A Cidade Silenciosa

The Silent City.

Romilda Aparecida Cazissi Baldin – genealogista, pesquisadora. Titular da Cadeira 8 do IHGG Campinas.

Já em 1740, as famílias pioneiras da atual Campinas reivindicaram um local para enterrarem seus entes queridos, um local abençoado, um campo santo. O cemitério mais próximo localizava-se em Jundiaí, onde era reservado um espaço para os enterros vindos do bairro do Mato Grosso, e se chamava Cemitério das Campinas. No livro Campinas, Município no Império, Celso Maria de Mello Pupo apresenta relatos dos nomes das pessoas enterradas naquele cemitério, registrados no Livro de Óbitos da Paróquia de Jundiaí.

O trajeto ao tal cemitério era penoso pela distância e os caminhos difíceis transportando um cadáver. Mas, ter uma sepultura cristã era importante para as pessoas, fossem ricas ou pobres.

Essa reivindicação foi iniciada por Francisco Barreto Leme, que fez uma cercadura de terreno logo depois de obtida a autorização diocesana para a construção da Capela que originou a nossa cidade. Porém, os enterramentos começaram imediatamente, em 1753, mas a Capela só foi inaugurada em 1774. Com isso, Campinas teve seu Cemitério antes mesmo de se tornar Freguesia, fato raro no contexto colonial brasileiro.

Quando a Capela ficou pronta, em 22 de julho de 1774, os sepultamentos passaram a ser feitos dentro dela e ao seu redor. Mas ela logo se tornou pequena para atender à assistência religiosa e para os sepultamentos que se tornaram discriminatórios em relação aos escravos e aos mais pobres. O átrio e o corredor eram reservados às personalidades, bem como próximo ao altar, seguindo uma hierarquia, enquanto que para o povo era destinada a praça próxima da capela e o seu entorno, que hoje seria a Praça defronte ao Monumento Túmulo de Carlos Gomes.

A Capela foi substituída pela 1ª Matriz, construída do outro lado da praça, onde está até hoje, e se chamava Matriz Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, hoje é a Basílica Nossa Senhora do Carmo, ou Matriz Velha, como ficou conhecida.

Quando a atual Catedral ficou pronta, em dezembro de 1883, foi feito o translado dos ossos que repousavam na Capela, com os devidos registros nos Livros de Óbitos, em 7 de novembro de 1787, mas somente dos que estavam dentro dela.

Como dissemos, os forros católicos e os escravos não se misturavam a esse cemitério e, por ordem da própria Igreja, foi construído um segundo cemitério, em agosto de 1823, ao lado da Capela do Rosário, que teve o mesmo nome – Cemitério do Rosário – destinado apenas a eles e ficava fronteiro à atual Praça Guilherme de Almeida, na esquina com a Rua do Rosário (atual Francisco Glicério), com a Rua das Casinhas (atual General Osório). Este cemitério funcionou até agosto de 1831.

Anos mais tarde, Joaquim Teixeira Nogueira construiu sua residência no local, sendo este imóvel um dos grandes sobrados da cidade. E assim os negros e libertos católicos mais uma vez ficaram sem ter onde ser sepultados.

Por iniciativa do Cónego Melchior Fernandes Nunes, em 1837, pediu-se autorização para a Cúria Diocesana e para a Câmara para construir uma Capela e um jazigo para sua família. Assim o Cónego propiciava a encomendação do morto, próximo ao seu jazigo, mediante um pequeno pagamento, permitindo assim que os pobres negros alforriados e escravos fossem enterrados em sua capela.

Em 1867, a Irmandade de São Benedito conseguiu autorização para reformar a Capela. Hoje lá está a belíssima Igreja de São Benedito, na atual Praça Anita Garibaldi, onde a construção é feita de tijolos, tendo janelas com vitrais. O projeto foi elaborado por Ramos de Azevedo para seu amigo Mestre Tito, escravo alforriado, devoto se São Benedito.

O cemitério em campo fora da Igreja se localizava onde hoje está construída a Creche Bento Quirino e no terreno que a separa do templo, onde fica o salão social da Igreja de São Benedito. Ficou conhecido também como Cemitério dos Cativos, e era coordenado pela Irmandade Nossa Senhora do Rosário, posteriormente Irmandade de São Benedito.

