Prefácio de: Riqueza e Mobilidade Social na Economia Cafeeira: Campinas, 1870 – 1940 (Lançamento)

Preface to the: Wealth and Social Mobility in Brazilian Coffee Economy: 1870 – 1940 (New!).

Valter Martins – professor do Departamento de História Universidade Estadual do Centro-Oeste, PR. Sócio correspondente em Irati, Paraná.

Campinas não é uma Capital de Estado, mas é um dos municípios mais estudados na historiografia brasileira. E uma das razões disso foi seu espetacular enriquecimento entre as décadas finais do século XIX e iniciais do XX, período contemplado neste livro. Tempo em que o café se tornou o Ouro Verde, cultivado por escravos e depois pelos imigrantes. A cafeicultura fez de Campinas a Capital Agrícola de São Paulo, conhecida também como a Princesa d’Oeste.

Esses títulos marcaram evidentes mudanças na cidade, algumas reflexos do que ocorria no mundo e no país. Outras, motivadas pelas contingências locais. Nas décadas finais do Império e iniciais da República, o café conviveu com a indústria nascente, em grande parte, financiada por fazendeiros que diversificaram seus investimentos diante das recorrentes crises do produto.

A chegada de muitos homens, mulheres e crianças em busca de uma vida melhor, tanto nacionais como estrangeiros, tornou a sociedade e a economia mais complexas. Uma realidade que este livro expande ao afirmar que, além do café e da indústria, a riqueza derivou também de diversificada gama de atividades exercidas por pessoas de origens distintas. Isso fez de Campinas uma cidade vibrante ainda no oitocentos, mas marcada pela desigualdade que, por vezes, era driblada com muita dedicação ao trabalho, permitindo, ao cabo de décadas, a tão sonhada ascensão social.

Ao analisar os padrões de riqueza e a mobilidade social no contexto da economia cafeeira, Fernando Antônio Abrahão se lançou em tarefa árdua e desafiadora, mas com resultados esclarecedores sobre como a riqueza estava distribuída em diferentes grupos, levando em conta a profissão, a nacionalidade, o patrimônio e, um dado importante, mas nem sempre lembrado: as dívidas. Para tanto, compulsou ampla diversidade de fontes documentais como os inventários judiciais post mortem, registros de licenças para indústrias e profissões, de pagamentos de tributos na Coletoria de Rendas, assentamentos de óbitos, entre outras. Cotejar essas séries documentais permitiu-lhe elucidar as lacunas dos inventários e somar informações aos perfis dos inventariados, para segui-los no tempo. Um trabalho minucioso e demorado, pois exige desvelo do pesquisador.

A pesquisa teve como amostragem 20% dos inventários entre 1870 e 1940, ou seja, cerca de mil em um universo de aproximadamente cinco mil documentos. Algo representativo quantitativamente, ainda mais se levarmos em conta as características dos manuscritos: processos volumosos, com a necessidade de dominar a paleografia, ler tinta desbotada, manter a integridade do papel fragilizado para a posteridade, dificuldades que muitas vezes levam o pesquisador a optar por fontes menos áridas.

Nos documentos examinados, o autor encontrou uma cafeicultura articulada à produção de gêneros alimentícios para abastecer as fazendas e a cidade. Nas lavouras identificadas em períodos mais recentes, o café aparece consorciado ao milho, ao feijão, à batata, ao arroz e à hortaliça, revelando que o crescimento da cidade gerava maior demanda para seu abastecimento. Na prática, uma estrita monocultura cafeeira não se aplicava em Campinas, e isso desde a primeira metade do século XIX. O comércio de alimentos era forte no setor comercial, havia grande número de armazéns de secos e molhados e açougues, além dos mercados estabelecidos pela Câmara Municipal.

Mesmo com o avanço do café para as novas fronteiras agrícolas no início do novecentos, veremos como ele deixou rastros de riqueza e desenvolvimento: ferrovias, bondes, iluminação a gás (depois elétrica), indústrias, comércio diversificado, mercado central, telefone, escolas, hospitais, teatro, entre outras facilidades. Mas a cidade rica também abrigava muitos pobres, e as diferenças de riqueza são patentes.

O autor observou que, entre os inventariados avaliados no período anterior à Abolição, o peso monetário nos investimentos realizados pelos escravagistas diminuiu, mas a média percentual de indivíduos cativos permaneceu estável, ainda com a perene desagregação do sistema. Havia, em função da cafeicultura e do cativeiro urbano, uma força da escravidão, mesmo em um cenário marcado por fugas e assassinatos praticados por escravos e pelas iniciativas imigrantistas na década de 1880 em diante. A análise confirmou a altíssima concentração da renda líquida nas mãos de um grupo minoritário, demonstrando enorme contraste social na abastada Campinas. Opulenta para poucos, não por acaso proliferaram os cortiços naqueles tempos.

