Maria Lúcia de Souza Rangel Ricci: historiadora brilhante

Maria Lúcia de Souza Rangel Ricci: brilliant historian.

Olga R. de Moraes von Simson – professora, socióloga. Titular da cadeira 40 e ex-presidente do IHGG Campinas.

Há aproximadamente trinta anos atrás, quando acompanhando meu marido fixei-me em Campinas, procurei uma grande amiga e colega de doutorado na USP, a antropóloga Irene Barbosa que, sendo campineira, mas atuando já há alguns anos na Escola de Sociologia e Política, em São Paulo, poderia me apresentar ao mundo intelectual da cidade que havíamos escolhido para residir. Ela prontamente se propôs a me ajudar e, além de introduzir-me ao Centro de Memória da Unicamp e apresentar-me ao Professor Amaral Lapa que o dirigia, logo me aproximou de Maria Lúcia Ricci, dizendo que nos daríamos muito bem, por possuirmos interesses semelhantes, embora desenvolvendo nossos trabalhos em disciplinas diversas: ela na História e eu na Sociologia da Cultura.

Logo nos primeiros contatos fiquei surpresa com a profundidade dos conhecimentos históricos da nova amiga, mas principalmente com sua generosidade ao dividi-los comigo, uma novata em assuntos campineiros.

Maria Lúcia, nascida em Campinas, em 6 de maio de 1941 era de tradicional família brasileira, os Souza Rangel, tendo se Bacharelado e Licenciado em História pela PUC-Campinas e feito seu Doutorado em História Econômica na USP. Exerceu sua docência em várias instituições universitárias: PUC-Campinas, PUC-SP, UNIMEP e UNESP (Campus de Franca), onde se aposentou. Depois de aposentada, exercitou sua capacidade de experiente pesquisadora, sendo bolsista do CNPq junto ao Centro de Memória da Unicamp.

Além de esposa dedicada, mãe e avó extremosa, ela tinha muita facilidade para escrever, produzindo textos que, embora abordassem aspectos pouco conhecidos da realidade histórica, eram de leitura agradável, mesmo para os não acadêmicos e dessa forma contribuiu muito para o sucesso do periódico “Notícias Bibliográficas e Históricas”, editado por um de seus Mestres, que ela sempre admirou: o Professor Odilon Nogueira de Matos. Outro historiador campineiro com quem Maria Lúcia se orgulhava de manter longos e profundos laços de amizade foi o genealogista e museólogo, Celso Maria de Melo Pupo, ao qual ela se referia como “um erudito e mestre da pesquisa documental” e a quem ela fazia questão de visitar regularmente, principalmente na fase final dos seus longos 104 anos de vida.

Maria Lúcia foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e tinha grande prazer em participar das reuniões dessa importante entidade cultural, dirigindo-se com frequência à Capital no sentido de apresentar seus trabalhos de pesquisa nesse fórum dos estudiosos da história paulista. Ela foi, sem sombra de dúvida, uma digna representante da nossa cidade entre a intelectualidade paulistana. Outra entidade cultural que essa historiadora campineira frequentava com entusiasmo e orgulho era a Academia Campinense de Letras, local onde ela travava densos e entusiasmados debates com seus colegas de sodalício e onde frequentemente fazia uso da palavra para apresentar seus resultados de pesquisa. Também integrou o nosso Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas desde sua primeira hora, sendo uma entusiasta colaboradora desta casa e trazendo para todos nós sua longa experiência da vida intelectual compartilhada em sodalícios culturais.

