O Comandante Fidel Castro (1926-2016)

Fidel Castro Commandant (1926-2016).

Geraldo Affonso Muzzi – embaixador, escritor. Titular da Cadeira Nº 4 do IHGG Campinas.

No dia 25 de novembro de 2016, numa noite de sexta-feira, faleceu em Havana o comandante supremo de Cuba, Fidel Castro, após 90 anos bem vividos. Nos seus últimos dez anos, com a saúde seriamente afetada, Fidel transferiu o poder a seu irmão Raúl Castro, provisoriamente por dois anos e, desde 2008, até 2018, Raúl manteve-se como Presidente da República. Nesse mesmo período, Fidel continuou escrevendo artigos, recebendo chefes de estado e influenciando a opinião pública na sua ininterrupta campanha contra os Estados Unidos da América.

Na celebração do seu aniversário de 90 anos, em 12 de agosto, foi homenageado pelo povo cubano. Todavia, sua morte não pode ser considerada como surpresa, porque meses atrás, deu a entender que o tempo é igual para todos e que ele não era uma exceção. Fidel era amigo do Papa Francisco, intermediário decisivo no processo de reaproximação com os Estados Unidos e, quando esteve em Havana celebrou uma missa para 500 mil cubanos, onde a religião voltou a ser permitida.

Tendo assumido o poder oficialmente em fevereiro de 1959, depois da fuga do ditador Fulgêncio Batista, Fidel ocupou os mais altos cargos, em especial o de ditador, por quase 50 anos, até 2008, quando o seu irmão Raúl iniciou o processo de reabertura na ilha. Este longo período de seis décadas, foi superado apenas pelo rei Bhumibol Adulyadej da Tailândia, monarca por 70 anos de 1946 a 2016; e pela rainha Elizabeth do Reino Unido (nascida também em 1926 como Fidel), coroada em 1952 e ininterruptamente ativa desde então.

A propósito de longevidade, seu amigo Gabriel García Márquez, colombiano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, autor de várias obras primas, principalmente Cem anos de solidão e O Outono do Patriarca, este editado em 1975. Naquele ano, Fidel ainda não completara 50 anos, e, portanto, García Márquez não o encarava ainda como patriarca. Mas, com o passar das décadas, Fidel começou a se eternizar no poder e se parecia cada vez mais com o velho patriarca da ilha fictícia do Mar das Caraíbas, que teria vivido entre 107 e 232 anos, segundo o autor, liderando ditatorialmente seu país por numerosas gerações.

O fuzilamento dos contrarrevolucionários, aqueles que não aceitavam o regime comunista em Cuba, no chamado paredón, não tem números exatos porque os arquivos com os nomes foram queimados. Mas diferentes pesquisas mostram que foram entre 4 mil e 17 mil pessoas. O maior número de mortes ocorreu na década de 60, quando Fidel e Che Guevara teriam pessoalmente comandado os fuzilamentos. Mas a pena de morte prevaleceu sempre, mesmo em números decrescentes em cada década.

Não se pode falar em Fidel sem falar em Che Guevara. Che contou a história de um companheiro da luta armada, Eutimio Guerra condenado por traição e executado por ele com um tiro na cabeça, e participou ativamente das condenações sumárias dos tribunais revolucionários e do fuzilamento no paredão. Na segunda metade da década de 1960, Che deixou Cuba para exportar a revolução, tendo lutado no Congo e depois na Bolívia, onde foi morto por tropas do governo, em 1967. Ficou dele a imagem do guerrilheiro romântico, aquele da foto histórica que circulou no mundo inteiro entre estudantes, além de dois filmes que projetam sua imagem favorável: o primeiro chamado Diários de Motocicleta em que Che, ainda estudante de Medicina, viaja da Argentina à Venezuela, e o outro dirigido pelo sueco Soderbergh, que mostra o herói na luta desde Sierra Maestra até a vitória final em Havana, em que depois das batalhas ele atuava como médico, operando e tentando salvar vidas dos guerrilheiros feridos.

Após o falecimento de Fidel, não se pode dizer qual dos dois revolucionários será mais reverenciado pela História, ou se a revolução cubana terá esgotado seu manancial de inspiração junto à juventude que aparentemente não acredita mais na revolução.

Comandante Fidel foi um dos sete filhos do imigrante espanhol da Galícia, Angel Castro e Lina Ruz. Foi educado em colégios de jesuítas na infância. Era bom atleta, especialmente de beisebol e basquete, ajudado pela compleição física e altura em torno de dois metros. Quando estudante universitário tornou-se ateu, aderiu ao comunismo e foi antiamericano e anti-imperialista para o resto da vida. Casou-se cedo, com uma moça da alta sociedade, Mirta, e tiveram um único filho, Fidelito, mas o casamento logo se desfez por razões ideológicas e pressão da família da esposa, que era ligada com o ditador Fulgêncio Batista.

