J. Toledo, o surrealismo na literatura

J. Toledo, the Surrealism in Brazilian Literature.

Agostinho Toffoli Tavolaro – advogado, professor. Titular da Cadeira Nº 39 do IHGG Campinas.  

A análise da literatura brasileira nas últimas décadas do século XX e nos albores deste século XXI não poderá ser feita sem que se evidencie a figura de J. (Jota) Toledo e a importância de que se reveste ele como representante do surrealismo.

Criado o vocábulo em 1917 por Guillaume Apolinaire e difundido por André Breton no seu Manifesto Surrealista de 1924, a escola surrealista atraiu inteligências que souberam dar ao rompimento com a realidade racional feição própria em um movimento que no Brasil muito se aproximou da pintura e da fotografia.

Jorge de Lima e Cornélio Pena, nos meados do século passado, tiveram em Jota a expressão máxima do desprendimento das regras de comportamento, que vemos traduzidas em seus livros e nas crônicas publicadas no jornal Correio Popular. Tendo suas pinturas apreciadas em quase uma centena de mostras, sua aproximação com a literatura, principalmente a partir do momento em que as condições de saúde se constituíram em obstáculo ao exercício da arte pictórica, frutificou com exuberância. E a surrealidade nela despontou com todo o vigor, como se pode ler de seu último conto publicado, O jogo de caxangá (2007), quando seu personagem, Otto, deixado a sós com Melanie, duquesa de Brighton, aguardando a dama que Otto iniciasse o assunto, este, constrangido e tímido misantropo, a fitou nos olhos e, atrapalhado como sempre, perguntou-lhe de chofre: e os intestinos, como estão? (idem).

Iconoclasta, sua inteligência o levava a indagações e observações perspicazes, aliás muito ao estilo de sua mãe, Maria Conceição Arruda Toledo, escritora, jornalista combativa, responsável pelo ingresso da primeira mulher na Academia Campinense de Letras (sim, antes mesmo da eleição de Rachel de Queiroz para a Brasileira e a de Marguerite Youcenar para a Academia Francesa) e a sua primeira presidente (1989-1990). Jota, como sua mãe, muitas vezes derrubava com a força das palavras os preconceitos que inculcam nossas mentes como dogmas.

Em nome de sua rica produção artística, tomo a liberdade de apresentar sua última crônica para o Correio Popular, publicada pouco antes de sua morte.

Abstrações acerca do óbvio (Correio Popular – C2 – 27 de setembro de 2007)

Realidade e Poder nem sempre são afrodisíacos muito perfumosos. (lavra pessoal).

Hoje – e para alegria geral – lembro que a ira dos deuses pode ser adiada para amanhã. Porém, não obstante o noticiário me advertir que cientistas da NASA anunciam gelo nos polos lunares e de que essa insignificante notícia pode fazer com que o pequeno Toledo se mude com toda sua entourage para o poético satélite, volto a lembrar de Campinas e de como é gratificante me certificar de que o Poder — quando aqui aportei — era decidido com Ph nas venéreas esplanadas do Taquaral, que o senhor Quércia, visando com exclusividade seu despojado espírito empreendedor, tão bem soube transformar naquele olímpico e pedalante universo comunitário com uma Escola de Sagres e sua adernante caravela.

Mas, não! O que se deseja agora lembrar é o gozo da Autoridade.

Sobretudo, após ouvir um dos articuladores da campanha do ex-presidente FHC dizer à frente de milhões:

— Sexo é para principiantes: o negócio é o Poder (sic).

Como para mim sexo ainda possui o encanto de levar Marco Antônio a dividir um reino com Cleópatra, fazer com que Sansão deixasse o barbeiro às moscas para se colocar nas podativas mãos de Dalila, e Diana, a Lady, adotar algum sotaque cockney pelo talk-hair-ribbon, permaneço convicto de que esse raciocínio atualmente – e por seu alto teor calórico – deixa certos indivíduos meio, como diria… brochados.

