Amazonas, eterna paisagem

Amazonas, eternal landscape.

Rúter Hiroce – agrônomo, pesquisador aposentado. Sócio Honorário do IHGG Campinas.

Há cerca de 10 milhões de anos, a Amazônia era mar. Estudos realizados pelos pesquisadores finlandeses Matti Rasanen e Ari Linna, da Universidade de Turku, e José C. R. Santos e Francisco Negri, da Universidade Federal do Acre, indicam que o oceano invadia a região amazônica e descia até a bacia do Paraná, segundo artigo publicado na revista científica American Science, em 1955. A ideia de um mar amazônico é antiga. Em 1927, o pesquisador Herman Von Lhering havia sugerido a existência de uma ligação Caribe-Atlântico Sul, com base na semelhança entre foraminíferos (um tipo de protozoário) do Rio da Prata (Argentina) e do Atlântico Norte.

A existência de dentes de tubarão na região e de botos e peixes-boi vivendo nos rios constituem prova de oceano na Bacia Amazônica.

Antes da descoberta oficial do Brasil por Pedro Álvares Cabral, em 1500, o espanhol Vicente Yañes Pinzón chegou ao delta do rio Amazonas. Pelo Tratado de Tordesilhas (1494), quase toda Amazônica brasileira pertencia à América Hispânica, até meados do século XVIII. Esta região, por longo tempo, era visitada por missionários e aventureiros. Tanto portugueses como espanhóis só exploravam madeiras, resinas, ervas e condimentos, nenhuma delas de importância econômica significativa.

Daí a facilidade com que a Espanha cedeu esta imensa área a Portugal pelo Tratado de Madrid (1750). Em 1669, o capitão português Francisco da Mota Falcão funda o pequeno forte de São José do Rio Negro, núcleo inicial da atual Manaus.

Em 1757, a região é transformada em Capitania de São José do Rio Negro. Com a independência do Brasil (1822), a Capitania integra-se à província do Pará. Em 1850, o governo imperial cria a província do Amazonas com a capital em Manaus, antiga Barra do Rio Negro.

Os seringais amazônicos atraem milhares de migrantes, principalmente nordestinos, para a coleta do látex da seringueira, e também o interesse de grandes companhias estrangeiras. Entre 1890 e 1910, a Amazônia produziu mais de 40% da produção mundial de borracha. A população multiplica-se e a exportação de borracha chega a igualar à do café. Em quase 50 anos a população passa de pouco mais de 57 mil (1872) para 1.439.052 (1920). Com o crescimento econômico, Manaus, chamada de Paris dos Trópicos, transforma-se em uma metrópole de estilo europeu (é a segunda cidade do país a instalar iluminação elétrica). Com a concorrência da borracha asiática, a partir de 1910, a economia da região entra em declínio.

O isolamento e a estagnação econômica começam a ser rompidos com a construção da rodovia Belém-Brasília em fins da década de 1950 e com a instituição da Superintendência da Zona Franca de Manaus, em 1967, com o objetivo de estabelecer um polo industrial, incentivado pela redução dos impostos de importação e exportação. Na esteira do Polo Industrial da Zona Franca, desenvolveram-se o comércio, o turismo e a hotelaria.

No início dos anos 1970 começa a ser estabelecido, por meio do Plano de Integração Nacional, um programa de infraestrutura que prevê a construção de estradas (como a Rodovia Transamazônica), a ocupação planejada e o incentivo fiscal à instalação de empresas no estado. A criação de agrovilas ao longo das novas estradas atrai milhares de migrantes do nordeste, centro-oeste e sul. O objetivo é integrar para não entregar, pois a região amazônica, devido à riqueza em minerais, animais e plantas medicinais, é cobiçada por diversos países que desejam a sua internacionalização, a qual deve ser combatida pela sociedade brasileira por afetar a nossa soberania.

A partir de meados de 1980, a Zona Franca de Manaus começa a declinar em decorrência do corte de incentivo, da queda de produção e da baixa demanda de mão de obra. Este cenário se mantém nos anos de 1990 com a abertura econômica do país ao comércio internacional e à redução das barreiras às importações. Com a crise econômica e a crise energética já neste século, o polo industrial perde receita.

O estado do Amazonas é o maior do Brasil em área: 1.570.745,7 km2. Na fronteira com a Venezuela estão situados os pontos mais elevados do país: o pico da Neblina, com 3.014 m de altitude, e o 31 de Março, com 2.994 m. A Floresta Amazônica, que ocupa 92% da área do estado, concentra a maior biodiversidade do planeta e representa 33% das matas tropicais do planeta. A Floresta possui uma área de 5,5 milhões de km2, dos quais 3,3 milhões estão situados no Brasil. Das 240 mil espécies de plantas com flores, 150 mil estão nos trópicos; dessas, 55 mil estão no Brasil.

A região amazônica abriga também a maior bacia hidrográfica do mundo, com área de 7,3 milhões de km2, sendo 4,9 milhões no território brasileiro. Por esta região passa o mais extenso rio do mundo: o Amazonas, com 6.868 km de comprimento e vazão de 120.000 m3/segundo na estação seca e de 240.000 m3/segundo, na chuvosa. Este rio possui 1.100 afluentes (17 com mais de 1.600 km), 80 mil km de vias navegáveis com a largura de 1 km em alguns pontos. Este abriga os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo: Anavilhanas e Mariuá (700 ilhas).

