Corrêa de Mello: Escola Popular, Desde 1881 Até os Dias Atuais

Corrêa de Mello: the Popular School, From 1881 To Present Days (Campinas, SP, Brazil).

Maria Eugênia Montes Castanho – professora de educação, pesquisadora. Titular da Cadeira 36 do IHGG Campinas.

 A educação no Brasil, após ter passado pela orientação dos jesuítas até sua expulsão em 1759, teve a instituição das Aulas Régias. Enquanto as mudanças não chegavam a cidades como Campinas, os primeiros professores foram padres e leigos que se ofereciam para aulas particulares. No século XIX, a produção cafeeira e a açucareira foram importantes fatores de crescimento da área urbana e da rural. Em 1850 nossa população era de aproximados 15 mil habitantes. Diante da posição de destaque tanto pela forte produção cafeeira quanto pelo elogiável cenário educacional, surgiu na cidade, entre outras, uma instituição para atender a população mais fragilizada em relação ao direito de ensino e de aprendizagem: a Escola Corrêa de Mello. O motivo de seu nome foi uma homenagem ao farmacêutico paulista Joaquim Corrêa de Mello.

Joaquim Corrêa de Mello

Campinas vivia o tempo do Império. Em 10 de abril de 1816 nascia em São Paulo Joaquim Corrêa de Mello, filho de pai português naturalizado brasileiro. Veio para Campinas com o padrinho (Francisco) Álvares Machado de Vasconcelos, passando a trabalhar em sua botica. Em 1934 foi para o Rio de Janeiro onde fez o curso de Farmácia. Voltando a Campinas, torna-se sócio da botica de Álvares Machado (SALLES, 1978).

Durante vinte anos fez valiosas experiências utilizando-se da flora brasileira e atendendo crianças gratuitamente, em especial as pobres. Tornou-se profundo conhecedor da flora de nosso país. A principal colaboradora era a filha Francisca (de Salles Mello). Teve seu nome ligado a várias descobertas e com suas pesquisas tornou a Botânica Brasileira conhecida em inúmeros países, principalmente na França e na Inglaterra. Hércules Florence em relato autobiográfico fala de Joaquim como homem instruído com quem soube da existência do nitrato de prata, ajudando também a elaborar o nome photographia (em grego photo, luz, e graphia, escrita).

O imperador brasileiro D. Pedro II descobriu Joaquim Corrêa de Mello deparando com foto na Linnean Society na Inglaterra e, surpreso, soube que se tratava de alguém da cidade de Campinas. Vindo a Campinas prestigiou-o e convidou-o a acompanhá-lo em sua visita. Monarquista, acabou sendo deputado mas não exercendo o cargo pela saúde delicada, falecendo aos 61 anos de idade, em 1877, na rua do Comércio, atual rua Dr Quirino.

A Escola Corrêa de Mello de 1881/1888 até 1962

A instituição em seu início, três anos após o falecimento de Joaquim Corrêa de Mello, esteve sob a responsabilidade da Sociedade Mantenedora da Escola Corrêa de Mello cujos estatutos regulavam todo seu andamento, como a contratação de professores, os período letivos, os programas e a organização das provas. Nesta escola, os exames finais eram públicos, sendo montada comissão para realizá-los, com convites a membros do poder público e a professores de outras escolas. O resultado era deliberado por votação secreta e os alunos recebiam premiações (inclusive em dinheiro) de acordo com o desempenho e a postura de cada um. No currículo constavam as disciplinas de língua portuguesa, aritmética e álgebra, com o uso de equações do primeiro grau, geografia geral e história do Brasil. Dependendo da disponibilidade orçamentária eram ensinadas disciplinas com noções gerais do direito público e higiene. (ANANIAS, 2000). Mantinha cursos diurnos para crianças carentes e noturnos para trabalhadores. A escola foi doada à Câmara em 1889, a ela incorporando-se definitivamente em 1894, tornando-se municipal. Vale lembrar que o poder executivo municipal competia, no Império, à Câmara, que também legislava. Com a República (1889) o executivo passou para o Intendente Municipal.

Inaugurada em 1881, funcionava em frente ao Mercado Municipal de Campinas, o Mercadão. As referências históricas dão conta apenas de seus inícios, quando a região era muito pouco habitada. Começou atendendo crianças pobres e era comum falar-se da escola a frase: Corrêa de Mello: aceita descalço e dá sopa. Com o passar das décadas do século XX e com a presença do Mercado Municipal a partir de 1907 a região alterou-se com intenso comércio de todo tipo: bares, restaurantes, lojas etc. Os comerciantes passaram a colocar seus filhos nessa escola. Os professores eram concursados e pertencentes a famílias conhecidas da sociedade campineira.

