Discurso em homenagem aos 123 anos da morte de Carlos Gomes, em seu memorial

Speech in honor of the 123 years the Carlos Gomes’s death, at his memorial.

Fernando Antônio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira 11 do IHGG Campinas.

Estamos fazendo tradição com mais esse respeitoso evento do Mês Carlos Gomes de 2019, em frente à ultima morada, o Memorial do mais significativo personagem local: Antônio Carlos Gomes, localizado na Praça Antonio Pompeu, Centro de Campinas.

Hoje, na qualidade de presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, tenho a honra e o prazer deste breve discurso. Optei por tratar da repercussão historiográfica da vida e obra do Maestro e não de sua biografia que, acredito, todos conhecem aos detalhes.

Sobre essa proposta devo declarar o meu apreço aos pesquisadores e aos especialistas que trabalham em centros de documentação e em museus de todo o Brasil, profissionais dedicados que estão entristecidos, desanimados nesse momento em que o senso comum propalado por alguns dirigentes, descompromissados com a educação como caminho seguro e certeiro para ultrapassarmos o nosso atraso socioeconômico, afirmam que: a sociedade não precisa de ciência, de pesquisa e de pesquisadores.

No prefácio do meu último livro, a minha tese de doutorado: Riqueza e mobilidade social na economia cafeeira, defendida na USP em 2015 e lançada no fim de julho pela parceria IHGG Campinas e Editora Pontes, o colega de ofício, professor Valter Martins, escreveu: Campinas não é uma capital de estado, mas é um dos municípios mais estudados na historiografia brasileira.

E ele justifica a assertiva dizendo que uma das razões desse interesse por Campinas é o seu espetacular enriquecimento desde a fase da cana-de-açúcar, passando pelo café até a industrialização. Verdade! A outra verdade diz respeito à riqueza das fontes de pesquisa, documentos escritos (particulares ou oficiais), fotografias, objetos, livros, revistas e jornais, onde nós pudemos pesquisar.

Apenas com acervos preservados, organizados e disponibilizados é possível analisarmos, compreendermos os fatos e escrevermos um livro, um livro que marque! Sem essas fontes não é possível para alguém estudar e escrever algo consistente, que perdure para a posteridade. Esse terá feito ficção!

Nesse sentido, eu estou aqui hoje para reafirmar a importância dos centros de documentação, bibliotecas e museus de Campinas. Muito do que se produz em suas dependências é feito com amor e com a dedicação de especialistas que sempre, sempre, dispõem de poucos recursos, e atuam com uma vontade de acertar que até parece vocacional. E muitas vezes o é!

Seja exaltado como modelo o nosso centenário Centro de Ciências, Letras e Artes, fundado em 1902 e dirigido bravamente pelo professor Alcides Ladislau Acosta e por seus antecessores. É o CCLA quem mantém o Museu Carlos Gomes, riquíssimo.

A PUC-Campinas e Unicamp também fazem seus movimentos em prol da história e da memória dessa cidade. Alunos e professores de seus departamentos e faculdades, com destaque para o Departamento de Música do Instituto de Artes da Unicamp, produzem inúmeras teses e dissertações sobre a vida e, especialmente, sobre a magnífica obra e o legado de Carlos Gomes.

A criação do Centro de Memória (CMU), em 1985, pelo homem dessa terra, o professor José Roberto do Amaral Lapa é o mais cristalino exemplo! Trata-se de um modelo de centro de documentação para universidades de todo o Brasil e até no exterior.

Nos 30 anos em que eu exerci o meu ofício de Historiador, com registro e contrato de Historiador (com H maiúsculo), eu presenciei a sociedade (pessoas e famílias) levando para o CMU os seus documentos, porque reconheceram naquele Centro o local onde seus patrimônios pessoais estarão preservados e serão objetos da pesquisa.

Também são vários os pesquisadores, os autores de livros que visitam arquivos pelo mundo afora e, ao final de suas pesquisas, entregam suas anotações, produto do trabalho individual, para o CMU. Sabem para quê? Para abreviarem os caminhos do próximo, do jovem futuro pesquisador em busca de informações.

Sobre Carlos Gomes, devo citar sempre, em agradecimento, o enorme acervo que o Saudoso Benedito Barbosa Pupo entregou ao CMU. Ele colecionou projetos, partituras, discos, cartas, jornais, livros do personagem que ele tanto admirava.

