes epistemológicas, ainda não conseguiu se posicionar claramente como um novo paradigma científico.

A medicina científica ocidental sofreu um extraordinário processo de expansão a partir do século XVIII, consolidando um modelo no qual, juntamente com a Biologia, elaborou uma concepção mecanicista da vida. A partir da Segunda Guerra Mundial, esse modelo sofreu uma sofisticação tecnológica sem precedentes, o que lhe permitiu a sintonia ainda maior com o sistema produtivo e, ao mesmo tempo, um poder cada vez maior de intervenção no corpo humano a fim de moldá-lo às necessidades da produção. Além disso, essa sofisticação tecnológica não se faz sem grandes investimentos, o que coloca o campo médico como uma área em que se processa intensa acumulação de capital.

No campo ideológico, até recentemente, esse período tem se caracterizado por um grande otimismo no poder da ciência e da tecnologia na resolução dos problemas sociais e humanos. A ideologia da excelência tecnológica, presente a partir do período industrial, transformou a razão em instrumento de produção, reforçando o conhecimento tecnológico como supremo, ainda que legitime injustiça, opressão e elitismo.

No entanto essa postura começou a ceder lugar a uma percepção na qual se configuram os limites da expansão e das possibilidades da ciência e da tecnologia na resolução de alguns dos mais importantes problemas humanos. Isso é particularmente verdadeiro no caso da medicina, em que se verifica uma crise profunda não só da sua prática institucional como também de seu corpo de conhecimentos. A crise da medicina ocidental moderna refere-se à crise de seu paradigma dominante, o qual se identifica inteiramente com a postura positivista. Os postulados principais do método positivista referem-se a uma completa separação entre sujeito e objeto de pesquisa; ao destaque para o método, que se posiciona como intermediário entre o sujeito e o objeto de conhecimento; ao predomínio, entre as faculdades humanas, do intelecto como meio privilegiado de apreensão da realidade.

Na medicina, essa postura concebe o corpo humano como uma máquina e a doença como um mau funcionamento de mecanismos biológicos, que podem ser estudados a partir da biologia celular e molecular. Pressupõe-se assim que o ato terapêutico possa ser explicado exclusivamente pela intervenção química ou física em diferentes partes e estruturas do organismo humano no sentido de eliminar a doença. Esta, por sua vez, é percebida, em grande medida, pela agressão monocausal externa de um agente patogênico. O papel dos médicos, nessa situação, é o de intervir física ou quimicamente no organismo afetado. A concentração do olhar científico em partes cada vez menores do corpo acabou por levar à perda da abordagem do paciente como ser humano e a particularizar setores de um mecanismo biológico, cujo propósito maior é tornar o indivíduo apto para o sistema produtivo.

A concepção mecanicista da medicina pressupõe que, da mesma forma que qualquer objeto natural, a saúde e a doença podem ser explicadas exclusivamente pela interação mecânica das diferentes partes do organismo humano. Nessa concepção, não se reconhece o papel da sociedade, da cultura, da comunidade científica e da própria história na determinação não só do objeto do conhecimento, como da maneira de abordá-lo. Nesse sentido, como muito bem lembrou Marcuse (1969), o positivismo caracteriza-se por conceber um tipo de razão que é, em sua essência, instrumental e submissa ao etos voltado à dominação do homem e da natureza.

A Sociologia, a Psicologia Social e a Antropologia Social e Cultural têm sido importantes nas demonstrações teóricas e empíricas de que fatores imanentes (lógicos e metodológicos) ao conhecimento não podem explicar isoladamente tanto o seu sentido como o seu desenvolvimento pois, para tal, seria necessário considerar fatores socioculturais, históricos e psicológicos. Essa posição constitui um golpe ao positivismo, que pretende ver no conhecimento um desenvolvimento contínuo, com base no desvendamento objetivo e progressivo da natureza, passível de ser acumulado no tempo com o mesmo sentido, sempre. Tal positivismo, como ironizou Sartre, nada mais é do que a ilusão de se chegar à unidade acrescentando-se noves a 0,99.

Ainda que haja um consenso nas Ciências Sociais, particularmente nas áreas da Antropologia da Medicina e Sociologia da Saúde, de que a compreensão da saúde e da doença não pode prescindir de fatores sociais, culturais e psicológicos, essa perspectiva só recentemente tem sido aberta, ainda que timidamente, no ensino de medicina e ciências da saúde.