Em 1953, ele e Raúl foram presos após o ataque fracassado à fortaleza de La Moncada. Depois de algum tempo na prisão, anistiado, foi para o México com Raúl, onde conheceram Che Guevara e outros companheiros. Em 1956, liderando um grupo de 72 guerrilheiros, estabeleceram-se nas montanhas da Sierra Maestra e iniciaram a luta contra o ditador Batista, dos quais sobreviveram apenas doze heróis que, marchando para o oeste, chegaram a Havana na véspera do ano novo 1958-59, obtendo a vitória final.

fidel

Fidel teve 49 anos de poder, sempre assistido pelo irmão Raúl, que o substituiu em 2008 oficialmente. Ficaram famosos os seus longos discursos, sempre eloquente e ouvido com atenção pelo povo. Um deles foi o pronunciamento nas Nações Unidas, em 29 de setembro de 1960, quando falou por 4 horas e 29 minutos. Nunca deixou de denunciar o imperialismo ianque e o bloqueio econômico de Cuba pelos Estados Unidos. Teve coragem de expressar ao governo americano tudo aquilo que os outros países latino-americanos se abstiveram de fazer, inclusive o Brasil, pelo qual tinha especial carinho.

Era sedutor não só pelas suas ideias políticas mas também no contato com diferentes mulheres de quem teve pelo menos sete filhos reconhecidos. Sua vida privada era cuidadosamente protegida por razões óbvias de segurança, mas suas aventuras amorosas, inclusive com artistas de cinema, por vezes vazavam para a imprensa.

Fidel afirma ter sobrevivido a 634 atentados, grande número deles orquestrados fora do país. Depois de derrotar a tentativa de invasão americana na Baía dos Porcos, no início da década de 1960, quando John Kennedy era presidente dos Estados Unidos, Fidel autorizou a instalação, na Ilha, de mísseis de alta potência pela União Soviética, o que levou o mundo a temer uma nova grande guerra.

Fidel viajou muito, na esperança de exportar a revolução e esteve no Brasil cinco vezes. Em 1961, quando a Organização dos Estados Americanos expulsou Cuba dos seus quadros, o então presidente Jânio Quadros condecorou Che Guevara e manifestou suas simpatias pela revolução. É provável que as forças ocultas que acarretaram sua renúncia, com apenas seis meses de governo, fossem os militares contrários ao regime cubano. Após a deposição do presidente João Goulart, em abril de 1964, foram rompidas as relações diplomáticas do Brasil com Cuba, só retomadas depois de 1985, na gestão do presidente José Sarney, ampliadas na década de 1990 com os presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique, posteriormente ampliadas, no novo milênio, com seu amigo e aliado Luís Inácio, o Lula.

Em 1991, eu e minha esposa estivemos em Cuba para os jogos das Olimpíadas Pan-Americanas e sentimos a atmosfera de repressão: no nosso hotel não entravam cubanos e havia lojas exclusivas para vender charutos e rum aos estrangeiros. Mas, o ingresso nas arenas esportivas era gratuito e nos colocavam em lugares confortáveis. Após a partida final do basquete feminino, em que as brasileiras venceram as cubanas, Fidel Castro, em pessoa, entregou as medalhas de ouro e se ajoelhou aos pés das campeãs Hortência e Magic Paula. Em 2001, estivemos com Fidel em Kuala Lumpur, quando eu era embaixador na Malásia. No jantar que lhe foi oferecido pelo rei Agong XI, ao cumprimentar minha esposa Márcia, Fidel lhe disse que ela parecia ser asiática e não brasileira, e fez referências carinhosas ao povo brasileiro.

Um sacerdote espanhol, Padre José Fortea, fez uma reflexão sobre Fidel: Deus lhe deu 90 anos para sua alma se converter, para entender, para pedir perdão. Pedir perdão a Deus, a si mesmo. Perdoar a si mesmo para seguir vivendo com dignidade, para não viver sob o remorso… Mas, o perdão divino é inesgotável para quem o pede. A despeito de tudo, entre suas qualidades e defeitos, não se pode negar, que ele foi uma das principais figuras da vida internacional no século XX.

Referências bibliográficas:

MUZZI, Geraldo Affonso. (2017). Trilha Diplomática, trilogia internacional. Campinas: Pontes. 760p.

CASTRO, Fidel. (1982). A História me absolverá. São Paulo: Editora Alfa-Omega. 4a ed. 112p.

 

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