Com o crescimento da cidade, os antigos cemitérios desapareceram e construiu-se então, outro, fora do perímetro urbano, em ampla área, no início da Rua Cónego Scipião, onde era a antiga Porteira do Capivara (passagem dos trens), próximo ao pátio de manobras ferroviárias, em local ocupado hoje pelo Teatro José de Castro Mendes e o Viaduto Miguel Vicente Cury. Era um conjunto de quatro Cemitérios e funcionou de 1860 a 1881.

O Cemitério Público Municipal recebia todos os sepultamentos da cidade, exceto os bexiguentos e os leprosos, que eram enterrados nos Lazaretos da cidade. O Cemitério da Irmandade de São Miguel e Almas, inaugurado em 16 de janeiro de 1854. O Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral, datado de 1861, era cercado por muros de taipas, para diferenciá-lo do Cemitério Público, com calçadas de pedras e ruas internas feitas de ladrilhos atijolados e no centro um grande Cruzeiro. Tinha um portão de ferro, em cujas colunas havia dois globos de louça portuguesa, vindos do Porto.

O Cemitério dos Protestantes (dos Acatólicos), administrado pela Sociedade Alemã de Instrução e Leitura em 1863.

O convívio entre os vivos e os mortos foi se tornando difícil, a modernidade não permitia mais cemitérios próximos da população. Com um novo código sanitário em vigor, os cemitérios deveriam ser colocados o mais longe possível dos centros populosos, a pelo menos 300 metros de distância das habitações.

A solução foi mudá-lo para o mais longe possível do centro da cidade, para bem longe das habitações, em local alto, onde os ventos não soprassem contaminados, e foi escolhido o Bairro da Santa Cruz, por ser considerado então saída da cidade (atual Largo Santa Cruz), mas a Câmara Municipal protestou e a rejeição trouxe nova sugestão. Finalmente uma comissão especial optou pela aquisição de mais ou menos dois alqueires da propriedade de Francisco Abílio de Andrade e Irmãos, pelos lados da Capelinha do Fundão (datada sem comprovação de 1879), onde se construiu o novo Cemitério, cujo nome já indicava a distância da cidade, recebendo a benção de Campo Santo em 20 de maio de 1880, com o nome de Cemitério do Fundão, e começando a funcionar em 1881, para onde foram exumados e transferidos os restos mortais dos que jaziam nos Cemitérios da Vila Industrial. a transferência se deu entre 1881 e 1895. Assim, a partir de 1881 ficava proibido qualquer sepultamento em outro local que não fosse o Cemitério do Fundão.

Era a última e definitiva mudança que os mortos sofriam e não mais incomodariam os vivos, pois a cidade dos mortos seria cercada por muros separando assim os dois mundos.

Este Cemitério do Fundão, assim chamado pela distância, o foi até 1924, quando teve seu nome mudado para Saudade, é o mais antigo em atividade e maior de Campinas, onde a memória da cidade se perpetua, sendo um conjunto de obras belíssimas, com esculturas, adornos, capelas, túmulos e mausoléus, o que faz dele um Museu a céu aberto, composto de obras de artesãos, na sua maioria italianos e descendentes, marmoristas admiráveis e pedreiros competentes, e meus antepassados fazem parte desses pedreiros. De barões a escravos, de pessoas que fizeram história ou desconhecidos, todos se encontram nesta cidade…

A história de um povo e a diferença social daquela época continuaram, pois o contraste de certos túmulos, mausoléus, diante de tantos outros mais simples nos mostra que a hierarquização dos mortos se manteve neste Cemitério, do mesmo modo de quando os sepultamentos eram realizados dentro da Igreja Matriz e em seu entorno.

Hoje o Cemitério da Saudade é formado por cinco cemitérios distintos, sobre um terreno de 181.500 m2 (ou 7,5 alqueires), com 112 quadras e 32 mil sepulturas, tendo já sido realizado o sepultamento de quinhentos mil corpos. Os nomes desses cemitérios? São José, São Miguel e Almas, Cura D’Ars, Venerável da 3a Ordem do Carmo e Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral.

O Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral é aquele com a maioria de sepulturas de mármore, com belíssimas esculturas, e é onde estão sepultadas as figuras importantes de Campinas. Quanto mais belo o túmulo, maior era o poder da família, e por serem os terrenos desse cemitério muito caros e apenas famílias de posses a adquirí-los, os túmulos ali assentados eram bens que os proprietários deixavam como significativa herança.

