Benedito Otávio, um Intelectual Campineiro

Benedito Otávio, Campinas Intelectual.

Duílio Battistoni Filho – professor de História da PUCCAMP. Titular da Cadeira 6 do IHGG Campinas.

Teatrólogo, poeta e historiador, Benedito Otávio de Oliveira é uma das figuras mais emblemáticas da intelectualidade campineira da primeira metade do século XX. Nascido a 20 de novembro de 1871, no Sítio das Palmeiras, às margens do rio Atibaia, ali perto dos grandes e majestosos cafezais, no distrito de Souzas. Filho de uma escrava, logo depois órfão, sentiu muito a perda da mãe.

Mais tarde, na idade escolar, o menino, que estava predestinado a brilhar nas letras, começou a trabalhar em uma alfaiataria, a fim de adquirir os livros necessários à sua instrução. Como tipógrafo, iniciou sua carreira trabalhando primeiramente na Gazeta de Campinas, de Carlos Ferreira e, posteriormente, no Correio de Campinas, então dirigido por Henrique de Barcelos. Veio, depois, a ser jornalista efetivo, fazendo parte do corpo redatorial do Mensageiro, órgão católico que circularia mais tarde com o nome de A Tribuna.

Trabalhou durante seis anos nos escritórios da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e, a partir de 1900, tornou-se funcionário da Câmara Municipal, atendendo a um convite do jornalista e historiador Leopoldo Amaral, que reconhecia sua grande capacidade de trabalho e de seu valor como intelectual. Com a aposentadoria de Leopoldo Amaral, em 1915, Benedito Otávio viria ocupar o seu lugar como secretário da Câmara, cargo que desempenhou com competência até janeiro de 1927, data em que faleceu. No exercício dessas funções, teve oportunidade de travar conhecimento com a valiosa documentação histórica ali contida, que lhe permitiu desenvolver seu espírito de pesquisa, escrevendo e publicando numerosas páginas de interesse para a história de Campinas.

De sua produção historiográfica, escreveu Campinas antiga, em 1905, uma obra que descreve as festas de 1846, por ocasião da visita do imperador D. Pedro II. O motivo da estada do imperador foi eliminar as desavenças que ainda persistiam pela adesão campineira ao movimento liberal de 1842, por ocasião da Batalha de Venda Grande, em que os liberais foram derrotados, aqui, pelas tropas imperiais. Os tempos eram outros e a cidade se engalanou para receber o monarca que assistiu a um torneio de cavalhadas. Benedito Otávio descreve ainda a parte musical dos festejos em que Manoel José Gomes regeu sua banda, executando dobrados e marchas. Conta ainda o historiador campineiro o encontro do imperador com os filhos de Manoel que atuavam na banda: José Pedro, o Juca com sua clarineta, e Carlos Gomes, o Tonico, os tão falados ferrinhos (triângulos). Aos 10 anos, Tonico jamais poderia imaginar que, poucos anos depois, seria agraciado pelo monarca com uma bolsa de estudos para estudar na Itália.

Em 1907, Benedito Otávio publicou os Apontamentos históricos e estatísticos de Campinas, impresso na Tipografia da Casa Mascote. Nesse mesmo ano, de parceria com José Martins Ladeira, proprietário dessa casa comercial, editou o Almanaque de Campinas para 1908, contendo, além do calendário, a monografia de Campinas, informações úteis, relação das casas comerciais da cidade e dos bairros.

Em 1912, juntamente com Vicente Melilo, fez vir à luz o Almanaque Histórico e Estatístico de Campinas. Por ocasião das comemorações do centenário da Independência, em 1922, publicou seu trabalho histórico mais importante, Campinas e a Independência, editado pela antiga Casa Genoud, com o objetivo, segundo as declarações do autor, de descrever, embora rapidamente o que fez a Câmara desta terra, coligada à de Itu, a cuja comarca Campinas pertencia, a favor da independência e contra a reação a esse ideal. Tal trabalho foi mais tarde reimpresso, em capítulos, em 1972, pelo Correio Popular, em comemoração ao sesquicentenário de nossa emancipação política. À guisa de moto para o capítulo inicial Os fundadores, insculpiu estes versos de J. Gomes Pinto:

Matas aqui e ali, as planícies fora.
Carregadores, aguada, um rancho pobre,
Eis que Barreto Leme, em feliz hora,
Toda uma pátria mas regiões descobre,
Funda a cidade, semeador que passa.
Deixa a forte semente geradora;
Entrega, homem de fé, a terra à graça.
Da Virgem Santa, excelsa protetora.

