Homenagem aos mortos: importação de esculturas no Cemitério da Saudade (Séculos XIX a XX)

Tribute to the dead: sculptures imports at Saudade Cemetery (Campinas, SP, Brazil, Century XIX to XX).

Josemar Antonio Giorgetti – advogado, pesquisador. Titular da Cadeira 2 do IHGG Campinas.

Manter viva a memória de um ente querido que se foi aperfeiçoa a preservação de uma identidade cultural. Esse cuidado é conservado através de símbolos imagéticos que são depositados no leito final da carne, no Cemitério.

Muito comumente, a riqueza era empregada na contratação do que de melhor pudesse ser oferecido e que melhor distinguisse o finado dos demais. A ideia era, no sepultamento, comparar a si e ao seu clã com reis, grandes heróis, papas etc., por meio de mausoléus de grandes proporções, que igualmente perpetuassem a si e aos seus. As práticas fúnebres, inclusive, obedeciam a regras complexas e, por que não dizer, severas.

O valor artístico dos monumentos funerários se estabelece desde o período pré-histórico até o Renascimento, segundo Maria Elizia Borges (2010, p. 627): (…) deparamos com os historiadores da arte especializados na antiguidade que fazem questão de inserir nos seus livros o valor artístico dos monumentos fúnebres. Praticam uma visão retrospectiva acerca da unidade maior da cultura do passado, tomando como referência os grandes modelos. Acrescenta que havia um ‘olhar mágico’ na imagem, numa época em que os homens dependiam das forças misteriosas e de idolatrar seus ídolos.

A partir do século XVIII os monumentos funerários começam a ser construídos em um espaço particularizado, os cemitérios convencionais secularizados. Já no século XIX, a proliferação dos cemitérios tem a conotação de uma verdadeira instituição cultural, de usos e costumes valorativos sociais, além da finalidade meramente religiosa.

Por volta da segunda metade do século XIX as visitas aos cemitérios passaram a ser cada vez mais frequentes e, com elas, o culto dos mortos tornava-se prática familiar, ao mesmo tempo em que afetiva e reputada como a boa conduta moral, segundo o artigo de Antonio Motta (2010, p. 57), que descreve os modos oitocentistas de sociabilidade.

O intervalo entre 1860 e 1930 é mencionado pela autora Maria Elizia (2010, p. 629) como o período áureo da produção funerária na Europa, na América do Sul e na América do Norte.

Coube a essa sociedade burguesa colocar em prática essa nova arquitetura fúnebre que representasse seu gosto e status.

Na falta de escultores voltados para esse novo segmento artístico, catálogos europeus ofereciam uma ampla gama de anjos, santos e adornos variados, normalmente em mármore de Carrara, motivo pelo qual não é difícil encontramos peças artísticas muito parecidas em cemitérios de localidades diferentes.

Já com relação aos túmulos, a massiva imigração italiana trouxe construtores que renovavam as fachadas das residências, ornamentando-as com relevos e estuques, platibandas e cimalhas com datas e monogramas. Esse novo gosto também se refletia na construção de túmulos e, posteriormente, nas ornamentações sobre eles.

Maria Elizia Borges (2002, p. 66) aduz que há que se considerar que a técnica de um artista-artesão incluiu procedimentos tanto mentais quanto operativos e que existe uma relação entre esses dois momentos.

A autora também explica que as peças tumulares não eram baseadas em determinadas regras artísticas, mas em modelos previamente criados. Normalmente a marmoraria que fazia a cópia colocava seu nome fantasia em evidência na peça. Marmorarias brasileiras importavam e vendiam esses túmulos, esculturas e adereços em peças separadas, através de catálogos, e os montavam nos cemitérios locais (BORGES, 2002).

Cita dois catálogos bastante consultados para a cópia de modelos:

1 Estatue in Marmo di Carrara

Continha um acervo de 2.311 ilustrações acompanhadas de citações italianas e em língua inglesa. Apresenta vinte tipos de anjos – crianças, jovens e adultos. A representação de diversas alegorias como ressureição, desolação e saudade. Expõe uma variedade imensa de santos e santas, interpretados cada um de duas a cinco vezes. Trazia réplicas da Pietá de Michelangelo, Cristo de Bertel Thorvaldsen e a Santa Ceia inspirada em Leonardo da Vinci. Trazia também estações da Via Crucis.

2 Estátuas de Marmol

Tratava-se de um catálogo incompleto com apenas 127 ilustrações, também com modelos variados de santos, santas, cruzes, anjos e também a Santa Ceia.

Borges aduz, ainda, que o primeiro catálogo seja somente a modelos de imagem e, o segundo, a exemplos de túmulos prontos, já existentes na Europa, considerados históricos. As propostas estilísticas de ambos vão desde a austeridade neoclássica até a sensualidade do art-nouveau tão em moda naquele início de século.

