A Morte e a Festa: o Cemitério do Campo e os Descendentes de Norte-americanos no Brasil

Death and Holiday: The Campo Cemetery and Americans Descendants in Brazil.

Alcides Fernando Gussi – professor de História da Universidade Federal do Ceará, pesquisador. Sócio correspondente do IHGG Campinas em Fortaleza.

Quem assistiu ao filme … E o Vento Levou (uma produção hollywoodiana de 1939) deve se lembrar da cena em que a personagem principal, a latifundiária Scarlett O’Hara, observando no horizonte a sua fazenda devastada (Tara) faz o juramento dramático de que nunca mais passaria fome. Scarlett ousava, então, reconstruir a vida em sua terra natal, após a trágica guerra civil conhecida como a Guerra de Secessão (1861-1865). Mas a protagonista poderia ter encontrado outra solução: emigrar para o Brasil.

Entre 1866 a 1868, houve o estabelecimento de imigrantes norte-americanos do Sul, recém-saídos daquela Guerra, em Santa Bárbara, no interior de São Paulo. Cerca de 3 mil indivíduos emigraram para o Brasil nesse período, sendo que chegaram a se fixar 500 famílias na região onde hoje estão localizadas as cidades de Santa Bárbara d’Oeste e de Americana.

Na década de 1990, desenvolvi uma pesquisa com os poucos descendentes das primeiras famílias. O trabalho gerou o livro: Os norte-americanos (confederados) do Brasil: identidades no contexto transnacional, volume 2 da Coleção Tempo e Memória do Centro de Memória (CMU), em 1991. Na época, os descendentes estavam organizados em uma associação, a Fraternidade de Descendência Americana, que mantinha contato com um pouco mais de 300 associados dispersos por várias localidades.

A organização promovia reuniões e festas no Cemitério onde estão sepultados os seus antepassados. Nesses eventos, as pessoas dramatizavam algumas cenas do passado de sua ancestralidade – do Sul do Estados Unidos, da Confederação, da Guerra, da Imigração enfim – como se o filme … E o Vento Levou estivesse sendo continuado ali, fora de lugar.

Decerto, esses eventos constituíam situações sociais onde um conjunto de representações era acionado para lembrar, identificar e recordar os americanos confederados fixados nas localidades brasileiras.

O cenário

Percorrendo as estradas de terra em meio a canaviais, nos limites das áreas rurais das cidades de Americana e Santa Bárbara d’Oeste, chega-se ao Cemitério do Campo. Mas não se trata de um cemitério qualquer: lá estão sepultadas as gerações das famílias de imigrantes americanos.

O Cemitério ocupa uma pequena área de 2 mil m2 no território de Santa Bárbara, e está equidistante cerca de 12 quilômetros dessa cidade e de Americana. Possui, logo avistados na entrada, um galpão, um obelisco comemorativo, uma capela, uma casa de madeira onde morava a família de um zelador e, ao fundo, uma porção de lápides enfileiradas, ao que se sabe, totalizando quase 400 túmulos.

Algumas lápides já se perderam e outras estão quebradas como resultado da ação do tempo e a falta de manutenção. Mas, na maioria, estão inscritos os nomes dos seus mortos. Algumas indicam tratar-se de veteranos soldados de guerra e, a menos que se saiba um pouco de história, alguém não saberia dizer de qual conflito se trata.

As inscrições são, quase sempre, complementadas com mensagens religiosas retiradas de textos bíblicos, as mais antigas ainda escritas em idioma inglês. As mensagens, que pretendem associar a vinculação dos mortos – e dos vivos – ao protestantismo, evocam uma solução de continuidade na morte: It shall not pass é uma frase comum.

A história dessa pequena necrópole fincada entre os dois municípios próximos confunde-se com o processo de diferenciação dos americanos na localidade. O Cemitério do Campo, delimitado em 1869 na propriedade de um dos imigrantes, originou-se na época em que a Igreja Católica não permitia que os protestantes fossem enterrados nos cemitérios locais, geralmente ligados às paróquias, como acontecia em Santa Bárbara. Como sempre foi e será com um sepulcrário, além dos sepultamentos o local passou a ser um centro religioso e social da colônia norte-americana. Ao redor do local foi construída uma capela, várias vezes reformada, onde eles realizavam, em um tempo passado, reuniões dominicais com cultos e piqueniques.

Mas, os mortos não seriam o que são e nem o Cemitério deixaria de ser um cemitério qualquer se não fosse o que os vivos fazem dele no tempo presente desta pesquisa. Para o pequeno número de descendentes dos norte-americanos que visita o local e, também, alguns moradores de Santa Bárbara d’ Oeste e de Americana, as sepulturas falam. Elas retratam a ancestralidade e o passado das localidades. Para estas pessoas, o mortos representam a possibilidade de conhecerem o seu passado.

Os descendentes são hoje em número reduzido e estão dispersos. A Fraternidade de Descendência Americana mantinha contato, na década de 1990, com 315 descendentes, sendo que 45 eram moradores de Santa Bárbara, 21 de Americana e, nas outras cidades vizinhas, 8 moravam em Nova Odessa e 24 em Sumaré. Os demais estavam espalhados por outras cidades do estado de São Paulo, pelo país, e até por Miami.

Um perfil dos descendentes que participavam mais assiduamente dos eventos da Fraternidade revela que eles eram, em sua maioria, pertencentes às 3a e 4a gerações, moravam em Santa Bárbara, eram mulheres, de meia idade, de classe média, com escolaridade secundária e exerciam ocupações domésticas e no setor terciário. Ao contrário do que sabem dos seus antepassados, a grande maioria atual era casada com descendentes de outras etnias; um pouco mais da metade eram católicos ou de outras religiões não-protestantes; não tinham domínio, mas apenas parcos conhecimentos da língua inglesa; não mantinham contato com os Estados Unidos da América e nem mesmo viajaram por lá; ainda que tivessem parentes norte-americanos, como primos distantes, não os conheciam. Todos eram sócios da Fraternidade, participavam com relativa frequência das reuniões trimestrais e das festas anuais, contribuindo para a sua organização, e costumam visitar o Cemitério do Campo. É quando os vivos identificam-se com os mortos.

O Cemitério do Campo constitui um significativo espaço de lembrança da imigração e fixação da colônia norte-americana em São Paulo.

Referência bibliográfica: 

GUSSI, Alcides Fernando. Os norte-americanos (confederados) do Brasil: identidades no contexto transnacional. Campinas: CMU Publicações, volume 2 da Coleção Tempo e Memória do Centro de Memória – Unicamp, 1991.

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