História da moderna composição musical em Campinas: Paulo Florence e Padre José Penalva

History of modern Campinas musical composers (SP, Brazil): Paulo Florence and Father José Penalva.

José Alexandre dos Santos Ribeiro – linguista, musicólogo e professor. Titular da Cadeira 34 do IHGG Campinas.

Em artigo anterior, tratei da família Gomes como o núcleo de compositores musicais locais. Neste e no próximo apresentarei os compositores recentes, buscando identificar os nomes – e suas obras – que mantêm a vocação da criação musical em Campinas.

Um importantíssimo nome da música do século XIX é o de Paulo Florence (1864-1949). Filho do desenhista e pesquisador francês Hércule Florence e da segunda esposa dele, a educadora alemã Carolina Krug Florence. Começou a estudar piano já aos 9 anos de idade e demonstrava facilidade e talento. Aos 14 anos foi mandado pelos pais para Kassel, na Alemanha, onde estudou harmonia, contraponto e composição com o experiente professor Hans Weltner; foi em seguida para o Conservatório Real de Leipzig, onde estudou contraponto, cânon e fuga com o renomado pesquisador musical Salomon Judassohn. Estudou em seguida, ainda na Alemanha, com o respeitado professor, pianista e regente alemão Carol Reinecke (que foi também professor de Grieg). Posteriormente, Paulo Florence aperfeiçoou-se na Itália, com Giuseppe Buonamici (piano) e Antonio Scontrino (composição), além de ter também estudado com o compositor e pianista Giuseppe Martucci, considerado como o grande iniciador do renascimento da música instrumental, na Itália de inícios do século XX.

Depois de ser regente musical dos teatros municipais de Ulm e Kiel, na Alemanha, Paulo Florence voltou para o Brasil, onde consolidou sua obra, lecionou por 12 anos no Instituto Musical de São Paulo e foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Música.

Além de inúmeras canções de câmara para canto solista e piano, e música para piano solo e para piano e instrumento de cordas, escreveu também vários trios e quartetos.

A Funarte editou, em 1979, uma gravação histórica de sua sonata / fantasia para violino e piano (1923), que lembra processos compositivos de Fauré, além de uma coloração harmônica que parece inspirada, às vezes, por Debussy, cuja primorosa execução é do famoso e laureado violinista brasileiro Oscar Borghetti e da brilhante pianista campineira Ilara Gomes Grosso, que vem a ser irmã do grande violoncelista Iberê Gomes Grosso e da violinista Alda Gomes Borghetti (que se casou com o violinista Oscar Borghetti), todos filhos da pianista Alice Gomes, filha, por sua vez, de José Pedro de Sant’Anna Gomes. Isso significa que a pianista a que nos referimos (Ilara Gomes Grosso) é neta de Sant’Anna Gomes, sobrinha-neta de Antônio Carlos Gomes e bisneta de Manuel José Gomes – além de cunhada do violinista que com ela executa a peça de Paulo Florence, que é Oscar Borghetti. A peça é insinuante e claramente pós-romântica, fazendo um expressivo diálogo musical, que explora bem as potencialidades de ambos os instrumentos a que se destina.

Mas falemos, agora, de música em Campinas no século XX. Antes de abordar a questão de compositores de Campinas naquele século, cabe tratar de um evento sociocultural e artístico da maior relevância histórica para a cidade, ocorrido aos primeiros anos de 1900.

Ocorre que, entre 1901 e 1904, o escritor brasileiro Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934) morou em Campinas, como professor concursado de literatura brasileira do Colégio Culto à Ciência. Homem sociável e escritor já então prestigiado, Coelho Neto, desde logo, fez vida nos meios culturais de Campinas, pertencendo, por exemplo, ao grupo de intelectuais idealistas, que, a 31 de outubro de 1901, fundaram o nosso até hoje existente e atuante Centro de Ciências, Letras e Artes, tornando-se seu primeiro orador oficial.

Pois bem, havia em Campinas, àquela época, um laborioso idealista e amigo das artes, chamado Antônio Benedito de Castro Mendes, que possuía, na Rua Barão de Jaguara, a famosa Casa Livro Azul, que, entre outras coisas, importava e vendia partituras e instrumentos musicais e era um verdadeiro centro irradiador de arte, que congregava um grupo teatral amador, mas de bom nível artístico e que reunia a burguesia talentosa da cidade.

