Os Italianos e o Comércio Ambulante em Campinas (1910-1950)

Italians and the Street Commerce in Campinas, SP, Brazil (1910-1950).

Duílio Battistoni Filho – historiador, professor da PUC-Campinas. Titular da Cadeira Nº 6 do IHGG Campinas.

Os italianos, principal corrente imigratória no Brasil, chegaram em 1880 a Campinas e se concentraram nos distritos de Sousas e Joaquim Egydio, então povoados por escravos negros que trabalharam nas fazendas de café. Com a libertação destes, vão substitui-los na lavoura e, com muito esforço, alguns deles já haviam acumulado capital suficiente para se tornarem pequenos proprietários e comerciantes de subsistência. Em 1882, pouco mais de dois mil italianos viviam em Campinas e região, mas, em 1886, já eram o dobro e, em 1907, perfaziam um total de indivíduos que tornava Campinas a cidade do interior paulista com maior número de imigrantes.

Os italianos sempre estiveram presentes na vida produtiva e cultural da cidade. Alguns artesãos, como eram conhecidos na Itália, aqui se estabeleceram: alfaiates, pedreiros, músicos, escultores, sapateiros, carroceiros, barbeiros etc. Hoje, os investimentos italianos na indústria de alimentação, de construção civil, de máquinas, de automóveis, de cimento, para dar alguns exemplos, são importantes na vida econômica do país.

Neste pequeno artigo, vamos analisar o papel do ambulante italiano em determinada época da vida campineira. Antes de mais nada, deve-se considerar que nas primeiras décadas do século passado, bairros inteiros foram criados com forte contingente populacional italiano, como a Vila Industrial, habitada na sua grande maioria por operários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro; os bairros do Bonfim e Guanabara, redutos de indústrias que estavam nascendo, e a Ponte Preta que seguia a linha do bonde. A área urbana foi esquadrinhada pelo poder público com forte presença dos cortiços e uma outra espécie de cercas invisíveis que dividiam  os diversos segmentos da população, cada um cioso do seu território. Foram estabelecidas áreas para o comércio, principalmente no varejo, onde a presença italiana foi marcante, destacando-se o carcamano, o comerciante que rouba no peso.

No mercado de subempregos e atividades marginais, os italianos eram quase a maioria, e não podemos deixar de citar sua importância no mercado industrial. Existia uma divisão regional de ocupações: entre os ambulantes, engraxates, carregadores, cocheiros e pequenos comerciantes de verduras predominavam os calabreses, enquanto que no norte, principalmente os toscanos, como artesãos. O importante é que a cultura italiana impregnou Campinas como nos hábitos alimentares. A pizza e a salsicha passam a integrar a dieta campineira.

Com relação ao trabalho ambulante, cumpriram uma importante função: a de abastecer a cidade longe do comércio tradicional. A distância da zona rural e a impossibilidade de se autoabastecer criaram uma brecha para eles no varejo e que passaram a sobreviver da venda de porta em porta. A verdade é que eles, muitas vezes, eram cercados pelos grandes comerciantes e do poder público com o pretexto de serem desordeiros e agitadores. Por isso, eram fortemente taxados e fiscalizados.

Nas Leis e Atos da Câmara Municipal nos anos vinte da centúria anterior, há um artigo do Orçamento Municipal especialmente dirigido a essa taxação. A tabela de impostos ambulantes traz uma imensa lista de artigos vendidos e que seriam cobrados dos vendedores. Depois de alguns anos, essa tabela não teve mais efeito. O poder municipal procurava controlar quem podia transitar pelo meio urbano e determinar o que podia ser vendido e que não existisse no comércio tradicional. Assim, não podiam vender, por exemplo, armarinhos, joias, fumo e fósforos.

Os ambulantes circulavam com gêneros de vários tipos: verduras, queijo, carne, batatas e guloseimas – acondicionados em grandes embalagens – e o leite que era deixado em frente às casas, em latões. Um funcionário da Câmara era encarregado de fazer cumprir o regulamento, fiscalizando a qualidade dos produtos à venda, a limpeza de ruas e calçadas, o controle de pesos e medidas com balança; quanto aos preços prevalecia a livre concorrência.

Outro aspecto era impor um teto mínimo de 15 anos para o rapaz ser vendedor, mas é pouco provável que isso fosse respeitado, pois a situação de pobreza do trabalhador, nessa época, impedia o seu ingresso no mercado de trabalho. Garantindo o abastecimento de vários produtos para uma cidade sem estrutura, dado ao aumento populacional que enfrentava, esses ambulantes criaram relações estreitas com seus compradores, formando uma freguesia que lhes garante uma certa estabilidade de rendimentos. A presença feminina não é notada. Tal fato estava ligado à discriminação da mulher na sociedade. Sua função era ser mãe, cuidar da economia doméstica e zelar pelo bem estar de todos. Não podia utilizar e nem receber dinheiro, tarefa reservada aos homens.

A presença desses ambulantes está contida na memória da cidade, como figuras do cotidiano da rua e fazem parte da paisagem da cidade. Extremamente alegres e comunicativos, sempre cantando e contando histórias procuravam ganhar o pão de cada dia. Dona Dalila, minha mãe, moradora do Bonfim, lembrava-se do seu Nicola, vendedor de batatas, que trazia um baú a tiracolo, forrado com um lençol muito branco. Todos os moradores da Rua Germânia o conheciam e ele era muito benquisto. Nossa empregada, Alcina, saía pouco de casa, mas sabia de tudo o que acontecia. Tinha amizade com muitos vendedores.

Nos dias atuais, verificam-se tentativas por parte das autoridades de proibir e dificultar o comércio ambulante das áreas centrais, devido ao desenvolvimento urbanístico da cidade e o aparecimento de supermercados, lojas de shoppings e casas especializadas em diversos ramos. Assim, a antiga figura do ambulante praticamente desapareceu.

Fontes e referências bibliográficas:

BALDIN, Romilda A. Cazissi. (2013). Campinas italiana: as obras e as conquistas dos primeiros imigrantes italianos. Campinas, SP: Komedi.
CENNI, Ângelo. Italianos no Brasil. (2003). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulos, 3ª edição.
DEPOIMENTO de Dalila Assumpção Leite Battistoni.
LAPA, José Roberto do Amaral. (1996). A Cidade: os Cantos e Antros: Campinas 1850-1950. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Foto do arquivo pessoal de Romilda Baldin.

5 comentários

  1. Texto interessante ,informativo e de leitura atraente.A fotografia ilustra a época compre cisão.Parabens professor , por mais essa contribuição .

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  2. assunto sempre interessante.Campinas tem muitos descendentes de italianos…Parabéns pela postagem e Parabéns prof. Duílio Battistoni

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  3. Duílio: gostei muito de seu texto sobre nossos antepassados italianos. Muito bonito colocar depoimento de sua mãe. Meus avós vieram no norte da Itália (Rovigo e Bréscia) no período que você analisa. Minha avó era parteira excelente (nunca perdeu um bebê), fez o parto em que nasci. Ambos os avós produziam muito coisa e lembro-me que vendiam ovos das galinhas que criavam. O pomar é inesquecível: pitangas, uvas, mangas, laranjas de todo tipo, verduras…Depois de muitos anos na roça, mudaram para o Bonfim, numa casa da qual tenho tantas recordações…

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