A Transformação Urbana de Campinas Vista em Antigos Cartões Postais

The Campinas (SP, Brazil) Urban Transformation Observed in Old Postcards.

Luís Eduardo Salvucci Rodrigues – psicanalista, escritor. Sócio Correspondente do IHGG Campinas em São Paulo, SP.

Em 2014 eu decidi formar uma coleção de antigos cartões postais de Campinas. O impulso que antes era a admiração por uma arte quase esquecida logo se transformou com o aumento do acervo. Surgiu a necessidade de classificar os cartões postais segundo critérios objetivos, isto é, de acordo com a Casa editora, o nome do fotógrafo (que equivale a tratar de sua origem ou proveniência), a série a que ele pertence, a data da edição e o número de unidades que compõe cada série. Essa classificação tornou-se um estudo pessoal e, como resultado desse empenho foi-me possível visualizar, entre tantos detalhes, a transformação urbana pela qual passou Campinas, durante um considerável período de sua história.

Apresento, neste breve artigo, um resultado parcial do que foi apurado até o momento sobre as séries de cartões postais de Campinas, editadas no período de 1900 a 1960 e algumas imagens de sua transformação urbana.

1 – Casa Genoud. Os primeiros postais de Campinas.

Os primeiros cartões postais ilustrados foram produzidos no Brasil em 1898 pelo Estabelecimento Graphico V. Steidel & Cia, de São Paulo[1]. Traziam a inscrição impressa modelo: Lembranças de… e o nome e litogravuras coloridas da cidade. Campinas fez parte da série inicial editada por V. Steidel.

Um dos primeiros cartões ilustrados da presente coleção traz três edifícios conectados pela Rua Treze de Maio: a Estação da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, o Teatro São Carlos e a Catedral de Nossa Senhora da Conceição[2], o trajeto de quem vinha à cidade pelo trem.

GrüssAus1898

Em 1901 a Casa Genoud, fundada pelos franceses Alfred e Pierre Genoud, lançou a primeira série de cartões fotográficos da cidade. Da mesma forma que todos os cartões editados na época, a fotografia toma apenas a parte frontal esquerda, sendo o espaço lateral reservado à mensagem. No verso, só o endereço[3]. Não foi possível quantificar o total de postais que compõe essa série e, infelizmente, esse desconhecimento se extende a todas as séries dos vários editores que publicaram postais sobre Campinas. Mesmo as séries numeradas não indicam o total de postais que a mesma contém. Além disso, há postais diferentes com o mesmo número, inserções de letras na numeração e outros problemas de difícil solução.

Genoud1901a (2)
Genoud1901b

Três anos depois, nova série de postais, possivelmente composta por 30 cartões[4]. Um dos cartões, o do Matadouro Municipal, compõe um par com o cartão da boiada nos arrabaldes do Guanabara sendo conduzida para o abate, um dos raros cartões da periferia da cidade. Além destes, quatro cartões da Rua Barão de Jaguara, quatro de praças e jardins, quatro de estações, três de igrejas, três de escolas, três de hospitais, o Teatro, Cadeia Nova e dois outros.

Genoud 1904aaaGenoud 1904q

Em 1909 uma nova série foi lançada. A valorização da perspectiva na composição das fotos dos postais é a marca diferencial dessa edição, com tomadas com a câmera baixa (contra-plongée) que exaltam a monumentalidade das realizações de Campinas.

Genoud 1909lGenoud 1909e

2 – Casa Mascotte e Casa Livro Azul. Novas edições de postais de Campinas.

Em 1910 a Casa Mascotte, de propriedade de José Ladeira, lança sua série de postais de Campinas[5]. Com belas fotos e cartões impressos com muita qualidade, nessa série a fotografia já ocupa toda frente do postal.

Casa Mascotte-1910(1)Casa Mascotte-1910(14)

Quanto aos edifícios e locais retratados, não há muitas diferenças em relação às séries editadas pela Casa Genoud.

Quase não há registro da série da década de 1910 da Casa Livro Azul, esta de propriedade de A. B. de Castro Mendes, exceto três belíssimos postais colorizados, de 1916, das praças Bento Quirino, Antonio Pompeo e Visconde de Indayatuba[6]. Qualquer um destes postais merece ser capa de um livro sobre postais de Campinas do início do século XX.

LivroAzulColor1916aLivroAzulColor1916b

Chama-nos a atenção nas séries das casas editoras campineiras mencionadas até aqui, a ausência de postais com imagens de fazendas, plantações de café e da zona rural, haja vista esses pontos serem considerados, geralmente, como de origem da riqueza da cidade.

3 – Outros editores de postais de Campinas

Entre os editores não estabelecidos na cidade, mas que publicaram sobre Campinas no início do século, destaque para os fotógrafos Pierre Doumet, Guilherme Gaensly e Ferrucio Manzieri, todos com estúdio em São Paulo. Doumet e Gaensly fotografaram a região na mesma época, por volta de 1904. Gaensly produziu uma série sobre o interior agrícola para ser enviada pelo governo do Estado de São Paulo para a Exposição Mundial de Saint Louis, Estados Unidos da América, em 1904[7]. Ferruccio Manzieri produziu belíssimos cartões sobre Campinas por volta de 1910.

P. Doumet 1904F.Manzieri1920

4 – Um hiato nas séries: as décadas de 1920 e 30.

