O Esporte Clube Mogiana e a Praça de Esportes Horácio Costa

The Esporte Clube Mogiana and the Horácio Costa Stadium.

Fernando Antônio Abrahão – historiador, pesquisador. Titular da Cadeira 11 e presidente do IHGG Campinas; e Gilberto Gatti – jornalista, pesquisador. Sócio Correspondente do IHGG Campinas em Brasília, DF.

Em 2013, os atuais pesquisadores do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas finalizaram o estudo da Praça de Esportes Horácio Antônio da Costa, conhecida popularmente como o Campo do Mogiana, na realidade, o complexo esportivo do extinto Esporte Clube Mogiana, associação esportiva formada por ferroviários da referida empresa.  Naquele momento, o pedido de tombamento foi subscrito por especialistas e pesquisadores do Centro de Memória – Unicamp (CMU) e foi protocolado na Prefeitura de Campinas com o número 12/10/49503 PG.

Os documentos que apoiaram o estudo e o pedido enviado ao Conselho de Defesa do Patrimônio Arquitetônico e Cultural de Campinas (CONDEPACC) fazem parte dos acervos oficiais do Arquivo Público Municipal de Campinas, do Arquivo e Biblioteca da Câmara Municipal de Campinas, do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas, do Museu da Imagem e do Som de Campinas, do Museu da Cidade de Campinas, dos Arquivos Históricos do Centro de Memória – Unicamp e dos arquivos pessoais dos autores. Este pequeno artigo está baseado justamente no referido estudo.

O Esporte Clube Mogiana foi fundado por ferroviários empregados da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, em 7 de junho de 1933. Ressalte-se que a empresa era a maior empregadora de Campinas e região. Naquele momento, a empresa cedeu 26 mil metros quadrados de terreno localizado no Complexo Ferroviário da Estação Guanabara. A título de ilustração, o Campo do Guarani Futebol Clube – localizado na rua Barão Geraldo de Rezende – ocupava cerca de 16 mil metros quadrados.

O projeto arquitetônico do Complexo Esportivo foi elaborado pelo engenheiro Olavo Soares Caiuby e o projeto executivo de engenharia coube ao então presidente do Clube, o engenheiro Edgar Ariani, eleito pela primeira vez em 15 de junho de 1934 e reeleito sucessivamente até abril de 1951. Ambos, arquiteto e engenheiro, guardavam laços de família: Edgar era casado com Izete Cauby Ariani, irmã de Olavo. Destaque-se que o projeto executivo não seguiu o anteprojeto arquitetônico. A concepção arquitetônica do estádio era arrojada.

1 – Portão de entrada / 2 – Praça de entrada e distribuição do público

3 – Cadeiras cativas, numeradas e arquibancada / 4 – Autoridades e convidados

A mais detalhada descrição do Complexo consta de matéria publicada em abril de 1940 pela revista Mogiana, editada pelos irmãos Pedroso:

Uma Área de 26 mil metros quadrados

As instalações do E.C. Mogyana estão feitas sobre uma área de 26 mil metros quadrados, contando com excellente campo de futebol, magnificamente gramado e com medidas máximas, excellente pista para provas de athletismo, inclusive tanques para saltos e campos para arremesso, quadras de bola ao cesto, obedecendo aos rigores das medidas internacionais. Volley-ball, ambas dotadas de accomodações para o público espectador, magnífico parque infantil.

Piscina e quadras para prática de tennis

Não ficou o plano do E.C. Mogyana enfeixado apenas na prática dos esportes mais vulgares. Também a natação teve para si voltada o carinho de Edgar Ariani que traçou os necessários planos para a construção da piscina. Várias quadras de tennis também serão construídas no espaço do terreno limitado entre o campo de bola ao cesto e a futura piscina.

Conforto para os jogadores

Um dos mais distinguidos propósitos de Edgar Ariani, no seu plano de construção do estádio do Mogyana foi precisamente o da obtenção de conforto para os jogadores do club. Além dos aposentos construídos no segundo plano da archibancada, que constam de três andares, obedecendo a todos os rigores do preceito hygienico, haverá refeitórios, enfermarias, sala de gynastica e salão de repouso. Também para os jogadores casados foram feitos elegantes e confortáveis apartamentos, sob a segunda galeria das archibancadas, permitindo-lhes fixar alli sua residencia com as famílias, isoladamente.

Vestiários magníficos

No primeiro plano da archibancada, no rez do chão, foram installados os vestiários para jogadores dos grêmios visitantes. Os jogadores, uma vez ingressando nos vestiários, ficarão isentos de contato com o público e mesmo com o quadro social, visto que alli só terão ingresso, alem dos futebolistas, os massagistas e treinadores. Também para os árbitros dos jogos foram feitos vestiários em uma sala independente, comunicando para o mesmo corredor que conduz a um sub-terraneo que dá accesso ao gramado.

Accomodações para delegações de clubes procedentes de a sede do club

Já se acha bastante adeantada a construção da séde do E. C. Mogyana, erguida sobre a entrada principal do estádio, de  local onde se divisa bellíssimo panorama da cidade. Vários salões para leitura, jogos, gymnasio, toilette e “fumoir” estão traçados, obedecendo a lindo plano de construcção. Há ainda um vasto salão para danças, permittindo que dentro em pouco seja a séde social um ponto de reunião da sociedade campineira, em seus dias de festa. 

Um estádio como a capital não tem

Emfim, o estádio do E.C. Mogyana está construído de forma a ser, depois do Pacaembú, o mais completo no gênero em nosso Estado. A própria capital não conta em belleza architectonica, e em conforto com estadio semelhante.