Pois foi para esse grupo que, em 1903, Coelho Neto escreveu o texto de um auto de Natal conhecido como Pastoral, que foi encenado no dia de Natal daquele ano, no Teatro São Carlos (já então com cadeiras na plateia).

Para a encenação, que era acompanhada de música, os grandes compositores brasileiros Henrique Oswald (1852-1931), Alberto Nepomuceno (1864-1920), Francisco Braga (1868-1945) e o nosso José Pedro de Sant’Anna Gomes (1834-1908) escreveram interlúdios orquestrais (cabendo a Sant’Anna Gomes o prelúdio de abertura, bem como a regência de sua orquestra do Teatro São Carlos, que executou as quatro peças, todas compostas a pedido de Coelho Neto). O planejamento, o desenho e a pintura dos cenários ficaram a cargo do pintor brasileiro (nascido no Chile) Henrique Bernardelli (1858-1936) – que aliás é irmão do escultor e monumentalista brasileiro (nascido no México) Rodolfo Bernardelli (por sua vez, autor do Monumento-Túmulo a Antônio Carlos Gomes, que se encontra na Praça Antônio Pompeu).

Segundo crônicas da época, a casa estava cheia e a plateia foi ao delírio.

O historiógrafo da vida e da cultura campineiras José de Castro Mendes, em suas Efemérides campineiras 1739-1960 diz, à página 87, em menção ao evento, que esse espetáculo … alcançou desusado êxito, assinalando uma das mais belas realizações artísticas da Cidade.

E nós o citamos aqui, como mais uma forma de assinalar a histórica e permanente predestinação para a criação artística de Campinas, cuja história tem seguidos momentos áureos de produção de arte, não apenas na música, mas também, como já dito, em outras tantas linguagens artísticas. Quanto à Pastoral, sabe-se que sua montagem foi, então, repetida a 15 de julho de 1933, no hoje derrubado Teatro Municipal (que a Prefeitura construíra de 1920 a 1930, no mesmo local em que, até 1920, existiu o Teatro São Carlos, ou seja, atrás da Catedral, entre as ruas Costa Aguiar e Treze de Maio), novamente com muito sucesso.

O segundo personagem desse pequeno artigo é o Padre José Penalva, que desde os primeiros anos de sua formação se dividiu entre o misticismo dos estudos teológicos básicos e o apetrechamento de sua sensibilidade musical, estudou música em profundidade com o professor, compositor e organista italiano, radicado em São Paulo, Fúrio Franceschini, e com Damiano Cozzella, que, de início, estudou no Brasil com Koelheutter, tendo sido membro, então, do chamado Grupo Música Nova, de São Paulo, aperfeiçoando-se em seguida no famoso Centro de Música Contemporâneo de Darmstadt, na Alemanha. A seguir, José Penalva vai para a Itália, onde, ao mesmo tempo em que consolidava sua sólida formação de teólogo da Igreja católica e unia o saber da doutrina a um profundo e autêntico sentimento místico, aprofundava sua formação musical e sua sintonia estética com as fundamentações mais atuais da música ocidental com Bóris Porena, na Academia Santa Cecília de Roma. Seus estudos com Bóris Porena, que também estudara em Darmstadt, puseram o padre Penalva em profícuos contatos com alguns dos mais importantes nomes musicais do século XX, como Luigi Nono, Dallapicola, Pierre Boulez e outros, que lhe foram muito produtivos.

Dono de talento musical inquestionável, servido por uma tão aprofundada formação, o padre Penalva deixou uma obra musical ampla, original e diversificada, tanto de música sacra quanto secular, que tem sido estudada em profundidade e é muito conhecida, por exemplo, em Curitiba, cidade de vida cultural e musical atuante e onde o padre Penalva viveu por muitos anos, exercendo o sacerdócio e a sua intensa atuação de compositor, professor de música, regente coral e musicólogo, que deixou palestras e ensaios de grande profundidade e clareza.