Há poucas novidades nas décadas de 1920 e 30. São reedições colorizadas ou acréscimos de cartões que apresentam edifícios ausentes nas séries anteriores, como a Usina de Geração de Energia de Salto Grande, o Reservatório de Água da Avenida da Saudade e o Clube Campineiro de Regatas e Natação, às margens do Rio Atibaia.

A exceção a essa repetição é uma bela série colorizada da casa Livro Azul lançada em 1930.

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5 – Década de 1940 – A cidade ganha novos ares e novas séries de postais.

É apenas perto do final da década de 1940 que surgem novas séries de cartões postais de Campinas. Vários editores apresentam uma nova cidade no entorno dos monumentos, praças e edifícios emblemáticos. Essa transformação está mais bem representada pela série de mais de 150 cartões da Casa Livro Azul.

Quando se examina os postais dessa série na ordem cronológica, como vimos fazendo aqui, o crescimento populacional ocasionado pela instalação de indústrias de porte na cidade[8], a expansão da área urbana, a qualidade de vida oferecida e o aumento do número de veículos trafegando pela cidade ficam evidentes.

Os cartões apresentam uma Campinas transformada, uma cidade vibrante e bonita, com avenidas e ruas largas, belos jardins e áreas de lazer (como o Bosque dos Jequitibás) contando com um bom sistema de transporte. Estas imagens ilustram bem o resultado da implantação do Plano de Melhoramentos Urbanos de 1938[9], baseado no Plano Prestes Maia de 1934.

Em alguns cartões circulados dessa série podemos ler, em mensagens no verso, elogios à cidade. Por exemplo: Verinha. Aqui vae uma fotografia de Campinas, para você ver como é grande e bonita a cidade. Beijos da titia Ada. Campinas, 26/01/1951.[10].

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6 – Décadas de 1950 e 60. A verticalização e expansão urbana.

A partir de 1950 as fotografias aéreas dão o tom das séries produzidas sobre Campinas. Foto Postal Colombo, Gilberto de Biasi e João Balan são os principais representantes desta geração.

Campinas vista do alto registra melhor a transformação pela qual passava a cidade no início da década de 50. Houve aumento expressivo no número de lançamentos de prédios na área central com mudança do gabarito de altura[11]. O Plano de Melhoramentos Urbanos entra em sua fase final, com a demolição de quadras inteiras no centro para o alargamento das vias e implantação de infraestrutura nos novos bairros.

Além das tomadas aéreas, há muitos cartões que registram as avenidas centrais com tapumes de edifícios em construção e recém-inaugurados.

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Concluindo, pelas edições de cartões postais de Campinas podemos constatar as transformações da cidade em apenas 60 anos. A partir de 1900, nos 30 anos seguintes houve poucas mudanças na parte central da cidade e em seus arrabaldes, apenas a construção de novos edifícios públicos e particulares, muitos de autoria do renomado engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo, mas que não alteraram seu aspecto provinciano.

A partir dos anos 1940, acompanhando o crescimento urbano planejado, vemos as casas coloniais e sobrados cederem espaço para os edifícios. Surgem novos bairros, registrados nas panorâmicas tiradas a partir da torre da Catedral. Ruas e avenidas ficaram largas e se encheram de carros e gente.

No início dos anos 1950, uma explosão de crescimento. A área urbana da cidade triplicou[12], os edifícios construídos no centro são cada vez mais altos. Agora, só as fotos aéreas são capazes de captar esse crescimento. Novos bairros surgiram, construíram-se estádios e clubes de lazer e as praças e jardins ficaram mais belos. Crescimento planejado, aprendemos lendo a análise histórica de urbanistas, baseado no Plano de Melhoramentos Urbanos segundo concepção do projeto de Prestes Maia, de 1934. A casa editora que melhor representou essa fase foi a Foto Postal Colombo, a mesma que registrou a construção de Brasília.

Notas e referências bibliográficas:

1 DALTOZO, J. C. (2006). Cartão-Postal, Arte e Magia. Presidente Prudente, SP: Ed. do autor / Gráfica Cipola.
2 Coleção do autor. Cartão de V. Steidel, circulado em 1898.
3 Coleção do autor. Só a partir de 1906 a mensagem e o endereço passam a dividir o espaço do verso do postal.
4 A coleção do autor tem 27 cartões desta série. Data estimada pelo envio dos cartões circulados.
5 O autor possui 24 cartões desta série.
6 Em RIBEIRO, Suzana Barretto. (2006). Percursos do Olhar: Campinas no início do século XX. São Paulo: Annablume; FAPESP, há uma lista de cartões com menos unidades autorais do que temos no acervo.
7 Correio Paulistano. Ed. 14546, 1904. http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=090972_06&pagfis=4100. Acessado em 23 de junho de 2019.
8 Em BADARÓ, R. S. C. (1996). Campinas: o despontar da modernidade. Coleção Campiniana, vol. 7. CMU. Unicamp, há tabelas com o crescimento da população urbana e o aumento do número de loteamentos aprovados pela Prefeitura a partir de 1940, que se intensifica a partir de 1952.
9 BADARÓ, R. S. C. (1996), p. 89.
10 No verso de uma fotografia aérea do centro. Coleção do autor.
11 CARPINTERO, A. C. C. (1996). Momento de ruptura: as transformações no centro de Campinas na década dos cinquenta. CMU/UNICAMP.
12 BADARÓ, R. S. C. (1996). Op. Cit.

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