Os brasileiros predominaram entre os mais ricos. Nos grupos médio e menos abastado a presença dos estrangeiros foi maior, indicando dificuldades de ascensão social entre os imigrantes. Nesses estratos, o livro mostra que o trabalho familiar despontou como a principal fonte de recursos para acumular algum capital, abrir negócios e comprar imóveis urbanos ou rurais.

Entre os imigrantes pioneiros, desde a metade do oitocentos, os alemães trouxeram oficinas, manufaturas e fábricas, além de atuarem no comércio e na prestação de serviços especializados. Também alguns italianos anteriores à imigração em massa (estes em boa hora identificados e perfilados neste livro) foram bem-sucedidos, ocupando-se de negócios citadinos como: armazéns, barbearias, restaurantes, açougues, padarias e comércio ambulante, além de investirem no comércio por atacado e em fábricas de alimentos e de cervejas.

Fernando Antônio Abrahão conhece bem os documentos que utilizou para escrever Riqueza e mobilidade social na economia cafeeira, Campinas 1870 – 1940, o 3º volume da Coleção Memória de Campinas, afinal, integram o acervo do Centro de Memória – UNICAMP (CMU), do qual ele foi diretor de seus Arquivos Históricos por 30 anos. Como historiador e guardião de grande parte da memória regional, o autor buscou conhecê-la melhor e foi estudá-la. Do seu doutorado na Universidade de São Paulo resultou o livro que ora vem a lume. Trata-se de leitura fundamental para compreender os aspectos sociais e da vida material dos habitantes do Oeste Paulista, entre o império e a república.

Referência bibliográfica:

ABRAHÃO, Fernando Antonio. (2019). Riqueza e mobilidade social na economia cafeeira: Campinas, 1870 – 1940. Campinas: Pontes Editores e IHGGC. Volume 3 da Coleção Memória de Campinas. 256p.

Para adquirir: http://www.ponteseditores.com.br / Livraria Pontes: Rua Dr. Quirino, 1223 – Centro, Campinas – SP, 13015-081 / fone: 19-3236-0943.

2 comentários

  1. Prefácio convidativo do Prof.Valter Martins! Já me vejo saboreando devagarinho as páginas deste interessante livro do Professor Fernando Abrahão. Como necessitamos de obras cuidadosas, criveis e que ecoam com sabedoria sobre um passado robusto, transformador, como o foi a segunda metade do século XIX e início do XX, em Campinas. Parabéns!!

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  2. Prezados(as),

    Finalmente li o prefácio escrito pelo Prof. Valter Martins sobre o livro do Fernando Abrahão, “Riqueza e Mobilidade Social na Economia Cafeeira: Campinas, 1870-1940”, e gostaria de deixar algumas breves impressões.
    Fico muito entusiasmado com a tese do Fernando, a qual desejo ler em breve por completo, assim como o congratulo pelo momento em que ela é publicada.

    Dois elementos chamaram-me bastante atenção no prefácio do Prof. Martins.

    O primeiro é a importância de Campinas no terceiro quartel do século XIX. No censo de 1872, por exemplo, o município aparece com mais habitantes que a própria capital paulista! Apenas por curiosidade, Fernando: você teria alguma explicação para o porquê Campinas não ter se tornado, naquele momento, a capital da província? A pergunta pode parecer pueril, mas havia condições econômicas de competição com a capital. Posteriormente, o grupo republicano também teria dado condições políticas para essa potencial transferência, ou eu exagero aqui?

    O segundo refere-se ao mito da ascensão social dos imigrantes. Acredito que o nosso saudoso interior esteja repleto de histórias familiares em que nossos antepassados nos contam sobre como “fizeram América”, o que muitas vezes leva a um saudosismo do passado imigrante e à idéia de que o Brasil era de fato um país de oportunidades. Enquanto eu efetivamente concordo com a idéia de que muitos imigrantes ascenderam socialmente – e as novas gerações se beneficiaram muito dos esforços passados –, eu tenho me tornado cada vez mais crítico a respeito da ideia de que o interior paulista foi largamente moldado pelas ondas imigratórias, ao menos em seus aspectos institucionais. Em minha tese, cheguei a uma conclusão semelhante à do Fernando para os municípios paulistas em 1872: os imigrantes que obtiveram acesso à propriedade da terra fizeram-no em regiões com políticas imigratórias muito específicas e de acordo com algumas nacionalidades também específicas, ou seja, eram mais a exceção do que a regra. Aqueles que ascenderam socialmente foram os que ocuparam nichos produtivos urbanos. Daí advém o benefício fundamental da heterogeneidade da imigração: com os homens e mulheres vêm não apenas a força de trabalho, mas todas as habilidades e aspirações – e para não falar que eu não falei dos espinhos, também vêm todas as paixões negativas e vícios… Em todo caso, porém, parece-me bastante claro que foi apenas uma minoria de imigrantes que ascendeu a posições de liderança econômica e política.

    Deixo esses temas potencialmente para debate. Sei que é geralmente difícil fazê-lo por mensagens, mas espero que as considerações sejam de interesse.

    Abraços a todos,
    Bruno Witzel-Souza.

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