Maria Lúcia foi membro muito importante das pesquisas que realizamos, em equipe, no Centro de Memória da Unicamp, para tentarmos conhecer mais profundamente a realidade sócio-histórica dos bairros de Campinas. Inicialmente pesquisamos os bairros mais antigos da cidade e que foram os primeiros a se desligarem do centro, como dois bairros autônomos apresentando perfis populacionais diversos: o Cambuí e a Vila Industrial. Posteriormente, com apoio do CNPq, investigamos a realidade sócio-histórica de alguns bairros campineiros que, em seu início, abrigaram expressivo contingente de população afrodescendente, como as vilas Marieta, Costa e Silva e Castelo Branco, para chegar finalmente a pesquisar os distritos de Campinas, espaços até então muito pouco estudados, pesquisando a formação e desenvolvimento de Souzas, Joaquim Egídio e Aparecidinha.

Foram nesses trabalhos conjuntos que, aos poucos, Maria Lúcia descobriu e dominou a metodologia da História Oral, passando a dela se valer para realizar investigações valiosas sobre a história do tempo presente da nossa cidade. Tornou-se um membro atuante da ABHO (Associação Brasileira de História Oral), tendo viajado para vários locais do nosso país para, nas reuniões regionais ou nacionais dessa associação, apresentar os resultados das suas pesquisas.

Mas, um aspecto que poucos conhecem da nossa historiadora e que revela, mais uma vez, a generosidade que pautava seu comportamento cotidiano, é a sua ligação com a educação não-formal. Ao se aproximar, através das pesquisas, de uma entidade educacional (o PROGEN ou Projeto Gente Nova), que há mais de três décadas atende às crianças e adolescentes da Vila Castelo Branco, no período do contra-turno escolar, ela se envolveu intensamente com essa instituição. Valorizando o trabalho realizado pela entidade, um relevante esforço de complementação educacional que traz, via educação não-formal, noções de música, artes plásticas, teatro, esporte e cidadania para as crianças e jovens que vivem nessa região mais afastada do centro da cidade, Maria Lúcia reconheceu que esse trabalho educacional era muito importante e bem-sucedido na tarefa de afastar os jovens, via educação, do perigo das drogas, aceitando assumir a presidência dessa entidade, no intuito de canalizar mais facilmente verbas de caráter governamental para a manutenção da mesma.

O esforço de nossa homenageada, aceitando doar parte do seu tempo à causa da educação dos jovens, foi muito bem-sucedido, como revela o depoimento da coordenadora do PROGEN, Isabel de Almeida, ao relembrar os anos de convivência com Maria Lúcia: “Escrever sobre Maria Lúcia Rangel Ricci é remeter ao tempo da história do PROGEN, de crescimento e expansão”; foi no seu mandato que fomos para o bairro Satélite Iris I e pudemos acolher crianças, adolescentes e famílias com seus direitos violados. A ampliação do trabalho foi fundamental para a garantia de direitos e transformação de uma comunidade, da mesma forma que ela fez ao longo da vida com as palavras. No PROGEN ela transformou as palavras em ação; a caneta é que foi o seu instrumento de trabalho em assinaturas que asseguraram direitos.

O que poderia dizer a essa mulher? Obrigado por ter deixado um legado de conhecimento e a humildade de se doar para o outro!

Referência bibliográfica:

Revista do IHGG Campinas, n. 4. Campinas, 2014.

2 comentários

  1. Maria Lucia, também foi membro ativo da Academia Paulista de Historia e Instituto histórico e Geográfica de São Paulo, tanto em um como em outro mesmo ainda adolescente na época tive a Honra de participar de inúmeras reuniões em são paulo Saudades de ninha irreparável, incomensurável , e única em seu jeito de ser , minha mãe Luciano

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  2. Causa espécie e merece reparo e correção a seguinte afirmativa: “ era de tradicional família brasileira, os Souza Rangel”, pois os Souza Rangel constituem meramente o casal Olga de Camargo Souza, que era filha de Hermantina Corrêa de Camargo e de Francisco Antão de Paula Souza, (estes sim, de tradicional tronco paulista) e se tornou Rangel pelo casamento com José Bueno Rangel, filho de Gertrudes Bueno Rangel e de Osório Rangel, casal de tradição protestante que fundou (e hospedou a primeira sede) a atual, centenária, Igreja Metodista Central de Campinas.

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