Segundo o Instituto Geográfico Nacional do Peru, o Rio Amazonas nasce ao lado norte da Cordilheira Chila, nas encostas do Nevado Mismi, lugar conhecido como Quebrada Carhua Santa, Província de Cayloma, Departamento de Arequipa, Peru. Nasce a 5,3 km de altitude sobre o nível do mar e, como Apurimac (868 km), segue como Ucayali (2.000 km) e Amazonas (700 km) no território peruano; no Brasil recebe o nome de Solimões (1.620 km) finalmente, Amazonas (1.680 km), totalizando 6.868 km.

Segundo o censo de 2010, o estado do Amazonas tinha 3.480.937 habitantes. As principais cidades eram: Manaus (1.802.525), Parintins (102.066), Itacoatiara (86.840), Manacapuru (85.144), Coari (75.909), Maués (51.844), Manicoré (47.011) e Tabatinga (52.249). O número de índios alcança 120.000.

Parintins é a segunda cidade do Estado, que passam a maior parte do ano vivendo da pecuária e da pesca. A cidade fica situada na Ilha de Tupinambarana (1.500 km2 de área), cerca de 420 km de Manaus. Antes da chegada do europeu à região, era habitada pelos índios tupinambaranas e parintins. O destaque desta cidade é o Festival Folclórico de Parintins que se realiza todos os anos, desde 1966, nos dias 28, 29 e 30 de junho.

Antes de 1966, chamava-se Festa dos Bois, tendo chegado ao Amazonas nos anos de 1920, vinda do Maranhão, com escala no Pará com o nome de Bumba Meu Boi. Em Parintins recebeu o nome de Boi-Bumbá, representado pelo boi Galante, que deu origem ao atual Caprichoso. A festa terminava em matança de bois e a carne assada era servida também para os pobres, que só comiam peixe. Então a imensa churrascada era motivo de festa e devia celebrar a morte e a ressurreição do boi, tal como se faz no Nordeste e em outras regiões do Brasil.

O festival folclórico nasceu com quadrilhas e danças regionais, para arrecadar fundos para a Festa de Nossa Senhora do Carmo (entre 6 e 16 de julho). O desfile e a disputa ocorrem entre duas agremiações de foliões rivais, denominadas de Garantido (vermelho e branco e boi branco, com coração na testa) e de Caprichoso (azul e branco, e boi preto com estrela na testa).

A partir de 1987, o festival passou a ser realizado no Bumbódromo, estádio com capacidade para 40 mil pessoas, onde a metade é pintada de vermelho (local reservado para os torcedores do Garantido) e a outra metade, de azul (reservada aos torcedores do Caprichoso). Cada bloco de foliões desfila por três horas por noite, mostrando as lendas da Amazônia, o confronto entre índios e portugueses, o cotidiano do ribeirinho, do pescador e do seringueiro por meio de danças de influência indígena, touradas e gigantescas alegorias. A história básica do Bumba Meu Boi é a do tropeiro que mata o boi do patrão para satisfazer o desejo da mulher grávida.

A cobiça pelas grandes potências

A invasão e a dilapidação da Amazônia começaram no século XIX, com o tráfico da borracha para o Sudeste Asiático. Desde então, o mundo está de olho nesta região. Assim, em 1817, o capitão da Marinha dos Estados Unidos, Mathew Fawry, chegou a redesenhar o mapa da América do Sul, criando o Estado Soberano da Amazônia, que teria o apoio e o controle dos Estados Unidos. Felizmente este plano não saiu do papel. Mas o propósito, as ideias e as iniciativas contra a soberania brasileira continuaram.

Em 1930, o Japão propôs que a Amazônia fosse utilizada para abrigar excedentes populacionais. Em 1948, um projeto da UNESCO que previa a internacionalização da Amazônia foi rechaçado pelo Poder Executivo, Congresso e Forças Armadas do Brasil. As tentativas de ocupação vieram de todos os lados e de diferentes maneiras. Em 1989, uma empresa japonesa ofereceu a troca da dívida externa brasileira, na ocasião de US$ 115 bilhões, pelos direitos de mineração do ouro da Amazônia. Antes disso, em 1983, a então primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher, declarou: países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas. Em 1989, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, declarou: Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós.

A Amazônia é nossa

Durante um debate realizado numa universidade dos Estados Unidos (cujo texto se acha na Internet), Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal, foi questionado por um jovem americano sobre a internacionalização da Amazônia, dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Disse Cristovam:

De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco de degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, assim como de tudo o mais que tem importância para a humanidade, como o petróleo, o capital financeiro, os grandes museus do mundo, Nova York, como sede das Nações Unidas, belas cidades, como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, etc… 

Se os Estados Unidos da América querem a internacionalização da Amazônia pelo risco de deixá-la nas mãos dos brasileiros, internacionalizamos todos os arsenais nucleares dos Estados Unidos, mesmo porque os americanos já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores que as queimadas feitas nas florestas brasileiras.

Internacionalizemos as crianças, tratando-as todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidado no mundo inteiro. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem, quando deveriam estudar, que morram, quando deveriam viver.

Como humanista aceito defender a internacionalização do mundo. Mas enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa, só nossa.

Referências bibliográficas:

ALMANAQUE Abril. São Paulo: Abril, 2004.
ANSELMI. R.V. Amazônia: Uma Abordagem Multidisciplinar. 2. ed. São Paulo: Ícone, 2006.
CERQUA, Dom Arcângelo. Clarões de Fé no Médio Amazonas. Manaus (AM): Imprensa Oficial do Estado de Amazonas, 1980.
DUARTE, M. O guia dos curiosos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
GEOGRAFIA Ilustrada. São Paulo: Abril, 1971.
Revista Terra. São Paulo: Abril, novembro 1999.

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