A influência da música no desenvolvimento das cidades

The music influence on the Brazilian cities development.

Cláudia Felipe da Silva – musicista, pesquisadora. Correspondente do IHGG Campinas em Serra Negra, SP.

A transmissão do conhecimento musical no Brasil esteve vinculada ao espaço religioso. No período colonial, o jesuíta José de Anchieta (1534-1597) utilizava a música para a conversão dos indígenas. Trata-se do processo de divinização de canções populares, onde adaptam-se letras religiosas a canções populares. Esse método, conhecido como contrafactum, foi amplamente utilizado na Europa nos séculos XVI e XVII.

Instalaram-se as Sés Catedrais no Brasil, sendo a primeira a de Salvador, em 1552, seguida da do Rio de Janeiro em 1676, e somente em 1745 foram criados os bispados de Mariana e de São Paulo. Com elas surgiu a função de Mestre de Capela, ocupado justamente por músicos religiosos. Para o preenchimento dos cargos eram exigidos dos candidatos o domínio da teoria e da pratica musical, noções de composição, de arranjo e de canto gregoriano. Também examinavam as proficiências em Latim, Doutrina Cristã e Moral.

O mestre de capela era encarregado de selecionar jovens cantores para integrarem os Coros, de manter uma Escola de Música, e de prestar os serviços litúrgicos relacionados nos respectivos contratos, como funções da Semana Santa, do Natal, da Páscoa, das Novenas e de outros eventos.

No século XVIII, sobretudo em Minas Gerais, foram criadas várias irmandades religiosas. Estas abrigavam músicos que se destacaram, como Manuel Dias de Oliveira (1738-1813), João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), José Joaquim Lobo de Mesquita (1746-1805) e Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830).

Um dos aspectos mais interessantes das Irmandades religiosas diz respeito à prática e ao ensino da música. Os músicos associados a elas exerciam a função de professores de música. Além de participarem dos ofícios e festas religiosas, também concorriam à seleção das festas cívicas organizadas pelas Câmaras. Estas realizavam uma “arrematação” em praça pública, como se fosse uma licitação para aquisição de serviços públicos. Era anunciada qual seria a festividade, a necessidade de música e as especificações; os interessados se apresentavam, mencionando seus músicos e respectivos orçamentos, e quem oferecesse o menor preço e cumprisse as especificações era contratado. Para tanto, exigia-se um repertório inédito e bons instrumentistas.

Nota-se, também, que alguns membros das Irmandades, os que conheciam música, conseguiam o licenciamento para exercerem a função de mestre e trabalhavam como professores na própria Irmandade ou ministrando aulas particulares, e responsabilizando-se, outrossim, pela propagação do ensino de música nas cidades. Muitos deles também mantinham vínculos militares, atuando como instrumentistas e mestres de música nos Terços, nos Regimentos e nas Tropas. A utilização da música nesses agrupamentos militares pode ser considerada como o embrião da organização das bandas militares no Brasil.

Com a chegada da Corte Portuguesa, em 1808, a questão musical tomou outro rumo. Criou-se o cargo de mestre da Capela Real, o Arquivo Musical do Palácio de Queluz foi trasladado para o Rio de Janeiro e nomeou-se o Padre José Maurício para o cargo de Arquivista. Contrataram-se inúmeros músicos europeus, entre eles os castratis, para suprirem a lacuna nos naipes de soprano e de contralto do Coro da Catedral.

O Rio de Janeiro passou a ser visto como um local de oportunidades para a classe musical, com a criação do Coro da Capela Real, da Real Câmara e do Teatro São João, concorrendo para uma grande migração de músicos de várias regiões do Brasil e da Europa, dispostos a adquirirem um posto de trabalho, desencadeando concorrência. Entre os anos de 1811 a 1824 constatou-se o registro de 175 músicos europeus trabalhando na Corte Portuguesa.

A presença da Corte contribuiu também para a reestruturação da área militar e, consequentemente, deu-se a criação de novas bandas militares, oferecendo, desde então, um outro espaço para o trabalho do profissional musicista, assim como uma oportunidade de aprendizado, visto que cada corpo musical deveria manter sempre quatro soldados aprendizes de música. As aulas seriam ministradas pelo mestre de cada banda; escolhiam-se os interessados entre os voluntários e os instrumentos de aprendizagem seriam os que fossem convenientes. Com isso, a trajetória das Bandas Militares, dentre as quais a Banda de Música da Forca Pública de São Paulo e a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, tornaram-se referências para outras bandas Militares e influenciaram a criação das bandas civis.

Desde os primórdios de sua criação, as Bandas Militares exerceram fascínio nos músicos das bandas Civis, a princípio por representarem um espaço de trabalho com melhores condições salariais, com perspectivas de profissionalização seguindo a carreira militar e garantia de boa aposentadoria, além de outros atrativos, como a uniformização do grupo, os desfiles cívicos com movimentos coordenados, a variedade do repertório tradicional de dobrados e marchas, dos arranjos de composições contemporâneas, a qualidade dos instrumentos musicais, em sua maioria importados, contribuindo para uma melhor afinação e característica sonora das bandas, e a possibilidade de dedicação exclusiva à atividade musical. Mesmo após a aposentadoria, muitos músicos militares retornaram às suas cidades de origem e continuaram atuando em bandas civis.

Os números de estudos sobre as bandas de música brasileiras vêm aumentando gradativamente nos últimos anos; alguns trabalhos traçam históricos das formações dessas corporações, outros tratam da biografia de instrumentistas, maestros e compositores ou ressaltam o valor do acervo musical. Ressalte-se, também, que a maioria deles aponta para importância dessas instituições musicais, tanto as civis como as militares, no ensino da música, pois é pelas bandas que se aprendem as primeiras noções sobre teoria e prática de instrumentos.