Ao passarmos pelo magnífico Portal (obra atribuída sem comprovação ao arquiteto Ramos de Azevedo), inaugurado em 1913 – e com muito orgulho para mim, pois meu bisavô Francesco Tossini fez parte da equipe de pedreiros que o assentaram – desde o prédio da administração (esse sim obra de Ramos de Azevedo, projetado em 1895 e construído em 1899) até suas belíssimas sepulturas, fazemos uma volta ao passado, onde encontramos uma arte religiosa magnífica, mostrando a prosperidade alicerçada pelo café.

A parte destinada O Cemitério da Irmandade São Miguel e Almas, ao lado da entrada principal, tem como referência o Túmulo da Família Milani, obra do italiano José Rosada. Ela é formada por quatro quadras e uma capela. A capela é simples e hoje os túmulos são modernos e simples.

Não existe um muro ou grade separando o próximo cemitério, o da Venerável Ordem Terceira do Carmo, logo ao lado do São Miguel, onde está sepultado o Prefeito Toninho, assassinado em 2001. É também formado por quatro quadras e uma capela, que foi executada pelo construtor e escultor Octávio Papaiz.

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Seguindo para o lado leste, encontramos uma pequena escada de poucos degraus. Adentramos no Cemitério Cura D’Ars, que foi um dos primeiros a ser construído, e foi neste cemitério que foram sepultados os campineiros enfermos, que antes eram sepultados nos lazaretos, mas não existem provas de que os corpos dos lazaretos foram transferidos para esse cemitério, mas depois da inauguração deste espaço os sepultamentos dos doentes foram feitos lá. Neste cemitério os túmulos são de estilo moderno, com carneiras, e seus adornos são cruzes, esculturas, vasos, sempre do mesmo material do túmulo, de granito ou cimento, com azulejos coloridos. Como não pertence a nenhuma irmandade religiosa, as quadras são nomeadas com letras e não possui capela.

Voltando à avenida principal, denominada de Avenida das Palmeiras pela presença das Palmeiras Imperiais, encontramos os belíssimos túmulos da história de Campinas. Um deles é o da Família Penteado, obra executada por Guiseppe Tomagnini. Outro é do Barão Geraldo de Rezende, feito de mármore Carrara, muito detalhado, onde um anjo representando a Saudade está sentado sobre um caixão, não se tem dados de quem o construiu, pelo menos não gravado no túmulo.

Bem no centro da Avenida das Palmeiras está a Capela da Família Ferreira Penteado e ao seu lado o Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral, que possui vinte e nove quadras. Os túmulos são construídos em sua maioria verticalmente. Os túmulos da primeira quadra são todos de mármore Carrara, em estilo art déco, neoclássico ou estilo eclético. A elite campineira compunha a Irmandade do Santíssimo Sacramento, e esses túmulos eram copiados de modelos europeus e muitas vezes importados.

Nas demais quadras ainda podemos ver alguns túmulos em mármore, principalmente na segunda quadra, mas pela visão que eu tive quando pesquisei no cemitério, notei que muitos túmulos de mármore Carrara, apesar de tombados pelo CONDEPACC, foram revendidos, e em seu lugar foram feitas sepulturas de estilos modernos em granito natural e artificial, perdendo-se com isso o patrimônio histórico.

E, finalmente, na parte de baixo, à esquerda da Avenida das Palmeiras, descendo uma escada, entramos no Cemitério São José, onde antes dos assaltos aos túmulos havia uma entrada pela Avenida da Abolição, hoje lacrada. Neste cemitério, a maioria das sepulturas pertence a famílias de imigrantes de predominância japonesa, são simples, de granito ou revestidos de azulejos, alguns com influência da arquitetura oriental, foram construídos posteriormente.

O restante das quadras, mais no fundão, depois da Capela da Família Ferreira Penteado, é o Cemitério da Saudade, que não pertence a nenhuma irmandade e sim à Prefeitura Municipal, e aí notamos como os demais cemitérios se diferenciam deste, porque os que foram transferidos a partir de 1881 eram pertencentes às Irmandades religiosas, possuíam capelas e os estilos tumulares eram sofisticados. Foi o prefeito Orosimbo Maia quem adquiriu os restantes 29.452 metros quadrados de Valente & Irmão para o aumento definitivo do Cemitério do Fundão.

E para terminar, segundo o historiador Duílio Battistoni, existiu também um cemitério indígena nas imediações de onde está o Campo do Esporte Clube Mogiana, no bairro do Guanabara.

Referência bibliográfica:

BALDIN, Romilda A. Cazissi. E eles embelezaram a morte enaltecendo a vida: escultores italianos em Campinas. Campinas: Solution, 2016, 100p.

 

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