Fosca (1873)

Fosca (1873). Carlos Gomes`s Opera.

Maria Luiza Silveira Pinto de Moura* – escritora, bibliotecária do CCLA. Patronesse da Cadeira Nº 37 do IHGG Campinas, e Décio Silveira Pinto de Moura* – escritor, psiquiatra. 

A ópera contém quatro atos e o libreto foi escrito por Antônio Ghislanzoni, baseado no romance La Festa delle Marie, do escritor Luigi Capranica. O romance ganhou popularidade na época porque os escritos de aventureiros despertavam interesse, especialmente sobre corsários. O assunto infundia temor e era também envolto por certo manto de mistério. Os raptos de personalidades eram inesperados e rápidos resolvendo-se somente à custa de considerável quantia de dinheiro para o resgate.

O libreto situa então, um reduto de piratas em uma baía da Ístria, de difícil acesso, em que na aldeia de Pirano estavam as rústicas habitações que os abrigavam. Em um dia do ano 944 voltavam os bandidos para guardarem o produto de seus assaltos e alegremente festejavam o bom êxito, salientando a figura de Gajolo, seu líder.

Cantavam vivas ao chefe e aos irmãos corsários, enquanto bebiam. Gajolo, com entusiasmo, anuncia aos companheiros que teve um gran pensiero. Previa para o prazo de dez dias novo golpe que seria um assalto para sequestro de mulheres venezianas que iriam à festa de San Pietro in Castello, para celebrarem o casamento de algumas delas. Gajolo, inclusive, usava metáforas para incentivar os companheiros ao novo golpe, com a audácia do vôo da águia e com a força dos leões.

Nesse momento chega Cambro, servidor vêneto a serviço de Gajolo, para anunciar que se avistará com Giotta em Veneza. Giotta é o pai de Paolo, jovem raptado pelos piratas e que estava recluso em Pirano. Cambro avisou que Giotta oferecia cem moedas de ouro como resgate, o que foi aceito por Gajolo porque a quantia era compensadora, comentando: Cento retondi! La somma à onesta.

É a ocasião em que chega Fosca, quem roga a seu pai Gajolo para que não devolva o prisioneiro por qualquer preço em ouro. Aconselha ao pai que recolha a quantia, mas mantenha Paolo com eles porque se declarava loucamente apaixonada pelo prisioneiro.

Gajolo ficou irritado com a notícia da paixão e também com o pedido da filha pois, entre os piratas há também um código de honra em que prevalece o jogo limpo, o cumprimento da palavra é costume. Se o prisioneiro não fosse entregue abriria precedente para o fracasso de espera futura de resgates.

Fosca insiste em querer Paolo e diz a Gajolo que Tu a me donasti quel prigioneiro, nè la mia preda mi puoi rapir. O rogo torna o diálogo romântico na ópera, especialmente pelo contraste entre a paixão da filha e a firmeza paterna, com interesse no dinheiro. Este ordena a Cambro severa vigilância sobre Fosca, sem saber, todavia, que Cambro a amava, conforme se ouve na ária D’amore le ebbrezze, le molli carezze, o donna non chiedi, non bramo da te.

Gajolo convoca os companheiros para que se lancem ao mar em busca do resgate e completa a recomendação a Cambro, acrescentando que fará tudo pela devolução de Paolo a Veneza.

Na ausência de Gajolo, Fosca dirige-se à gruta onde Paolo está preso e aparece com ele declarando seu amor, pedindo que não volte a Veneza. Paolo pensou inicialmente que estava seguindo para a morte e se lastima por saudade da terra natal e pela noiva que lá deixou. Fosca alega que Paolo está mentindo quanto à noiva. Implora por seu amor. Trata-se de belo dueto, interrompido pela chegada de Giotta com o resgate, quando Fosca reconduz Paolo à gruta revoltada por ser desprezada.

Eis que surge Cambro. O ruído da aproximação leva Fosca a perguntar – Quem é? e diante da resposta – um amigo, retruca a moça: Amico sei, se nunzio di vendetta. Ao ouvir a intenção de Fosca, fala-lhe Cambro em conseguir trazer para ela a rival de Veneza. Fosca aceita, com ameaça caso Cambro não cumpra a palavra, ao que ele retruca: Qual premio a me darai? Fosca promete que será sua esposa caso cumpra a palavra.

A vingança estava prometida mesmo porque Fosca, na partida de Paolo, com um punhal, tentou matá-lo e foi desarmada por seu pai.

O segundo ato se inicia com o encontro de Paolo e sua noiva Delia na casa desta, em que trocam juras de amor, ela sentada em um escaninho e ele sentado em uma almofada aos seus pés. No diálogo Delia pede a Paolo que nunca a abandone e se confessa preocupada com o amor que Fosca lhe dedica.

Lá fora, um mercador pede para ser recebido. Paolo permite-lhe entrada a contragosto de Delia, quem intui algo perigoso. Era Cambro, travestido e por isso não reconhecido por Paolo. Delia afirma que nada quer comprar. Paolo escolhe um colar e lhe oferece como presente de casamento, o que anuncia a Cambro que as núpcias estavam bem próximas. Cambro se despede, fixando bem a fisionomia da moça, e se retira para o encontro na igreja com os demais piratas. Os noivos se separam para os preparos do casamento, mesmo porque a cerimônia estava marcada para uma hora após.

Na segunda cena deste ato consta o cenário que apresenta a igreja de San Pietro in Castello, situada em uma pequena praça, ao fundo da qual passa um dos canais de Veneza. A igreja já estava bem adornada para a Festa das Marias, tradição em que se celebra o casamento conjunto de dez órfãs de famílias ricas ou razoavelmente abonadas.

