Prefácio de: Os excluídos, contribuição à história da pobreza no Brasil (1850-1930)

Preface to: The excluded: contribution to the poverty history in Brazil (1850-1930).

Olga Rodrigues de Moraes von Simson – socióloga, professora da UNICAMP. Titular da Cadeira 40 do IHGG Campinas.

Campinas é uma cidade que possuiu um conjunto de estudiosos voltados para sua história. Estes revelaram um sincero desejo de desvendar os caminhos de sua formação e desenvolvimento. Os primeiros eram historiadores leigos, muitos deles jornalistas ou mesmo profissionais liberais que se interessavam pelo fazer histórico, que prestaram um inegável serviço à cidade e aos pesquisadores atuais ao levantarem e registrarem dados sobre a vida passada da urbe que, de outra forma, certamente se teriam perdido. Mas, alguns deles estavam também interessados em fazer apologia da cidade, que crescia e se desenvolvia, a partir da segunda metade do XIX.

José Roberto do Amaral Lapa, campineiro de velha cepa, não só foi profundo conhecedor da obra desses historiadores da velha guarda, como também conviveu com alguns deles, seja na intensa atuação que teve no Centro de Ciências, Letras e Artes ou na participação do cotidiano das redações de jornais da cidade, na época da juventude ou mesmo em outros espaços de convívio da intelectualidade local. Ele reconhecia o papel de pioneiros na elaboração do conhecimento histórico sobre a cidade.

Tendo realizado sua formação científica em história e em direito na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Amaral Lapa complementou essa trajetória com um doutorado em história, defendido na UNESP, câmpus de Marília, onde ele então atuava, mas realizado sob a orientação do catedrático em História do Brasil da USP, o mestre Sérgio Buarque de Holanda.

Dedicou-se, durante sua longa carreira de pesquisador, a temas e problemas de pesquisa que faziam explodir os limites de sua amada cidade. Assim, desenvolveu projetos que exigiam cuidadoso trabalho investigativo, seja em arquivos portugueses, como os da Torre do Tombo, seja em instituições-memória do Rio de Janeiro, construindo uma sólida carreira de pesquisador que abrangia desde temas do período colonial brasileiro, focalizados na Bahia ou no Grão-Pará, ou ainda enfocando a economia cafeeira durante o século XIX.

Foi só a partir da década de 1980 que o intelectual, já experimentado e reconhecido internacionalmente, se deu ao direito de voltar aos instrumentos teórico-metodológicos que bem dominava, para esmiuçar e penetrar a realidade campineira, produzindo um conjunto de duas obras que reputo fundamentais para qualquer pesquisador ou estudioso que deseje compreender a realidade histórica e sociocultural de Campinas e região.

Pensada, de início, como uma pesquisa que geraria uma única obra, que seria de cunho fundamental para o conhecimento da realidade de Campinas no período escravocrata, Amaral Lapa, entretanto, logo se deu conta de que seu desejo de estudar a escravidão urbana e a pobreza livre no meio urbano campineiro exigiria um cuidadoso levantamento de dados primários, até então não realizado nos arquivos, ainda pouco organizados da cidade. Constituiu uma equipe de jovens pesquisadores e, ao colocar mãos à obra, percebeu a enorme quantidade de dados resultaria em uma produção impossível de ser publicada apenas em um único volume. Decidiu então biparti-la, construindo primeiro o cenário histórico sociológico, que permitiria entender a vida na cidade oitocentista, que realizou na obra de 1996: A cidade: os cantos e os antros (Ed. da USP, 1995), para, em seguida, estudar a vida e a luta dos excluídos na sociedade escravocrata.

O professor Amaral Lapa, para desenvolver esse projeto de pesquisa em equipe sobre a realidade histórico-social campineira, selecionou alunos da UNICAMP, que, na condição de bolsistas de iniciação científica ou de aperfeiçoamento, muito contribuíram para a produção do conhecimento sobre a cidade. Mas ele tinha também alguns objetivos muito mais amplos, que envolviam a formação de novos talentos para o exercício do fazer histórico, através de diversas táticas e estratégias muito bem desenvolvidas pelo experimentado mestre.

Assim, ele se preocupou em desenvolver nesses jovens a disciplina necessária ao trabalho intelectual, fazendo-os participar conscientemente de todas as fases do processo de pesquisa. Fazia com que começassem pelas tarefas mais simples, que ele trazia descritas em linguagem informal e carinhosa em bilhetinhos datilografados, os quais iam sendo distribuídos entre os membros da equipe, sempre acompanhados de cuidadosa explicação. Uma cópia do bilhete ficava devidamente arquivada, permitindo, assim, ao mestre saber o que cobrar de quem, na seguinte reunião quinzenal.

Nessas reuniões periódicas, Lapa dividia com seu grupo de bolsistas todas as descobertas e conquistas que a pesquisa ia fazendo, apontando os insights que havia tido e mostrando quais os pontos que ainda necessitavam de uma comprovação mais concreta, orientando dessa forma a busca que realizavam nos arquivos, Quando um deles trazia, numa das reuniões, a comprovação documental esperada, era uma ocasião de regozijo, compartilhada por todos.