Espaços, por exemplo, é o título de uma suíte sinfônica em quatro movimentos, que ele criou em 1987 e cujos movimentos se chamam, respectivamente, Linear, Estrutura, Vareseana e Minimal. Trata-se de peça atonal, cujo discurso musical tem forma livre e tratamento da instrumentação inclui o uso do que vem sendo chamado de música matérica, que podemos caracterizar como uma elaboração musical em que se levam os instrumentos a produzirem sons e/ou ruídos inesperados, que decorrem de utilizações não-convencionais dos referidos instrumentos.

As duas últimas partes da suíte (Vareseana e Minimal) são as mais surpreendentes e, a nosso juízo, mais bem realizadas: Vareseana tem seu nome derivado ao do compositor norte-americano de origem francesa Edgard Vares e (1883-1965), que é um dos mais importantes nomes da vanguarda musical do século XX e que tinha, como uma de suas mais marcantes características do uso da orquestra, a adoção de alternâncias originais dos timbres dos diferentes naipes instrumentais (cordas, sopros, percussão) e o estabelecimento de um destaque especial para os metais e a percussão, que ele usava fraseologicamente na música, e não apenas como marcação linear e simétrica do ritmo. E Penalva faz exatamente isso na terceira parte de sua suíte.

Quanto à quarta e última parte da peça, que se chama Minimal, ela é inspirada num tipo de composição musical criado de meados para fins dos anos 1960 na música norte-americana, chamado Minimal Music, que nascido na verdade no universo da escultura (com artistas como Carl André, Donald Judd, Sol e Le Witt e Robert Morris), como uma tendência da Escultura abstrata […] a diminuir todos os efeitos expressivos a umas poucas categorias formais que devem, por seu turno, integrar-se no espaço circundante, corresponde a um tipo de música criada, então, por compositores como Terry Riley, Steve Reich, Philips Glass e alguns outros, em que células rítmicas mínimas e com harmonia imutável se repetem ad nauseam, com mínimas alterações rítmico-melódicas e com harmonia simples, tonal ou modal.

A justificativa que tais artistas (tanto os escultores quanto os músicos) davam à proposta era a busca de limpar a arte contemporânea dos ainda existentes arroubos emocionais oriundos do século XIX, ao mesmo tempo em que, principalmente na música, o Minimalismo (como se costuma chamar a Minimal Music entre nós) imaginava dotar as peças musicais assim compostas de uma certa força hipnótica, que aproximasse o ouvinte de processos de pensamento não-ocidentais (como a ioga, ou o zen-budismo).

Há, contudo, quem postule que, no fundo, a Minimal Music propõe uma aproximação da música de alto repertório com o rock e/ou outras formas de música de massa nascidas nos Estados Unidos.

Pois bem, a parte final da suíte Espaços de José Penalva é um expressivo exemplo de tratamento orquestral segundo postulações da Minimal Music, embora não de maneira rigorosamente ortodoxa.

É preciso registrar também que o padre Penalva, apesar de basicamente sediado em Curitiba, nunca perdeu vínculos de parentesco e amizades em Campinas, além do que é autor de dois livros sobre Antônio Carlos Gomes, que fazem abordagens originais e musicologicamente importantes sobre o nosso músico de maior nomeada.

Referências Bibliográficas:

PENALVA, José. Carlos Gomes, o compositor. Campinas: Ed. Papirus, 1986.
__________. Carlos Gomes e seus horizontes. Boletim Informativo da Casa Romário Martins, vol. 23. Curitiba, 1996.
_________. Carlos Gomes e seus horizontes. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996.
PUPO, Benedito Barbosa (org.). Especial Carlos Gomes: Boletim do Centro de Memória – Unicamp. Campinas, 1995.
RODRIGUES, João Lourenço. A vida religiosa de Campinas através do histórico da Irmandade do SS. Sacramento da Catedral. A Tribuna. Campinas, 1947.

Fotos:

Pró-Memória de Campinas – http://pro-memoria-de-campinas-sp.blogspot.com
Sarao Revista Eletrônica (CMU – UNICAMP) – https://www.unicamp.br/cmu/sarao/revista40/index.htm

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