Há afluência de povo e a massa popular permite que o chefe dos piratas, Gajolo, e seus companheiros, todos bem disfarçados para não serem reconhecidos, fiquem despercebidos circundando a igreja, mas dispersos. Também Fosca comparece, desce de uma gôndola e se encontra com o pai e com Cambro, como se disse ao início do enredo, preparados para o assalto. Ao ver Fosca, interrogado, Cambro confirma ter estado com Delia e Paolo. O pai se surpreende com a presença da filha, pois, ela não participaria do assalto planejado.

Ocorre o cortejo nupcial em ballet, relativo à tradicional Festa das Marias em Veneza. Os noivos estão à porta da igreja San Pietro in Castello aguardando a chegada das noivas que vêm no cortejo, o qual atravessa a ponte sobre um dos canais. Atras do cortejo, como parte dele, vêm os corsários que planejam o assalto. A coreografia inclui a manifestação popular jubilosa na festa tradicional. A música traz o contraste entre a devoção e o comportamento violento dos corsários, o que se expressa na placidez do canto do órgão e do coro da igreja, e do trio corsário agitado.

Ouve-se o som da marcha nupcial e os casais de nubentes dirigem-se para a igreja, atravessando a ponte. Fosca pôs-se à frente de Delia e de Paolo, mas já observada por Gajolo e Cambro, que estavam desconfiados de que Fosca pudesse cometer um ato que atrapalhasse o assalto criteriosamente planejado. Fosca, aliás, estava armada de punhal. Ambos intervieram, fazendo crer aos demais que ela era louca. Paolo a reconheceu, mas não foi ouvido dada a confusão que ocorreu, Apenas os que estavam muito próximos ouviram sem muito entender de que se tratava. Dominada Fosca, o cortejo entra na igreja e os corsários entraram atrás.

Em pouco tempo, dentro da igreja, a luta se estabelece com vários feridos em consequência. Mas Cambro consegue sequestrar Delia. Paolo também foi levado por outros piratas. Gajolo ficou preso pelos venezianos.

Delia foi desembarcada em uma das grutas, sem saber do destino de Paolo. É o início do terceiro ato. Logo aparece Fosca, comunicando a Delia que Paolo é seu prisioneiro. Trava-se diálogo entre as duas, em muito bonito dueto na ópera, e ambas foram caminhando para entrarem em paz. Fosca já estava acertando a devolução do casal prisioneiro, renunciando ao seu amor, comovida por ouvir de Delia que aceitaria qualquer sacrifício pela vida de Paolo, inclusive a escravidão aos bandidos. Todavia, Fosca estava já decida pela devolução do casal, em troca do pai que seria morto dentro de três dias. Os corsários também não estavam satisfeitos com a substituição de Gajolo por Cambro na chefia do bando. Havia alguma insubordinação.

É quando Cambro intervém juntamente a Fosca, reavivando-lhe o ciúme e consequente cólera. Como está visível, Cambro apressava a morte de Gajolo para torna-se chefe. Ao lado disso perderia a promessa de Fosca, quanto a ser sua mulher. Fosca acredita em Cambro e prefere a morte de Delia e de Paolo esquecendo-se a respeito do destino do pai. O dueto de Fosca e Cambro encerra o terceiro ato.

No início do quarto ato comunica-se, em reunião do conselho convocada pelo Doge de Veneza, a disposição partir comandando pessoalmente a frota que irá resgatar Delia e Paolo. Gajolo havia implorado por liberdade e os senadores concordaram com o Doge em ouvi-lo. Gajolo adentra a sala e promete restituir o casal ponderando, todavia, que temia pela vida de ambos porque na Ístria, possivelmente, já havia chegado a notícia da sua condenação e era provável que os corsários o pensavam morto.

Com a palavra empenhada, que como já dissemos era ponto de honra para piratas, foi concedido que viajasse e retornasse a Veneza com o casal. Não foi prometido a Gajolo que seria perdoado. Mas, é de crer que salvando duas vidas, o perdão estava implícito.

Enquanto Gajolo viajava para Pirano, Paolo e Delia eram conduzidos ao local do suplício, segundo o desejo de Fosca de vê-los mortos. Paolo ignorava o que era feito de Delia e, ao ser conduzido para a morte, interrogou Cambro quem informa que Delia já estava no céu. Aqui Paolo canta a ária Ah! se tu sei fra gli angeli. Mas para o local do suplício Fosca traz Delia e propõe que para salvar Paolo ela deverá tomar veneno. Nesse momento os dois se veem vivos. Delia aceita a proposta de Fosca. Mas chega Gajolo e suspende a execução, dando ordem para que coloquem os prisioneiros no navio veneziano. Os bandidos perguntam a Gajolo se Cambro deverá escoltar os prisioneiros e ouvem como resposta que Cambro está morto em razão de lhe ter desobedecido as ordens. Fosca pede perdão aos dois prisioneiros. Foi perdoada, mas ingere o veneno preparado. Gajolo estava de partida, vendo Fosca morrer, partiu com o juramento de vingança à morte da filha.

Referência Bibliográfica: 

MOURA, Maria Luiza S. Pinto de e MOURA, Décio Silveira Pinto de. Os ballets na ópera de Carlos Gomes. (s.d.). Ilustrações de Egas Francisco. Campinas : Cia. Aluminis. 62p. (pp. 17-22).

* In memoriam.

 

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