Inclusive dizíamos sobre essa linda cena de Carlos Gomes esculpido, em seu Monumento Túmulo: o Maestro está voltado ao público, após reger; há o pedestal e a partitura agora às suas costas. Imaginamos as palmas efusivas estalando ao seu redor. Agradecido e vestido do semblante sério, Carlos Gomes carrega na mão direita a batuta com a qual conduziu, mas o braço esquerdo estendido, como a ilustrar a presença dos músicos, na verdade parece pedir: menos Pupo, menos. Esse chiste era mais do que isso, era o nosso reconhecimento ao grande pesquisador.

Os acervos do CCLA e do CMU, assim como do Museu Scala de Milão, do Museu Imperial de Petrópolis e demais locais foram, certamente, fontes para inúmeros trabalhos e aqui vão algumas indicações:

1. O Brasileiro Carlos Gomes, de Assis Angelo, da Cia. Editora Nacional, de 1987.

2. Carlos Gomes, uma discografia, de Sérgio Alvim Corrêa, da Editora da Unicamp, de 1992.

3. Carlos Gomes: Do Sonho à Conquista, de Juvenal Fernandes, da IMESP, de 1994.

4. O Brilho da supernova: a morte bela de Carlos Gomes, de Geraldo Coelho, da Editora Agir, de 1995.

5. Antonio Carlos Gomes: correspondência italiana (em 3 volumes), de Gaspare Nello Vetro, publicados entre 1990 e 2002.

Mas vamos falar dos nossos autores também!

1. Comecemos pelo saudoso João Batista de Sá, conhecido como Jolumá Brito, jornalista, locutor das origens da rádio Educadora, que escreveu para a Coleção Saraiva, a mais popular do pais à época: Carlos Gomes, o Tonico de Campinas, foi publicado pela primeira vez em 1956.

2. Em Carlos Gomes, o Compositor, de José Penalva, da Editora Papirus, de 1986, o autor apresenta um panorama da vida e um estudo de evolução estética da obra do Maestro. Para isso, o padre Penalva reuniu textos ilustrativos, passagens do epistolário de Carlos Gomes, fotos e uma vasta discografia.

3. Maneco Músico. Pai e Mestre de Carlos Gomes, de Lenita Nogueira, lançado em novíssima edição pela Pontes neste ano. A autora explica a formação musical do pai ainda antes dos estudos que Carlos Gomes realizou no Rio de Janeiro, para depois ele galgar a fama nos palcos europeus. Trata-se de um livro fundado em fontes de arquivo e em ampla bibliografia.

4. A Revista: Boletim do Centro de Memória – Unicamp, publicada no centenário da morte de Carlos Gomes, em 1996, contou com artigos de Niza Tank, Lenita Nogueira, Amaral Lapa, Bráulio Nogueira, Maria Luiza Pinto de Moura e outros, sob a organização de Benedito Pupo.

5. Há os inúmeros artigos e matérias produzidos pelo musicólogo e linguista José Alexandre dos Santos Ribeiro. Há, também, o valorizado memorial que o nosso parceiro, Jorge Alves de Lima, produziu em quatro volumes… até aqui.

Então, como seria escrever sobre Carlos Gomes se não houvesse, do outro lado do balcão, pessoas obstinadas com a preservação de documentos, desses últimos fragmentos de nossa história. Como seria o conhecimento sem isso?

Eu, particularmente, me encantei ao reler recentemente o livro da Maria Luiza Pinto de Moura e de seu irmão Décio Silveira Pinto de Moura, saudosos, que eu recebi deles com uma mensagem de incentivo e carinho, autografada e assinada. As impressões que eles transmitem no livro Os Ballets na ópera de Carlos Gomes, da Cia. Aluminis, de 1998, com as ilustrações magníficas de Egas Francisco, nos faz sentir como presentes no teatro, aflorando as emoções mais sublimes que se tem ao assistirmos as óperas do nosso querido compositor, hoje aqui homenageado!

Nossa página da Internet <ihggcampinas.org> e as nossas redes sociais do facebook, instagram, linkedin e twitter também nos ajudam a tornar a nossa produção mais conhecida.

Finalizo reiterando a importância da pesquisa e das fontes preservadas, especialmente nesse momento em que se vê alguns dirigentes promovendo “Cruzadas” contra aqueles a quem se popularizou chamar de “intelectuais”, como se esse fosse um adjetivo pessoal pejorativo. Só em um Brasil dirigido por essas pessoas, mesmo!

Espero que este breve discurso tenha cumprido a missão de mostrar a vocês a importância da pesquisa, da preservação documental e, principalmente, das pessoas que se dedicam a produzir o conhecimento de qualidade.

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