Ao ensiná-los a trabalhar em pesquisa histórica, o professor Lapa era capaz de transmitir entusiasmo, desde a fase de aprovação do projeto, passando pela finalização de cada uma das etapas, todas intensamente vivenciadas, até se chegar à aprovação final do relatório. Mas ele vivia, com especial ênfase, a conquista definitiva da publicação do artigo ou do livro, o que permitiria a divulgação mais ampla dos resultados da pesquisa. Lapa acreditava e batalhava pela pronta divulgação dos frutos do trabalho científico – num sentido mais amplo, que incluísse a sociedade em geral – pois sabia que só ela é que faria com que essas descobertas fossem incorporadas ao viver cotidiano e às lutas sociais dos grupos estudados, como também faria com que a própria ciência ganhasse em prestígio e crescimento, no sentido de conquistar novos cultores e mais subsídios para seu desenvolvimento.

A cada uma das reuniões quinzenais da sua equipe, Lapa fazia questão de trazer todas as novidades recebidas, tanto em livros como em periódicos, fossem eles os recém-chegados à Biblioteca do Centro de Memória ou aqueles por ele recebidos por meio dos contatos freqüentes que mantinha com colegas, ex-alunos, editoras e instituições de pesquisa nacionais e internacionais. Fazia-os, assim, conhecer o que de mais recente e inovador estava circulando na área da história e das ciências sociais, principalmente o que estava sendo produzido referente à temática então em pesquisa ou sobre temas a ela relacionados.

O mestre também incentivava seus pupilos a publicar resenhas das obras mais recentemente editadas ou mesmo pequenos artigos, no sentido de já se irem formando como jovens escritores e construindo um início de currículo no campo profissional escolhido.

Criava entre eles uma espécie de competição pela busca de documentos originais que viessem enriquecer a pesquisa. Assim, os arquivos, nem sempre bem organizados, passavam a ser vasculhados pelos jovens pesquisadores, no intuito de buscar as pistas fundamentais para a reconstrução do passado, sendo tais vestígios objeto de cuidadosa leitura e devida transcrição, seguida da análise competente, que permitia, pela crítica abalizada, sua inserção na trama do tecido que a pesquisa ia produzindo.

Uma primeira versão do texto de um determinado capítulo era então produzida por ele, sendo apresentada e discutida por todos nas reuniões quinzenais. Tendo sido o texto revisto nessa ocasião, ele algumas vezes o entregava para ser digitado por um dos bolsistas, de modo a fazê-lo apropriar-se do prazer de ver a versão definitiva de um capítulo nascer do trabalho de suas próprias mãos, versão esta que, no entanto, a cada leitura sofria acréscimos e correções, em um constante burilar.

Lapa era um mestre no sentido próprio da palavra (homem sabedor e que ensina), pois com segurança introduzia e acompanhava seus pupilos nas várias fases da construção do conhecimento. Ele gostava de trabalhar com os graduandos e retirava energia desses contatos, que se repetiam no mínimo quinzenalmente. Estava sempre preocupado em ensiná-los a pesquisar e fazia com que aprendessem também a introduzir os colegas recém-chegados ao projeto. Incentivava-os a ensinar as técnicas do trabalho científico que já dominavam e a ajudar os colegas neófitos a compreender os caminhos da pesquisa, servindo, assim, como jovens introdutores dos menos experientes nos projetos em andamento, Dessa forma, preparava-os para serem também futuros docentes, ao dominarem os vários talentos que a carreira universitária exige.

Hoje, conversando com os jovens que participaram desse projeto, é possível perceber que, através dessas estratégias, Lapa ajudou todos eles a definir com muita clareza sua trajetória profissional futura. Todos se envolveram definitivamente com a atividade de pesquisa e estão continuando, na pós-graduação, o que haviam iniciado sob sua tutela, ainda na graduação. Alguns, que faziam paralelamente outros cursos de graduação, abandonaram essas outras opções para se concentrarem na pesquisa histórica, estando hoje já em fase de doutorado. Outros que cursavam carreiras próximas, como a de ciências sociais, por exemplo, se redirecionaram para a história social, tal a paixão que desenvolveram pela pesquisa em arquivos.

Podemos dizer que o trabalho de alguns anos, necessário à elaboração do conjunto de dois livros que se complementam (pois dialogam por meio de temas que guardam muitas correlações diretas), que ora se completa com a publicação póstuma da segunda obra, constituiu um projeto construído pela junção de muitos talentos e esforços, magistralmente conjugados e orquestrados pelo maestro Lapa. Além de gerar essas duas obras, fundamentalmente necessárias para o conhecimento da história social de Campinas e região, Amaral Lapa, ao desvendar o vasto território da vivência dos excluídos na cidade escravocrata, formou também um grupo de pesquisadores movidos e alimentados pela mesma paixão que o movia: a construção do conhecimento histórico. Essa foi a melhor dádiva que o decano professor poderia deixar para seus orientandos e para a Universidade.

Referência bibliográfica:

LAPA, José Roberto do Amaral. Os excluídos: contribuição à história da pobreza no Brasil (1850-1930). Campinas: Ed. UNICAMP, São Paulo: Ed. USP, 247p.

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