A Participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial (1942-1945)

Brazil in Second World War (1942-1945).

Expedito Ramalho de Alencar (in memoriam) – Idealizador e fundador do IHGG Campinas.

Os homens sempre estiveram atentos aos bens alheios. As nações são feitas de homens, também. Quando acrescem razões passadas mal resolvidas, afloram os conflitos bélicos. As guerras se repetem como um fenômeno total, político e militar, amparado na mobilização de todos os recursos nacionais (MAGNOU, 2006).

No caso da Segunda Guerra Mundial, as imposições dos vencedores aos vencidos, no Congresso de Versalhes, deixaram as sementes plantadas para uma revanche, diante dos ferimentos nos brios nacionais dos vencidos. A atmosfera política internacional nos albores da Segunda Guerra Mundial fazia-se antever uma tentativa de conquista global, em face dos arroubos do nacionalismo alemão, sob o comando de Adolph Hitler.

Nunca antes nosso futuro foi mais imprevisível, nunca dependemos tanto de forças políticas, que podem a qualquer instante fugir às regras do bom senso e do interesse próprio, forças que pareceriam insanas se fossem medidas pelos padrões dos séculos anteriores. (ARENDT, 2007).

O Brasil integra as Américas e por meio de laços políticos de tratados passados, compete estar coeso na salvaguarda dos interesses americanos do Norte, do Centro e do Sul. Mas, a guerra estava explodindo na Europa. Os totalitarismos de direita e de esquerda ameaçavam as democracias. O nazismo de Hitler vencia um a um os países da Europa, menos a União Soviética, que fizera acordo de não agressão com o Führer.

Nossos navios estavam sendo postos à pique pelos submarinos alemães. Mas o governo Vargas, ditatorial, simpatizava com o nazi-fascismo, um regime eminentemente de direita. A defesa da democracia ameaçada precisava da estratégica brasileira para conter os exércitos do Eixo em expansão na África, onde as tropas alemãs avançavam.

O mundo é uma comunidade de Estados (DALLARI, 1991).

Por razões de segurança e economia, os estados soberanos aliam-se a outros, em comunidades internacionais. Os Estados Unidos, como o Brasil, mantinham neutralidade, porém articulavam planos estratégicos para uma eventual entrada no conflito. Houve a visita ao Brasil do general George Marshall, chefe do Estado-Maior daquela nação. Iniciou-se o planejamento da defesa do Teatro de Operações Leste e Nordeste do Brasil e a representação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, em Washington. A França, tradicional amiga do Brasil, capitulara, por ato infame do marechal Petain.

As preocupações dos norte-americanos advinham do discurso do presidente Getúlio Vargas, de 11 de junho de 1940, no aniversário da Batalha do Riachuelo, quando afirmou que o Brasil não aderiria a qualquer corrente doutrinária e ideológica existente. Todavia, no âmbito da diplomacia, com Oswaldo Aranha, o Brasil cedeu bases militares no Nordeste aos norte-americanos, justamente o ponto mais próximo da África.

O ataque a Pearl Harbor pelos japoneses, em 7 de dezembro de 1941, acelerou os planejamentos de guerra, muito complexos. O apoio militar dos Estados Unidos e, com a entrada em vigor da lei de empréstimos e arrendamentos, resultou em vários empréstimos ao Brasil para a exploração do minério de ferro de Itabira, a estrada de ferro Vitória-Minas e o beneficiamento da borracha da Amazônia.

A despeito das compensações, o imperativo de defesa continental, diante de um conflito iniciado por um déspota ególatra em pleno século XX, Hitler, que tentava o domínio mundial para impingir um regime totalitário, resulta da falta de moderação do poder.

O Poder depende de uma certa distribuição das forças que resulte da razão e não do acaso. (CHÂTELET, 1985).

