Vladimir Putin e Donald Trump

Vladimir Putin and Donald Trump.

Geraldo Affonso Muzzi – embaixador aposentado, escritor. Titular da Cadeira Nº 4 do IHGG Campinas.

Os chefes de estado da Rússia e dos Estados Unidos da América têm seus enigmas e segredos e esses artifícios os ajudam a preservarem suas seguranças. Nos últimos meses da campanha eleitoral à presidência dos Estados Unidos, em 2016, Donald Trump declarou que somente ele e seu contador sabem quanto é a sua fortuna real, dizendo que seria surpresa se o valor fosse divulgado. Sabe-se que ele chegou a perder quase tudo e a recuperar-se. Aparentemente não se interessa por política, história, cultura ou arte, mas centraliza a sua atenção em aparecer e falar na televisão e, quando fala, todos prestam atenção. Parece sincero, brincalhão, procurando sempre conquistar o povo pela simpatia, mas sofre de rejeição pelas elites e os intelectuais.

Paradoxalmente, tornou-se o bilionário do povo e, ao vencer Hillary Clinton, derrotou a mídia, os professores e os especialistas em política. Na última semana antes das eleições, no início de novembro de 2016, o percentual estimado de votos populares atribuído a Hillary era de 47 contra 42% para Trump, mas sentia-se que ele falava a linguagem do povo e da vida em família nos Estados Unidos, onde sua vitória não foi tão surpreendente.

O segredo sobre sua fortuna foi uma das chaves para a sua vitória. Outro argumento foi a forma discreta com que a imprensa se referiu às suas três esposas, duas ex obviamente. Seus filhos só apareceram em público depois da vitória e sua atual esposa, eslovena, aparecia discretamente, sempre um pouco atrás dele, e ela falou pouco na campanha. Os detalhes pessoais nas campanhas presidenciais nos Estados Unidos têm importância secundária, mas apenas quando não há informação abertamente negativa sobre a vida familiar do candidato, como foi o caso de Trump.

Para a mentalidade americana venceu o self made man, o Super Homem que cresceu na vida com esforço próprio e se tornou rico trabalhando sem interrupção. Trump é o típico norte-americano vitorioso, que não joga com as palavras e diz o que acredita, mesmo quando rejeitado por suas frases e bordões machistas, racistas, ou por ser declaradamente contrário aos imigrantes em busca de melhores condições de vida e o islamismo.

Assim ele venceu as eleições de 2016, fazendo lembrar a vitória do também republicano Ronald Reagan, em 1980, reeleito em 1984. Naquela época, Reagan era mais conhecido como ator de cinema, tido como despreparado para o cargo político postulado e vencido. Mas Reagan administrou de forma diferente do seu discurso eleitoral e acabou sendo figura central no processo de decadência e do fim do comunismo na União Soviética, graças à Perestroikae Glasnost de Mikhail Gorbachov.

Por coincidência, a chamada Guerra Fria, finalizada teoricamente em 1991, ressuscitou na guerra civil da Síria, iniciada em 2010. Porém, esse temor antigo parece ter sido sepultado, já no segundo semestre de 2016, pela amizade que se estabeleceu entre Vladimir Putin e Donald Trump, este último um personagem querido na Rússia, como atestavam os canais de televisão CNN e BBC. Na madrugada da vitória de Trump, Putin comunicou-se diretamente com ele e, ao felicitá-lo, renovou a esperança de que as relações diplomáticas entre Washington e Moscou voltassem a um nível elevado e favorável a ambos os países.

Pouco é informado sobre detalhes da vida pessoal de Vladimir Putin, nascido em 1952 e que tem dominado o poder na Rússia em toda a parte inicial deste novo milênio. Depois de Josef Stalin é o chefe de estado de mais longa duração em Moscou. No ocidente tem sido criticado pelo estilo fechado e impositivo, várias vezes acusado de ditatorial e stalinista. O maior indício de sua afeição ao stalinismo foi o retorno do belo hino russo, suspenso em 1990 e revivido dez anos depois, inclusive suas cabalísticas palavras.

Quando eu servi na embaixada do Brasil em Moscou, entre 1974 e 1976, Vladimir Putin iniciara o trabalho como agente secreto da KGB Komitet Gassudarstvenoye Besapasnost, o comitê de segurança do estado, e lá serviu entre 1975 e 1995. Apesar da sigla ter sido mudada de KGB para FSB, o sistema de segurança russo sempre foi rigoroso e o próprio Putin admite que: o que foi continua a ser. No final de 2016, logo após a vitória de Trump na América do Norte, foi anunciada por Putin a criação de um super ministério da inteligência na Rússia, o MGB Ministerstvo Gassudarstvenoye Besapasnost, o ministério da segurança do estado.

A vida particular de Vladimir Putin continua sendo quase um segredo de estado: sabe-se que ele tem duas filhas na casa dos trinta/quarenta anos, uma delas dançarina de rock and roll acrobático. Suas fotos já foram publicadas, mas elas não usam o sobrenome patronímico do pai. Uma raríssima foto de Putin andando a cavalo e sem camisa na Sibéria foi divulgada. Sua admiração por Trump se tornou notória e os elogios foram recíprocos. Na semana anterior às eleições americanas, foi divulgado pela CNN na televisão, um evento gastronômico em Moscou (possivelmente financiado por Trump) em que milhares de pessoas aparecem comendo hambúrgueres e hot dogs diante de pôsteres com o nome e a foto de Trump, considerado pelos russos como um novo Superman americano.

Essa ingênua admiração popular por um herói que venceu com seus próprios recursos mostra algo em comum da mentalidade do povo americano com a do povo russo. Aliados que foram na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha nazista, os russos e os americanos nunca foram, na realidade, inimigos. Aliás, essa união também pode ser explicada pelo notável crescimento da economia chinesa, mas este tema pede um novo artigo, certamente.

Na Rússia, a imagem de Stalin vai sendo recuperada, inclusive após a conquista da Crimeia, que os russos tomaram à Ucrânia alguns anos atrás. Permanece o trágico problema da Síria em que a intervenção russa tem sido censurada, mas o conflito agravado pelo estado islâmico e a tragédia de Alepo pode estar terminando. A diplomacia internacional muito tem a ganhar com a aliança Putin-Trump.

Depois da posição ambígua do nosso governo, nos dias que antecederam e os que sucederam as eleições de novembro de 2016 na América, o Itamaraty e a diplomacia brasileira, já com Temer e agora com Jair Bolsonaro, declararam a posição brasileira de apoio ao governo Trump.

Referência bibliográfica:

MUZZI, Geraldo Affonso. (2017). Trilha Diplomática, trilogia internacional. Campinas: Pontes. 760p.

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