As archibancadas, erguidas em três lances, estão assim divididas: Primeiro lance – camarotes para dirigentes da Liga Campineira, da Liga de Futebol do Estado de São Paulo, dos clubes de Campinas, dos grêmios que visitem Campinas nos dias de jogos no estádio do Mogyana, cadeiras numeradas preferencialmente para sócios que tomarem assignaturas especiais permanentes. Segundo lance – archibancadas para associados do E. C. Mogyana e sócios dos grêmios visitantes. Terceiro lance – archibancadas para o publico em geral, coberta com bella marquise, lançada em plano magnífico, obedecendo a todos os requisitos da engenharia moderna.

Como se vê, o E. C. Mogyana, mercê do grande carinho e devotamento de seu presidente, o esportista EdgarAriani, cujo nome ficará, com esse grande melhoramento, gravado para sempre na história do esporte campineiro, contará dentro em pouco com o melhor estadio do Estado, exceptuando-se o do Pacaembú.

5 – Vista do campo de futebol e geral / 6 – Os prédios ao redor

6 – área poliesportiva (quadra de basquete, futsal e vôlei / 7 – balcão do bar para sócios

A pedra fundamental foi lançada em 23 de agosto de 1936. Quando de sua inauguração, em 15 de julho de 1940, a imprensa de Campinas e a da capital consideraram o Estádio do Esporte Clube Mogiana como o mais moderno do interior paulista, suplantado apenas pelo Estádio Municipal do Pacaembu, este de 27 de abril de 1940. A diferença fundamental entre as duas praças esportivas reside no fato de que o Estádio do Mogiana era privado, enquanto o Pacaembu um próprio da municipalidade paulistana.

O Campo do Mogiana foi o primeiro Estádio fora da capital a possuir refletores para jogos noturnos, antes mesmo do Guarani Futebol Clube e da Associação Atlética Ponte Preta. No sábado, 15 de junho de 1946, disputou com o Sport Club Corinthians Paulista a partida inaugural do sistema de iluminação artificial com 60 refletores, instalado pela General Eletric. As torres de 1946 permanecem instaladas até os nossos dias. Em 1947, O Mogiana disputou o Primeiro Campeonato Profissional do Interior de Futebol, terminando em segundo lugar na classificação final.

Horácio Antônio da Costa

Foi o grande benemérito do Esporte Clube Mogiana. Assegurou apoio material e financeiro durante seu período na Inspetoria Geral da Companhia. Foi o responsável pela cessão da área onde foi construída a praça poliesportiva. Como reconhecimento de seu trabalho em prol da instituição, o complexo recebeu o seu nome. Na entrada principal do estádio há um busto homenageando o benemérito. A peça foi executada pelo escultor Domingos Nucci na Oficina Artística de Otaviano Papais. Dele, O. Papais, também são as frisas, os balcões em granilite, as divisórias dos vestiários, os ladrilhos hidráulicos, os balcões, as pias dos banheiros dos setores sociais e os elementos vazados das tribunas, das sociais e das arquibancadas. Tudo em estado razoável de conservação, carecendo principalmente de limpeza. Afinal, são passados longos 79 anos.

O legado deixado pelos times de futebol de associações de operários e de trabalhadores industriais, como é o caso do Esporte Clube Mogiana, o Tricolor da Estrada, reside no fato de terem possibilitado o acesso de setores populares da sociedade à prática do futebol e com isso contribuído para a sua popularização, tornando-o o principal esporte no Brasil.

Nesse momento, o pedido de tombamento cujo processo leva o número 02/2013 encontra-se sem a definitiva deliberação do CONDEPACC. Pasmem: dentre os argumentos contrários ao tombamento cita-se o teor da Ata da reunião de julho de 2016, onde um conselheiro diz: “… do ponto de vista paisagístico (o Campo do Mogiana) é feio…”, ou ainda, por outro conselheiro: “… que (o Campo do Mogiana) é obsoleto enquanto construção…”. Não é a nossa opinião. Mas os interesses contrários à preservação, obviamente, vão além da estética e do suposto arcaísmo.

 

5 comentários

  1. Muito instrutivo, o texto esclarece inúmeros pontos que reforçam nosso parecer em favor da preservação e tombamento do E. C. Mogiana. É absolutamente transparente a defesa de tal patrimônio por todos os amantes da cultura e da história. É mesmo chocante a postura contrária que usa a palavra feiúra como argumento! Nos países que preservam sua história não cabe esse adjetivo!

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  2. Lembro-me quando criança na década de 50 da memorável partida de futebol entre o Mogiana de Casa Branca versus o Mogiana de Campinas. Dois jogadores do Mogiana que depois se tornaram profissionais foram o Maritaca que atuou por vários anos na Ferroviária de Araraquara. Outro, o Lance também de Casa Branca foi centroavante do Corinthians chegando inclusive a ser convocado para a seleção brasileira.
    Criticar a concepção arquitetônica do Estádio da Mogiana de Campinas é um absurdo. Acrescento que a vista para o campo da arquibancada do estádio a visão é perfeita. A construção é muito bem feita também vale ressaltar.

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  3. Há dois equívocos no texto: 1 – O terreno original do “Estádio Guarany FC” na rua Barão Geraldo de Rezende tinha 22.053 m². Nos anos 40 o clube vendeu uma parte e restaram pouco mais de 19.000m²; 2 – Em 1947, o EC Mogiana participou do Campeonato Profissional do Interior e terminou na 8ª colocação (à frente do Guarani, que foi o 9º).

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  4. De qualquer forma sugiro ao`Presidente ou quem suas vezes fizer que escreva um artigo e o publique nos Jornais de Campinas e região, bem como de ciência à imprensa se aproveitando do conhecimento e posicionamento do confrade saviany DA IMPORTÂNCIA DESSE PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE CAMPINAS… Ruyrillo Pedro de Magalhães

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