Prefácio de: Guia histórico da indústria nascente em Campinas (1850-1887)

Preface to: Historical guide of the growing industry in Campinas (1850-1887).

Tamás J. Szmrecsányi (in memoriam) – professor de Política Científica e Tecnológica da UNICAMP.

Na historiografia econômica do Brasil tem sido devidamente destacado o papel pioneiro desempenhado por Campinas c região no desenvolvimentos agrícola de São Paulo, primeiro através da lavoura canavieira e mais tarde por meio da cafeicultura. Mas não vinha merecendo a mesma ênfase o seu também importante pioneirismo no âmbito do processo de industrialização. Esta era uma lacuna que começou a ser preenchida pelo trabalho aqui apresentado, de reconstituição histórica da trajetória das primeiras empresas industriais estabelecidas na região campineira, ainda nos tempos do Império.

Formada em Ciências Sociais pela Unicamp e técnica documentalista de seu Centro de Memória, Ema Elisabete Rodrigues Camillo levantou e sistematizou as informações disponíveis a respeito de mais de três dezenas de empresas industriais fundadas entre 1852 e 1887. Para cada uma delas elaborou uma ficha sinótica com as respectivas datas de fundação e de extinção, o nome e a nacionalidade dos proprietários, os endereços, os produtos fabricados, os destinos dessa produção e o número de operários. Tais dados, ainda preliminares e provisórios, foram complementados por textos descritivos de variável extensão, mas sempre fundamentados em fontes documentais e bibliográficas relevantes.

Esse primeiro surto de industrialização regional, que ela assim identificou e caracterizou, coincide no tempo com o início da expansão cafeeira no oeste paulista, tendo assumido como ela um caráter cumulativo de crescente intensidade. As quatro empresas criadas nos anos 1850 seguiram-se sete, dez e onze nas décadas subseqüentes, numa evolução corroborada por alguns dos melhores estudos da industrialização do Brasil.

E importante registrar que, no final da última dessas décadas, a de 1880, houve uma ruptura nessa progressão, por força da epidemia de febre amarela que dizimou a população campineira e abalou seriamente a economia local, freando por um bom tempo o crescimento de ambas. Isto não impediu, porém, que várias dessas empresas tivessem sobrevivido até épocas bastante recentes, merecendo ser destacado sob este aspecto o caso do Pastifício Selmi, que foi criado em 1887.

Mas, do ponto de vista do período abrangido por este guia histórico, há ainda dois outros aspectos que merecem ser destacados: um é representado pelas nacionalidades e origens sociais dos empresários envolvidos, e o outro refere-se aos ramos fabris.

Quanto ao primeiro destes aspectos, pode-se constatar que o maior número, cerca de 40% dos empresários mencionados eram brasileiros natos, se incluirmos entre eles os descendentes de imigrantes alemães e italianos. Estes somados perfaziam quase um terço do total, enquanto que o restante era constituído de imigrantes oriundos de outros países (franceses, portugueses e britânicos), e incluía até duas empresas de capital estrangeiro — a Lidgerwood Manufacturing Co. e, durante certo tempo, a Fábrica de Tecidos Carioba.

Os principais ramos em que se inseriam essas indústrias e manufaturas de Campinas eram os de produtos metalmecânicos e de material de transporte (veículos de tração animal), que em conjunto representavam um terço do total das empresas arroladas, e cuja produção atendia não apenas a demanda regional e provincial, mas também a de outras áreas do país. Havia igualmente fábricas de produtos alimentícios, de bebidas (cerveja), de chapéus e outros artigos de vestuário, de móveis e outros produtos de madeira, de calçados e couros, óleos vegetais, sabões e velas.

Contudo, são as empresas do primeiro bloco que mais atraem a atenção do historiador econômico, tanto pela finalidade a que se destinavam, como pelo tipo e valor dos investimentos nelas envolvidas. Tratava-se na sua maior parte de fábricas de meios de produção, e não de simples bens de consumo, produtos cuja elaboração envolvia muitas vezes modernos equipamentos importados, assim como conhecimentos técnicos relativamente avançados.

Este guia histórico, obviamente, não consegue esgotar o estudo dessa temática, nem eram estas a sua intenção e finalidade. Mas, ele constitui, sem dúvida, um primeiro e importantíssimo passo em direção à análise histórica dos primórdios da industrialização de Campinas e região. E essa é uma tarefa para cuja realização a autora do presente trabalho parece estar bastante bem qualificada.

Referência bibliográfica:

CAMILLO, Ema Elisabete Rodrigues. Guia histórico da indústria nascente em Campinas (1850-1887). Campinas: CMU e Mercado de Letras, 1998, 192p.

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