Como exemplo, temos a escultura em mármore de Carrara sobre o túmulo de Leonor Penteado no Cemitério da Saudade de Campinas (Figura 1), que guarda estreita semelhança estética e conceitual com uma obra do escultor italiano Giovanni Scanzi, de 1882, em mármore de Carrara, que compõe o túmulo de Ada Carrena (Figura 2), no Cimitero Monumentale di Staglieno, em Gênova.

A escultura de Giovanni Scanzi (1840-1915), reafirmo, data de 1882 (fig. 2) enquanto a obra sobre o túmulo de Leonor Penteado não apresenta assinatura nem data de confecção (fig. 1). Contudo, ela contém uma inscrição que revela a autoria de sua montagem: Giuseppe Tomagnini & Fratello – San Paolo. Trata-se, porém, de uma obra posterior, considerando-se que a data do falecimento de Leonor é 1 de fevereiro de 1896 e que, formalmente, a empresa estabeleceu-se com uma filial em São Paulo em 1898.

Pela análise de ambas as esculturas, é bem provável que a obra de autoria de Giovanni Scanzi foi modelo para a peça que se encontra no Cemitério da Saudade. Na inscrição presente no túmulo de Leonor Penteado, Giuseppe Tomagnini é creditado não como o escultor, mas somente como responsável pela montagem da obra, como marmorista.

A filial paulista da marmoraria Giuseppe Tomagnini & Fratello – San Paolo foi montada em um momento de grandes fluxos imigratórios, quando São Paulo recebia muitos operários, principalmente italianos, que na origem já exerciam aquele ofício.

Cláudia Muda Fay e Antonio de Ruggiero (2014, p. 86) descrevem que vale citar, a respeito, Roberto Tonetti, um primo dos irmãos Tomagnini, que dirigiu a grande filial no Brasil, mantendo o nome original da empresa toscana e utilizando uma grande quantidade de trabalhadores originários da Versília, chamados em função do profundo processo de renovação urbana ocorrida na capital paulista naqueles anos. Dentre outras coisas, a empresa foi escolhida pelo mais conhecido arquiteto da época, Ramos de Azevedo, para fornecimento do mármore que teria decorado os mais importantes edifícios da São Paulo moderna” (FAY; RUGGIERO, 2014, p. 86).

Esses profissionais, apesar da formação artística original, tinham contato com aquela arte ainda produzida na Europa e no Brasil, vendida através de catálogos.

A Liberia Italiana, de A. Tisi & Co., localizada na Rua Florêncio de Abreu, n. 4, em São Paulo, oferecia, entre outros periódicos, a publicação Edizione Artistiche per pittori, scultori, architetti, ecc. Modelli per tutte le arti e mestieri. Ricco assortimento di cartoline ilustrate. (Il Pasquino Coloniale,26/07/1919), conforme relata Cristiana Antunes Cavaterra (2015, p. 1160).

Ainda segundo os autores citados, no final do século XIX as marmorarias de São Paulo já estavam aptas e especializadas não só na importação, mas na montagem e até na confecção dessas peças que tinham como destino final as igrejas e os cemitérios.

A Tomagnini, citada pelos organizadores como Marmoraria Tomagnini, de Giuseppe Tomagnini, Fratello & Cia. (antiga J. Martinelli) localizava-se, no ano de 1903, na rua Florêncio de Abreu, n. 121-B; posteriormente se transfere para a rua Barão de Itapetininga, n. 40, onde possuía um salão de exposição permanente (showroom) e comercializava túmulos, estátuas, altares, ornamentações e esculturas, importados de Pietrasanta, conforme a propaganda abaixo (Figura 3).

propaganda-tomagnini-pq

Portanto se justifica tratar como pérolas as obras em mármore de Carrara que adornam os túmulos do Cemitério da Saudade de Campinas. Esses túmulos já são tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC), merecendo permanente atenção de toda a sociedade no que diz respeito à sua conservação, face à inegável importância histórica e cultural que representam.

Referências bibliográficas:

BORGES, Maria Elizia. Arte funerária no Brasil (1890-1930): ofício de marmoristas italianos em Ribeirão Preto. Belo Horizonte, MG: C/Arte, 2002.
CAVATERRA, Cristiana Antunes. “Imprensa e comércio de Arte Sacra na Belle Époque Paulista: das casas de paramentos, marmorarias e liceus à Casa Marino Del Favero”. In:  Anais Jornada de Pesquisa PPG IA UNESP: Edição Internacional. São Paulo, SP: Instituto de Artes, 2015.
FAY, Claudia Musa; RUGGIERO, Antonio. Imigrantes empreendedores na historia do Brasil: estudos de caso. Porto Alegre, RS: EdiPUCRS, 2014.
MOTTA, Antonio. “Estilos mortuários e modos de sociabilidade em cemitérios brasileiros oitocentistas”. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, RS, Ano 16, n. 33, p. 55-80, 2010.

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