Segundo os dados da Fundação Nacional de Artes, FUNARTE, até dezembro de 2016 foram cadastradas 2.455 corporações musicais nas cidades do Brasil. Existem ainda vários projetos direcionados às bandas de música, como o Pró Banda: Programa de Apoio às Bandas, desenvolvido pelo Conservatório “Carlos de Campos” da cidade de Tatuí́, SP; o Projeto Música no Interior, administrado pela Fundação Carlos Gomes, em Belém do Pará; os encontros anuais de bandas de músicas na cidade de Ouro Preto, MG; e a criação de associações de bandas musicais pelo Brasil afora.

As pesquisas realizadas no Nordeste do país relatam experiências referentes à educação musical desenvolvidas por bandas em Alagoas, Rio Grande do Norte e em Sergipe, com organizações musicais recentes ou centenárias, indicam o quanto essas corporações são importantes para o aprendizado musical da população.

Estudos sobre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro descreverem trajetórias de corporações centenárias, demonstram como as escolas de música vinculadas às bandas proporcionam aos aprendizes oportunidades de profissionalização. Pertencer a esses grupos e ter acesso a um espaço de produção e transmissão do conhecimento musical é um privilégio, pois muitas cidades brasileiras enfrentam carências na área educacional, e nesses espaços o jovem músico tem a oportunidade de desenvolver disciplina, concentração e socialização.

Em Serra Negra, no Circuito Paulista das Águas, os aspectos históricos estudados indicam uma intensa movimentação musical na cidade, o que me chamou a atenção. A minha iniciação musical ocorreu por volta de 1980. Naquele período a Prefeitura mantinha, conjuntamente com a Corporação Musical “Lira de Serra Negra”, a Escola de Música, dirigida pelo professor e maestro Fioravante Lugli. As aulas eram gratuitas e a finalidade da escola era preparar jovens instrumentistas para atuarem na banda local. A escola disponibilizava tanto o material didático como os instrumentos. O sistema de ensino dividia-se em duas etapas: a primeira era dedicada ao aprendizado teórico e solfejo; após alguns meses, se o aluno demonstrasse certa aptidão musical, iniciava-se a segunda fase, com a prática de algum instrumento.

Em 1986, eu passei a fazer parte da Banda “Lira de Serra Negra” como clarinetista, oportunidade em que desenvolvi relações de amizade com os músicos veteranos. Nesse período pude ouvir as histórias da Banda, a importância e atuação dos músicos italianos na formação da primeira banda local, o Corpo Musicale “Umberto I”, designada carinhosamente como a “banda velha”. Ouvi pela primeira vez os nomes de músicos que mais tarde surgiriam em minha pesquisa sobre a música em Serra Negra, como os das famílias Dallari, Lamari, Perondini, Morganti, Lugli, Mattedi e do compositor Nicolino Fatigatti, entre outros, além de casos pitorescos de rivalidade entre as bandas italiana e brasileira, muitas vezes motivados por disputas políticas.

Outro fato marcante foi o acesso ao acervo de partituras da “Lira”. Na ocasião eu pude ter em mãos algumas obras compostas no final do século XIX e início do XX pelos antigos integrantes da banda “Umberto I”. Mais uma vez os nomes relacionados às histórias musicais surgiram, materializando assim os fatos que me haviam sido narrados.

A suposição nesse primeiro momento era de que o movimento musical serrano estaria intimamente ligado às bandas de música e aos seus integrantes, mas para afirmá-lo seria necessário um aprofundamento da pesquisa.

Foi assim que estudei as manifestações musicais e que gravitaram em torno de diversas famílias de imigrantes italianos. Para construir o devido “pano de fundo”, necessitou-se acompanhar a transformação da cidade no decorrer de décadas, considerando-se imprescindível tratar de alguns aspectos que não foram contemplados no meu trabalho anterior, de mestrado, a fim de permitir um maior entendimento sobre o desenvolvimento da cidade de Serra Negra e sua vida musical.

A minha tese de doutorado, defendida na Faculdade de Educação da Unicamp, em 2017, sob a orientação da profa. Dra. Olga Rodrigues de Moraes von Simson, foi elaborada, inicialmente com uma análise dos procedimentos metodológicos, da rica documentação escrita levantada e dos depoimentos produzidos, que me permitiram traçar o desenvolvimento da cidade e de suas atividades musicais.

Resumidamente, trato nos capítulos seguintes da influência da imigração italiana na vida social, econômica, religiosa e cultural de Serra Negra, principalmente nas atividades relacionadas à musicalidade. Outros pontos de destaque são a exploração dos recursos hídricos e do turismo.

Sobre o aspecto musical, focou-se na trajetória das bandas “Lira de Serra Negra” e “Renato Perondini” e dos conjuntos de baile atuantes nas áreas urbana e rural. Contemplou-se o perfil de músicos e as composições, performances, direções musicais e o sistema de ensino de música para os jovens da cidade.

O percurso musical de Serra Negra é refletido na atualidade pela atuação ininterrupta da “Lira de Serra Negra”, que integra em seus naipes alguns descendentes dos primeiros músicos imigrantes e que mantêm em seu repertório as composições de autores serranos, desde as que remontam ao início do século XX até as atuais.

Referência bibliográfica:

SILVA, Cláudia Felipe da. Vida musical, imigração italiana e desenvolvimento urbano: a trajetória sócio-histórico-cultural de Serra Negra, ao longo do século XX. Campinas: UNICAMP – Faculdade de Educação. Tese (doutorado), 2017.

 

 

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