Os demais capítulos intitulam-se A Campinas de 1822, Atos e palavras, Independência ou morte, A aclamação e, em Apêndice, Relação das pessoas gradas cujas assinaturas figuram nas atas da Câmara, de abril a outubro de 1822. Numerosos documentos dão ao livro o necessário fundamento, vindo, ainda, ilustrado com retratos de personalidades como D. Pedro I, José Bonifácio, Regente Feijó, para citar alguns; o campo do Ipiranga, a casa do visconde de Castro, pai da marquesa de Santos, nas proximidades do local da Proclamação da Independência, o quadro conhecido de Pedro Américo e, por fim, uma reconstituição da Matriz de Campinas, em 1822.

Cumpre ressaltar que a maior parte da produção literária e histórica de Benedito Otávio permanece esparsa por jornais e revistas. São os casos, por exemplo, do Os vigários de Campinas, em que arrolou todos os sacerdotes que desfilaram pela Freguesia de Nossa Senhora da Conceição; O crime de Capuava, em que perdeu a vida o feitor carrasco em mãos dos escravos; Heróis campineiros, sobre os voluntários de Campinas, que marcharam para combater na Guerra do Paraguai e Funerais régios, em que conta o fato histórico de os vereadores de 1816 terem saídos incorporados para a rua, após a reunião regimental, em demonstração de público pesar pela morte de D. Maria I, rainha de Portugal.

Como teatrólogo, escreveu mais de 30 trabalhos entre dramas, comédias e operetas. Cumpre ressaltar que as peças eram levadas de forma precária no Salão Cáritas, cujas instalações não atendiam aos desejos dos atores. Atendendo aos reclamos destes, D. João Nery, primeiro bispo de Campinas, resolveu construir um teatrinho dedicado aos amadores, anexo ao recém-criado Externato São João dos padres salesianos. Nesse educandário, dirigiu espetáculos e incentivou os jovens às artes cênicas. Como justa homenagem foi agraciado com seu nome a um grupo teatral formado por ex-alunos de D. Bosco, tendo à frente o padre José dos Santos. Sendo, na realidade, a primeira escola de amadores locais, no seu palco passaram atores renomados como Vicente Ghilardi, Luís Laloni, Ferdinando Panatoni, Trajano Guimarães e, mais tarde, Walter Forster, conhecido homem de rádio e televisão. Todavia, cumpre assinalar também que entre as peças encenadas somente os homens participavam, visto que as famílias não permitiam que moças integrassem elencos mistos.

As peças teatrais de Benedito Otávio, levadas também no Ginásio Diocesano Santa Maria, caracterizavam-se pela escolha de temas e um rigoroso sentido educacional, visando sempre ao fortalecimento do caráter e da moral. Especialista nos mais diversos gêneros, escreveu, de parceria com o bispo D. João Nery, Raça e ódio, com vistas ao Primeiro Congresso Católico. Outras peças tiveram grande repercussão como Adoração dos pastores, em dois atos, representada a 25 de dezembro de 1919; Nossa Senhora de Lourdes, mistério em cinco atos, representada a 8 de dezembro de 1911; Padre Anselmo e a lâmpada maravilhosa, cujo fundo se baseia no roubo da lâmpada do sacrário da Matriz Velha; Os inconfidentes, drama em três atos, relatando os episódios de Vila Rica, no século XVIII. Lá estão eles, redivivos, perfeitos em suas falas verossímeis nas descrições: Maria Dorotéia, Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Silvério dos Reis. Vila Rica ressurtida, debruçada sobre o afluente do ribeirão do Carmo, regurgitante de vida: meirinhos e solda dos irmãos de misericórdia e franciscanos, fâmulos e escravos e a figura dramática de Joaquim José da Silva Xavier, sereno, alastrando sua sombra. Com os poetas Renê Barreto e Alberto Faria, produziu comédias e dramas, representadas no velho palco do Teatro São Carlos, em benefício do Liceu Nossa Senhora Auxiliadora.

Como poeta, em 1906, deu-nos o livro Ananké, em versos alexandrinos, ao descrever episódios dos tempos coloniais de São Paulo, originado da maldição lançada pelo chefe morubixaba Baibebá sobre uma família paulista que tinha dizimado seu povo, numa atitude tresloucada. Essa obra foi editada em 1900 pela Casa Livro Azul.

Como tradutor, deixou, entre outros trabalhos, o libreto de Emílio Ducatti para a ópera Alda, do maestro Santana Gomes, irmão de Carlos Gomes; Os burgrávios de Vitor Hugo; Os romanescos, Cirano de Bergerac, A princesa distante, todos de Edmund Rostand.

Benedito Otávio de Oliveira foi o fundador da cadeira nº 18 da Academia Paulista de Letras. Foi escolhido pelo saudoso José Roberto do Amaral Lapa como patrono da cadeira nº 24 da Academia Campinense de Letras. Foi escolhido por mim como patrono da cadeira nº 6 do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas. Seu nome é recordado em pequena rua da Vila Industrial.

Referência bibliográfica:

REVISTA do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas. Número 1. Komedi: Campinas, 2008, pp. 33-36.

 

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