Fé, Religião e Magia no Egito Antigo

Faith, Religion and Magic in Ancient Egypt.

Jorge Luiz Baracho de Alencar – médico, escritor. Titular da Cadeira Nº 18 do IHGG Campinas.

A história do antigo Egito se estende por longos 2.700 anos, de aproximadamente 3 mil anos até 332 a.C. Não só representa o primeiro reino unificado historicamente conhecido, como também a mais longa experiência humana, documentada, de continuidade política e cultural, que ficou marcada pela obsessão do renascer e da imortalidade.

Após as conquistas consecutivas do Rei Escorpião e, sucessivamente, por Menés, dando origem à unificação e ao controle político-militar sobre os habitantes das margens do fecundo Rio Nilo, no norte da África, houve a necessidade de uma hierarquia do panteão egípcio.

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Havia cidades importantes que tentaram, através de seus sacerdotes, impor uma teologia da criação, usando deuses auto-protetores: o oceano primordial e a deusa cósmica da justiça e da verdade, Maat. Tal religião seguia um raciocínio teológico convincente da formação do mundo para o egípcio antigo.

Poucas mudanças sofreu tal religião no decorrer dessa civilização: a solarização, após a construção das pirâmides, com a supremacia intelectual dos sacerdotes em que Ra era o deus primordial, foi de tamanho impacto que até o grande Amon de Tebas passou a ser chamado de Amon-Ra.

Bem comum na religião dos antigos moradores das margens do Nilo era a veneração dos animais que os amedrontavam. O Antromorfismo era comum: ora o deus tinha a forma de animal, ora de parte do corpo de homem e o resto de animal e, mais raramente, a forma humana.

Essa religião não resistiu às transformações do faraó Akhenaton, que desprezou todos os deuses e criou o monoteísmo na nova capital, Amarna, onde o Sol era senhor absoluto da adoração egípcia, levando essa crença aproximadamente 19 anos, todavia.

Todas as divindades eram por definição e por natureza eternas, infinitas, onipotentes, mas também misericordiosas, que compartilhavam da fraqueza humana. As orações acompanhadas de oferendas eram as preferidas dos sacerdotes. Os egípcios, através de oráculos feitos após esses atos, sempre conseguiam respostas através de algo que interpretasse como respostas.

Os deuses moravam nos seus templos, frequentados apenas pelos respectivos sacerdotes. As imagens eram banhadas e bentas todas as manhãs para receberem suas oferendas. As pessoas as viam nas procissões entre os templos e podiam conversar através de oráculos. Era uma convivência direta entre o ser vivo e o deus vivo. Muitas vezes havia relação com algum animal, no qual acreditavam que este possuísse parte da força vital do seu deus, como no caso de Amon, Amon-Ra, com o carneiro sagrado.

A religião e a magia andavam juntas. Os egípcios professavam a crença no poder criador da palavra e, por extensão, das imagens, dos gestos e dos símbolos em geral, que se articulavam com a possibilidade de coagir os deuses e o cosmo, ou seja, com a magia.

Os egípcios acreditavam que os quatro filhos dos seus criadores, conforme o local de origem, Osíris, Ísis, Seth e Nefertiti reinaram na Terra milhares de anos atrás e, por discórdia entre os irmãos, Seth mata Osíris e o divide em 14 pedaços.

Sua irmã e mulher Ísis se transforma em águia, reúne seus pedaços, mumifica-o e copula com Osíris, dando origem a Hórus, o deus falcão. Este ficou para reinar na Terra. Encarnava seu espírito no corpo do faraó reinante, dando-lhe o maior poder que algum governante gostaria de ter: governava como um deus. Osíris partiu para reinar no mundo pós-tumba, lugar perfeito que os egípcios consideravam como sendo a constelação de Órion.

A religião funerária foi esplendidamente imutável na sua existência. Todo egípcio, após a morte, inclusive o faraó, passava pelo julgamento de Maat, presidido pelo próprio Osíris, acompanhado de sua mulher e irmã. Esse julgamento dava o direito à mumificação e à vida eterna nas terras de Osíris.

Após o julgamento, o morto ganhava o direito de atravessar o Duat, local escuro, cheio de truques e mistério, até chegar a Osíris. O livro dos mortos, ou os textos das pirâmides, era a cartilha que todo egípcio deveria seguir para vencer as etapas rumo à eternidade. Depositados nas tumbas, junto aos amuletos, eles deveriam compelir os deuses à bondade, interferindo em favor do morto no seu julgamento.

Passadas as etapas do julgamento de Maat e a travessia do Duat, o espírito Ba chegava ao reino de Osíris e permanecia imortal, porém era preciso que o espírito Ka, que estava mumificado na sua tumba, estivesse em perfeita harmonia interna, para que o Ba tivesse uma vida normal. O conceito era: preservar o corpo para imortalizar a alma.

Os hieróglifos escritos na pirâmide de UNA, da 5ª dinastia, há 2.400 anos antes de Cristo, são a síntese da religião funerária do Egito Antigo:

A vida terrena é transitória, mas o Além é eterno. O corpo é da terra, o espírito do céu. A parte imortal do ser enriquecido pela experiência terrena retorna ao seu criador, mas, para conseguir essa ascensão, o ser deve se limpar de toda impureza e superar todos os obstáculos.

Referências bibliográficas:

BUDGE, E. A. Wallis. (1994). A magia egípcia. São Paulo: Ed. Madras.
CARDOSO. Ciro Flamarion S. (1982). O Egito antigo. São Paulo: Ed. Brasiliense.
HAGEN, Reiner e HAGEN, Rose-Marie. (1999). Egipto: pessoas, deuses, faraós. Lisboa: Ed. Taschen.
MELLA, Federico A. A. (1998). O Egito dos Faraós. São Paulo: Ed. Hemus.

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