Enfrentando Preconceitos: A Família Cesarino

Fighting Against Racial Prejudice: The Cesarino Family.

Irene Maria Ferreira Barbosa – professora aposentada da UNESP de Marília. Colaboradora do IHGG Campinas.

Antonio Ferreira Cesarino Júnior, filho do outro Antonio, o bedel do Ginásio do Estado, neto do carteiro Bartolomeu, bisneto do velho Antonio, fundador do colégio, trineto do tropeiro Custódio, herdou a respeitabilidade e a pobreza.

Esse Antonio, nascido em 1906, numa fase de grande pobreza da família, vai concretizar todos os sonhos acalentados pelos outros Cesarinos que o antecederam: o do bisavô, de ser alguém na vida, e o do seu pai, de ser professor no Ginásio do Estado.

Esse Antonio conseguiu atingir a mais alta posição da carreira universitária e grande projeção no cenário internacional na área em que foi especialista: o Direito do Trabalho, posição que os outros Antonios jamais teriam imaginado.

Assim como seus antepassados, esse Antonio teve sua trajetória situada no campo educacional e lutou bravamente para enfrentar aquela parcela de classe dominante que mantinha a sua hegemonia pela estratégia de perpetuar, na escola, as mesmas desigualdades existentes fora dela. O renomado Culto à Ciência, mesmo depois de ter se tornado o 1o Ginásio do Estado em Campinas, continuava como um colégio altamente seletivo, destinado aos filhos da elite da cidade.

É o sociólogo Pierre Bourdieu quem fala da possibilidade de se considerar uma trajetória como aquela que tem maior probabilidade de ser seguida pelos agentes de um grupo ou segmento social. O que temos aqui, justamente, é a possibilidade de discutirmos as razões pelas quais Antonio Ferreira Cesarino Júnior fugiu da trajetória modal do seu segmento: negro e pobre nascido no início deste século, na cidade de Campinas; de saber como ele desenvolveu uma trajetória particular, em um campo educacional onde as forças contrárias sempre conspiraram contra seus desejos e, pior que isso, nem sempre eram explicitadas.

É preciso notar que sua infância transcorreu em um período em que a cidade era palco de grandes dificuldades para a população negra e pobre, agora livre, mostrando que a passagem para a nova ordem de trabalho se fazia à custa da pauperização dessa população, que ainda enfrentava todo tipo de discriminação social e racial. Cleber Maciel (1987) examinou os jornais e a documentação da época e conseguiu reconstituir uma importante dimensão na história da cidade, revelando as manifestações de racismo explícito, normalmente não percebidas pela história oficial.

Campinas progrediu passando, no período, por intensas transformações decorrentes do acentuado crescimento urbano e industrial. O desenvolvimento das estradas de ferro, o surgimento de novas fábricas, o aparecimento dos bondes elétricos e dos automóveis são sinais desse progresso.

Essas transformações produziram uma alta densidade demográfica, que empurrava a população pobre para os cortiços insalubres, em uma época em que epidemias fizeram dessa população as principais vítimas. Além das taxas altas de mortalidade, principalmente entre crianças, existiam também os problemas de abandono de cadáveres insepultos.

As dificuldades encontradas pela população negra da época eram de tal monta que os motivaram a organizar associações de benemerência para tratar de auxílios-doenças e funerais, como a Liga Humanitária dos Homens de Cor, fundada em 1915, entidades de caráter recreativo, como o Grêmio Recreativo Dançante Familiar José de Patrocínio, fundado em 1917 e que promovia festas e bailes, assim como mantinha um time de futebol que disputava com os times de brancos. Criaram também entidades com o objetivo de unificar uma ação política de todas as entidades negras locais, como pretendia o Centro Cívico dos Palmares. É ainda Maciel quem consegue localizar informações de aproximadamente quinze entidades funcionando entre os anos de 1902 e 1925.

Entre essas criações está o aparecimento da imprensa negra no Estado, que ocorre em Campinas. Segundo Roger Bastide, o primeiro jornal preto paulista foi ‘O Bandeirante’, em 1910. Entretanto, Maciel identificou um outro jornal ainda mais antigo, O Baluarte, órgão oficial do Centro Literário dos Homens de Cor, dedicado à defesa da classe, já em 1903. O Baluarte era organizado por Benedito Florêncio, que participou também de jornais da grande imprensa, e por Francisco José de Oliveira, que mais tarde dirigiu o Colégio São Benedito e que ainda desempenhou um importante papel nesta história.

A criação da imprensa negra na cidade tem importância na medida em que revela as dificuldades dessa população, que precisava de um espaço para denunciarem as manifestações raciais encobertas pela grande imprensa; além disso, é a única fonte de informações sobre desse assunto.