Estudos realizados com placebos, com o estresse e com a atitude que envolve o fator emocional e a autoestima em relação à cura têm revelado aspectos que as ciências humanas em geral e, ironicamente, as representações do senso comum de muitas sociedades já conheciam, ou seja, o fato de que tanto a saúde como a doença dependem em grande medida de componentes subjetivos e emocionais relacionados com a experiência de vida. Intervir nessas dimensões pode ser eficaz para muitos problemas que a medicina insiste em focalizar sob o ponto de vista estritamente biológico.

A tentativa de se adotar uma medicina mais “holística”, que perceba o ser humano em sua totalidade, como proposto originalmente pelo movimento sanitário no Brasil, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), pode ser considerada o ponto fraco das reformas implementadas no setor através do Sistema Único de Saúde (SUS). A definição de rumos quanto a esse aspecto necessita de pesquisas que mostrem as experiências ocorridas nessa área e que dimensionem os obstáculos que dificultam o seu desenvolvimento.

O objetivo deste estudo é, portanto, descer à microsubjetividade da experiência de saúde e doença, procurando, ao mesmo tempo, remetê-la a um nível sociológico e cultural mais amplo. Trata-se de uma aproximação inovadora no contexto da Sociologia da Saúde no Brasil — a área acadêmica que, no interior das Ciências Humanas, mais se destacou no estudo da medicina e saúde no Brasil —, que tem concentrado sua atenção no Estado a partir de um recorte estruturalista do Marxismo. Não obstante o indiscutível vigor de tal produção, ela não estimulou pesquisas específicas no plano institucional e das relações sociais e muito menos a perspectiva da práxis e das representações sociais. Nesse sentido, este estudo insere-se em uma nova onda de investigações relacionadas com uma perspectiva microssociológica, com grande influência da Antropologia Social e Cultural, que sem dúvida permite ampliar o foco em questão.

A concentração da pesquisa no município de Campinas justifica-se pelo fato de este município ter se caracterizado, em vários aspectos, como pioneiro não só no processo de descentralização e municipalização dos serviços de saúde, como também no desenvolvimento de abordagens alternativas de tratamento de doenças, principalmente as crônico-degenerativas e de saúde mental. A sua experiência pode contribuir de modo significativo para a geração de conhecimentos e tecnologias para o aprimoramento desse processo em escala mais ampla.

Apesar de todos os obstáculos existentes na implementação de algumas formas alternativas de tratamento de doenças, várias experiências confirmam a sua viabilidade prática. A implantação dessas formas terapêuticas em alguns Postos e Centros de Saúde de Campinas constitui exemplos que não são isolados, uma vez que experiências desse tipo são cada vez mais frequentes em todo o território brasileiro. Um outro ponto teórico fundamental nessa investigação refere-se à hipótese de que tal proposta contém o germe do futuro paradigma que poderia ser denominado “humanístico” da medicina.

A própria natureza da pesquisa convidou à adoção de uma postura eclética do ponto de vista teórico e metodológico. De um modo geral, as três grandes correntes da Sociologia e Antropologia modernas, representadas por Marx, Durkheim e Weber, estão presentes por meio de várias mediações mais recentes como, por exemplo, a Escola de Frankfurt, o Estruturalismo inglês e a Fenomenologia de Schutz.

Os métodos de investigação utilizados foram principalmente aqueles produzidos pela tradição etnográfica e pela perspectiva fenomenológica. Em vez de usar os fatos para confirmar uma determinada teoria, a pesquisa se utilizou, pelo contrário, de várias abordagens teóricas como instrumentos que realçam alguns pontos relevantes da realidade. Essa postura tem nas teorias de Weber e, mais modernamente, da escola de sociologia fenomenológica os alicerces fundamentais da teoria da representação social.

É, portanto, um pressuposto fundamental desta pesquisa que os sujeitos entrevistados têm representações coerentes em relação ao universo vivido e experimentado. Como se trata de profissionais que costumam teorizar sobre a sua prática profissional, ao lado de um conhecimento prático, de senso comum, que forma uma concepção de vida e orienta suas ações individuais, encontramos também conhecimentos teóricos altamente elaborados. Nesse sentido, as “representações sociais” aparecem como instâncias privilegiadas de investigação científica, visto que elas incluem, em menor escala, ingredientes fundamentais do pensamento e da vida social.

* Colega falecido em 2010.

Referência bibliográfica:

QUEIROZ, Marcos de Souza. Saúde e doença: um enfoque antropológico. Bauru, SP: EDUSC, 2003, 228p.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s