Destacamos que a reforma do ensino no estado de São Paulo instituiu a escola primária graduada, isto é, dividida em séries por idade e grau de adiantamento. Decreto estadual paulista de 1893 criou os grupos escolares. O certo é que documentos nomeiam a escola como Grupo Escolar Municipal Corrêa de Mello. Ao que tudo leva a crer o estabelecimento prosseguiu como Escola Municipal Corrêa de Mello e depois transformou-se em Grupo Escolar Municipal Corrêa de Mello.

Testemunha Ocular

Na década de 1950 a escola era muito valorizada por sua atuação na região. Fui aluna do então Grupo Escolar Municipal Corrêa de Melo do jardim de infância ao curso Primário de 4 anos (de 1953 a 1956). Ali tive a mesma professora durante os quatro anos do curso: a competente Tereza de Angelis, sendo João de Toledo o diretor. Ali aprendi a ler e escrever, aprendi as 4 operações e tantas outras coisas. Diariamente, em cada página do caderno, começávamos escrevendo obrigatoriamente Grupo Escolar Municipal Corrêa de Melo e em seguida nosso nome completo. Eu não imaginava o que ou quem era Corrêa de Mello. A escola funcionava num quarteirão todo gramado e cercado com rica vegetação, com um belo prédio no centro, projetado pelo importante arquiteto Ramos de Azevedo, com 4 classes para as 4 séries primárias. Havia no prédio, em sua lateral, um local onde assistíamos a filmes exibidos pelo conhecido profissional Henrique de Oliveira.

A entrada era pela Rua Bernardino de Campos, pois na Benjamin Constant, do lado de fora numa grande calçada ficavam banquinhas de venda de bugigangas e engraxates, não esquecendo os mascates e outros vendedores. Talvez ponto de taxi também. Havia parque infantil e ao lado dele uma parte agradável, coberta, que compreendia a cozinha, mesas e bancos compridos, onde eram servidos lanches saborosos inesquecíveis. Nessa construção, próxima ao parque, havia uma sala onde a professora lia histórias para nossa classe na sexta-feira, preparando-nos para o fim de semana. Nos gramados imensos, nos reuníamos no recreio e ficávamos conversando sobre nossos interesses e dúvidas na época. Só meninas. Saí do Corrêa de Mello com boa formação que me deu os fundamentos necessários para todos os estudos posteriores. Menos de 10 anos após minha saída o maravilhoso prédio, foco de tantas recordações e descobertas, desapareceu, sendo demolido sob protestos da população de Campinas.

A Escola Corrêa de Mello de sua demolição até 1975: o período nômade

Após uma série demorada de mudanças de local, a escola hoje funciona num espaço agradável e acolhedor em bairro distante, o Parque Universitário, com direção e orientação que buscam continuar a cumprir seu papel histórico de preservar a memória de Joaquim Corrêa de Mello, oferecendo ensino de qualidade e preparando o aluno para se tornar agente consciente, com capacidade de interagir e interferir nos rumos da sociedade. Esta informação histórica é desconhecida por muitos professores e estudiosos da área da educação.

Tendo sido demolida e funcionando em novo prédio no Parque Universitário a partir de 1976, a Escola Corrêa de Mello suscita uma indagação:  que lhe aconteceu entre 1963 e 1976?

Buscando esclarecer o que se passou nesse entretempo, ouvimos o sr. Estevan de Almeida Negreiros, ex-diretor de uma escola estadual que esteve imbricada com a sobrevivência precária do Corrêa de Mello. A entrevista com o sr. Negreiros deu-se em Campinas, onde reside, no dia 5 de julho de 2018. Disse ele ter sido diretor da Escola Geny Rodrigues num momento em que a Corrêa de Mello não teve propriamente uma sede fixa e sua diretora foi a professora Maria Tereza.

Pelo relato desse período pode-se observar o verdadeiro drama que deve ter sido a sobrevivência da Escola Corrêa de Mello, demolida em 1963 na Praça Corrêa de Mello e que apenas em 1º de fevereiro de 1976, na avenida 3 do Parque Universitário, foi inaugurada como Escola Municipal de 1º grau Corrêa de Mello.

A Escola Corrêa de Mello de 1976 aos dias de hoje

Estamos em 2019. O que surpreende e emociona é ver que a Escola, com sua história de criação em 1881 ainda no tempo do Império ganhando um prédio projetado por Ramos de Azevedo, funcionou no Largo Jurumbeval (posteriormente denominado Praça Corrêa de Mello) até 1963, quando foi demolida e há registros dizendo-a extinta! Escola que não se extinguiu, passando anos difíceis ocupando espaços na Avenida das Amoreiras até ser reinaugurada, precariamente, porém em espaço próprio e depois ganhando melhorias por parte dos que ali atuavam e atuam.  Hoje tem alto conceito na comunidade.