A grande imprensa, na maioria das vezes, era instrumento de manifestações racistas, publicando queixas dos cidadãos incomodados com a presença de negros na cidade, como A Cidade de Campinas que, em sua edição de 20 de dezembro de 1910, publicou o artigo intitulado Pretos vagabundos:

Todas as noites reúnem-se nos botequins da Rua Conceição, trecho compreendido entre as ruas Francisco Glicério e Barão de Jaguara, uma malta de pretos vagabundos que embriagam-se e cometem toda sorte de tropelias, por aquele trecho não podem transitar senhoras que na sua passagem se vêem obrigadas a presenciar cenas escandalosas além de um sem número de provocações e às vezes pequenas desordens.

Ontem à noite, dois pretos divertiam-se em frente a um dos botequins daquele trecho no jogo de capoeiragem provocando um ajuntamento de desocupados e impedindo o trânsito. Dois policiais avisados do ocorrido efetuam a prisão dos capoeiras levando-os para o xilindró onde pernoitaram. Convém que o trecho referido seja policiado rigorosamente para se evitar cenas dessa natureza. (Cidade de Campinas, 9/5/1900).

A família Cesarino, nesse início de século, apesar da extrema pobreza, parecia não enfrentar esse tipo de dificuldade: não eram recém-libertos, uma vez que continuavam o projeto de aburguesamento iniciado pelo velho Antonio Cesarino, o que os distanciavam dos grupos de negros que mais sofriam com a pobreza e com a discriminação racial. Afinal de contas, esta família já era incomum, já fazia parte da história da cidade. Tinha no passado a conquista de instrução, de prestígio e de respeitabilidade que de alguma forma, precisavam garantir.

Assim, do mesmo modo como não foi relatado nenhum compromisso com movimentos negros presentes de forma clara na vida da cidade, também não há referências a situações de constrangimento vividas por eles por causa da cor, o que a maioria dos negros sofria.

A família Cesarino estava longe de problemas, por exemplo, a discriminação em espaços públicos, a interdição de áreas como o Jardim Carlos Gomes, que só se permitia aos negros estacionarem na parte externa, ou problemas com barbeiros que se recusavam a atende-los e ouras tantas violências policiais denunciadas pelo jornal O Getulino, órgão da imprensa negra de grande atuação na cidade. Os Cesarinos ficavam longe desses problemas, possivelmente porque tinham clareza do que acontecia aos negros e não se expunham a situações que, eventualmente, pudessem trazer algum tipo de constrangimento. Uma atitude muito comum na história das famílias de elite negra, quando se referem ao modo como os negros ordeiros desenvolvem um tipo de comportamento puritano à medida que, em processo de ascensão social, procuravam distinguir-se da maioria da população.

Desse modo, a família já se distinguia da maioria das outras famílias negras não apenas por sua história, mas por suas ações. Além do que era constituída de negros libertados muito antes da Abolição, em 1988, e possivelmente houve alguma mestiçagem que,  infelizmente, foi impossível de ser precisada com os documentos existentes ao longo deste período. Todavia, há uma fotografia do velho Cesarino, em reportagem de Henrique de Barcelos, que mostra um velho de barbas brancas com nítidos traços negróides, mas a cor da pele não parece carregada; assim, ele fazia parte de um grupo de negros que tiveram mais facilidades na ascensão social-econômica, auferindo privilégios em relação àqueles cujos traços poderiam ser finos, mas cuja cor da pele tendia para o negro.

Todos esses aspectos servem para caracterizar a família Cesarino como muito especial, embora pobre, diferenciada da maioria das outras famílias negras da cidade na época, que, recém-saídas da escravidão, encontravam-se extremamente pobres e enfrentavam problemas de subsistência decorrentes da situação econômica, como desemprego, falta de moradia e de serviços de saúde e estavam mais expostas às violências explícitas da discriminação racial. Nesse sentido, a trajetória de vida de Antonio Ferreira Cesarino Júnior se destaca, justamente, pela astúcia, empenho e perseverança não apenas por alcançar objetivos inatingíveis para seu grupo, mas, também e fundamentalmente, por desempenhá-los com distinção entre os pares e com justo reconhecimento internacional.

Referências bibliográficas:

BARBOSA, Irene Maria Ferreira. Enfrentado preconceitos: um estudo da escola como estratégia de superação de desigualdades. Coleção Tempo e Memória, v. 4. Campinas: CMU Publicações, 1997.
MACIEL, Cleber Silva. Discriminação racial: negros em Campinas (1888-1921). Coleção Campiniana, v. 1. Campinas: CMU Publicações, 1987.

Um comentário

  1. magnífica postagem sobre o grande Antonio Cesarino…merecedor com honras de um nome de rua para ser perpetuado na história de Campinas..como texto mesmo diz: “”Antonio Ferreira Cesarino Júnior fugiu da trajetória modal do seu segmento: negro e pobre nascido no início deste século, na cidade de Campinas; de saber como ele desenvolveu uma trajetória particular, em um campo educacional onde as forças contrárias sempre conspiraram contra seus desejos e, pior que isso, nem sempre eram explicitadas””. Parabéns!!

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