A entrada do Brasil na guerra, com a condição de beligerante, em 22 de agosto de 1942, implicou uma completa e bem ampla transformação dos compromissos que até então nos ligavam ao governo Norte-Americano, com grande repercussão no nosso programa econômico e militar. (TAVARES, 1976).

Estava em curso o plano de invasão da África. Oficiais brasileiros inteiravam-se de todos os problemas estratégicos. Iniciava-se a operação em 14 de novembro de 1942. Em janeiro seguinte, em Casablanca, encontravam-se Roosevelt, Churchill e os generais De Gaule e Giraud. As bases aéreas de Natal e Recife formavam, na direção de Dakar, o chamado Trampolim do Atlântico ou Corredor da Vitória. No Brasil, reúnem-se Roosevelt e Getúlio, em São Paulo, a 25 de janeiro de 1943, nas comemorações do aniversário da capital bandeirante, selando os planos pelos quais os armamentos das tropas brasileiras teriam os mesmos preparos e equipamentos dos norte-americanos.

Com o Brasil na guerra, as preocupações com as colônias alemãs e japonesas (quistos isolados onde se falavam a língua natal) aumentaram, restringindo os seus passos, inclusive a proibição de exportação do tório espíritossantense para a Alemanha, pois havia suspeita de que estavam fabricando a bomba atômica. Havíamos de resistir. É na resistência que reside a esperança de conter o perigo às democracias, que grassa nos governos do mundo civilizado.

O conjunto de estratégias era em todos os sentidos necessário para o êxito na contenção do grave conflito que se expandia em velocidade assustadora. Intensificou-se a mobilização nacional e o treinamento de recrutas para envio de tropas ao teatro das operações, muito discutido, ficando decidido, afinal, o envio para Itália. Através da Campanha da Produção de que participamos, foram produzidos víveres para alimentação das tropas. Os ânimos da juventude se elevaram.

Pelos acordos com os norte-americanos, obrigara-se o Brasil a enviar três divisões. Mas as dificuldades e o jeitinho brasileiro resultaram em enviar uma Força Expedicionária Brasileira (FEB), com valor equivalente ao de um corpo de exército, com três divisões, sob o comando do então general Mascarenhas de Morais, justamente para a Itália.

O símbolo era uma cobra fumando. Segundo esclarece Lyra Tavares, a ordem para o assalto à baioneta às tropas alemãs, que resultou em chacina dos nossos pracinhas, foi dada pelo então Ministro da Guerra, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro. Como afinal os Aliados foram vitoriosos, aos vitoriosos, as batatas, como disse Machado de Assis.

feb 2

Com a vitória dos Aliados contra o totalitarismo e pela democracia, não podia permanecer no país um regime totalitário (o Estado Novo de Vargas). Os militares depuseram Getúlio na madrugada do dia 29 de outubro de 1945 e, como não havia vice-presidente nem Congresso funcionando, chamaram o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro José Linhares, para Chefe do Governo. Convocaram-se eleições e, entre os candidatos, estavam: do PSD, general Eurico Gaspar Dutra, e da UDN, brigadeiro Eduardo Gomes; ganhou o primeiro, que fez um governo razoável.

Ao avivarmos a história do terrível conflito mundial, encerrado em 1945, queremos alertar as novas gerações para as intenções dos fundadores da ONU, que sonharam evitar o surgimento de novas guerras, solucionando as pendências pelo diálogo e pelos acordos diplomáticos.

Referências bibliográficas:

ARENDT, Hannah. (2007). Origens do totalitarismo. Tradução Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras.
CHÂTELET, François et al. (1985). História das Ideias Políticas. Tradução Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
DALLARI, Dalmo de Abreu. (1991). Elementos de Teoria Geral: o Estado. 16. ed. São Paulo: Saraiva.
MAGNOU, Demétrio et al. (2006). História das Guerras. São Paulo: Contexto.
TAVARES, Aurélio de Lyra. (1976). O Brasil de Minha Geração. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora.

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