A Escola está há mais de 40 anos no Parque Universitário. Segundo a diretora atual, professora Rosana Toniato, é uma das maiores escolas, atualmente com 900 alunos, oferecendo um ensino de qualidade e preparando o aluno. Por ser municipal oferece ensino fundamental. Tem 13 salas por período (manhã, tarde) e seis salas à noite com oferta de Educação de Jovens e adultos, funcionando os ciclos I e II, III e IV (antigo primário e ginásio).

O atual professor da escola, Mário Eduardo Ferreira Lima, de História, fez um livreto emocionante de 30 páginas sobre o Corrêa de Mello. Ali ele afirma

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Corrêa de Mello cumpre seu papel histórico e fundamental de preservar a memória do ilustre botânico e da antiga Escola, no Largo Jurumbeval, atendendo toda a comunidade, oferecendo um ensino de qualidade e preparando o aluno para se tornar não só um cidadão, mas um agente consciente, produtor de conhecimento e com capacidade de interagir e interferir nos rumos da sociedade. (2018, p. 23).

Considerações finais

O objeto da pesquisa empreendida e aqui relatada não é completo. O que fica e se constitui como elemento valioso é verificar a existência histórica de preocupação com a qualidade da educação básica para as classes populares e a continuidade da escola até os dias atuais com raízes nos objetivos de quando foi criada.

Monteiro Salles (1978, p. 39) fala de coincidências na saga desta Escola: desde a primeira construção foi-lhe destinada a periferia da cidade. O Largo do Jurumberal era distante do centro. Depois foi a vez do prédio da avenida das Amoreiras, no longínquo bairro do Jardim São Bernardo. E, por fim, neste Parque Universitário a pouco mais de duas léguas do centro mas sempre para o Oeste – que é o Poente, o Ocaso …o Olvido!

Outra coincidência: foi dirigido em sua primeira fase por Luiz Cerqueira Monteiro, avô da última diretora do grupo quando ocupava o prédio do São Bernardo. No Parque Universitário teve como diretora Anita Mallouk antiga aluna de primeiras letras do velho, do autêntico, do genuíno Grupo Escolar Corrêa de Mello – aquele que foi derrubado. (idem, ibidem).

Resta a tradição do nome. O horrorizado historiador Celso Maria de Mello Pupo frente à ameaça da demolição que acabou acontecendo, em artigo de 1962 escreve: Tradição não é velharia, não é saudosismo nem é prosápia mas é cultura através das gerações. (Monteiro Salles, 1978, p. 39).

Acrescento que ao lado da tradição do nome, a Escola é um exemplo de trabalho por parte da gestão, de docentes, de estudantes e funcionários buscando a boa formação humana. Exemplo vivo de que a luta nesse sentido sempre vale a pena.

Referências bibliográficas:

ANANIAS, Mauricéia. As Escolas para o Povo em Campinas: 1860-1889: origens, ideário e contexto. Dissertação de mestrado. FE-UNICAMP, Campinas, SP, 2000.
CAMARGO, Munir Abboud Pompeo de. O Contrato e a Concepção: arquitetura escolar e grupo mandatário em Campinas: 1870-1889. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação da UNICAMP. Campinas, SP, 2018.
MONTEIRO SALLES, Francisco José. Joaquim Corrêa de Mello: sua vida e sua obra. Publicações da Academia Campinense de Letras n. 38, Campinas, Estado de São Paulo, 1978.

4 comentários

  1. tão espetacular a postagem quanto foi a mesa redonda sobre as escolas, na ultima sessão do IHGGCampinas ! Parabéns Maria Eugenia e a todos do IHGGCampinas

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  2. Morando na Fazenda Taubaté , na estrada velha para Indaiatuba , usava os ônibus da Bonavita e Capriolli que tinha o ponto final ao lado do “Mercadão” , naquele tempo com sete anos de idade já se viajava sozinho , e ingressando na escola em frente do ponto final , o então Grupo Escolar Municipal “Correa de Melo” , e lá fiz todo o fundamental , então chamado de “primário” , como era típico do estabelecimento uma só professora assumia a classe no primeiro ano e a acompanhava até o quarto ano , e assim de 1951 à 1954 foi Dna. Nair Godoy Gomes , então também Vice- Diretora do Prof. João Doliveira Toledo . Hoje , saudoso , sou grato pela rigorosa disciplina imposta por esses inesquecíveis educadores .

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  3. Querida amiga, Maria Eugênia. Lembro -me e muito do velho prédio ao lado do mercadão onde meus irmãos estudaram. Deixou saudade e as lembranças jamais apagar-se-ão. Parabéns por nos mostrar esse lado inesquecível da história educacional de Campinas.

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