Sim! Meu Deus, esta é a palavra que o pintor usaria para classificar uma atitude pictórica, as marafonas referirem-se às suas defecções sintomáticas e – é claro – eleitores ao verem os nomes de seus ídolos em manchetes policiais, entre as endemias que assolam a Pátria, e meros anúncios de privadas decoradas com flamingos.

Recentemente, sabendo disso e alertado por ciosos cidadãos de que havia uma manifestação dos peruqueiros na cidade, ordenei a H. Loppe (meu motorista) que pusesse o Studebaker em marcha e, incontinenti, levar-me à cena do impasse que, aliás, acontecia nas principais vias de acesso desta formidável metrópole, governada por equipe de pulsos fortes e débil tirocínio, mas capitaneada por um extraordinário e heliocêntrico alcaide.

E lá chegando, graças à roedora agilidade de um helicóptero Esquilo, o que vi do alto pôde me dar ideia do sufoco que o povo passava com aquela manifestação hostil: irados e intestinalmente imbuídos de que a cabelama devesse obter certificado para transportar passageiros, obstruíram as vitais pistas de acesso à cidade com seis gigantescas perucas de 9×12, o que – hão de convir – é um imponderável absurdo de locomoção capilar!

Assim, em tristeza, desci do giroscópio, apanhei o megafone do inefável coronel Pettená e então, com a energia que sempre marcou meus atos públicos, vendo vereadores dormirem em placidez e a polícia nada fazer, evoquei o esquecido Espiridião Amim e ordenei que um heroico batalhão de cabelereiros, empunhando possantes tesouras, acabasse com aquela obstrutiva pilosidade cenográfica tão nociva às populações. Mas, a seguir, agentes da Lei, que, inertes, assistiam ao ato, interferiram, detendo este zeloso pacificador que lhes fala…

Entretanto, declaro não haver mágoa sobre tal medida truculenta. Gentilíssimo e me reconhecendo, um sargento contratou o recentemente extinto Luciano Pavarotti para me dar voz de prisão e, levado para a cadeia e encarcerado como facínora do jornalismo surreal, pude, enfim, tirar umas horas reflexivas sobre o embuste corporativista dos peruqueiros e certos enlevos mobralesco-nacionalistas – que é bom lembrar – não são só para principiantes, sobretudo nesta terra de ninguém, onde permanecem causando orgasmos tão senilmente cabeludos, o que me faz lembrar da pilosa participação do nosso presidente numa reunião internacional, e cuja história reproduzo plena de veracidade:

Num conclave com o presidente da Suíça, Lula apresentou seu staff com pompa:
— Este é o Ministro da Saúde, este é o Ministro da Educação, este é o Ministro da Cultura, este é o Ministro da Justiça… E assim foi…
Chegou a vez do presidente da Suíça:
— Este é o Ministro da Saúde, este é o da Fazenda, este é o Ministro da Justiça, este é o Ministro da Educação, este é o Ministro da Marinha…
Nessa altura, Lula começou a rir sarcasticamente, dizendo:
— Desculpe Sr. presidente, mas para que o senhor tem um Ministro da Marinha se o seu país não tem mar?
E sério, o presidente da Suíça respondeu-lhe com severidade:
— Quando Vossa Excelência apresentou seus Ministros da Justiça, da Educação e da Saúde, eu não ri.
Bom dia.

Referências bibliográficas:

TOLEDO. Maria Conceiçao Arruda. (2008). J. Toledo, um eterno surrealista (15/1/1947 – 29/9/2007). Campinas: Komedi.
TOLEDO, J. (2007). Contos – Unicamp Ano 40. Campinas, SP: Ed. Unicamp.

Um comentário

  1. Sérgio Castanho escreve: Li e gostei do texto do Agostinho, nosso ATT. Reli com muito gosto a crônica do J. Toledo. Privei de sua exuberante amizade no bar, na toca do Tigrão, na casa/ateliê/escritório do Jota à margem do Atibaia. Ali ele produzia sua arte inefável das 9 da noite às 6 da manhã. Durante o dia dormia. Era heliofóbico e selenófilo. Suas outras fobias e filias saltavam de suas páginas. O Jota faz falta a Campinas, faz falta à boêmia campineira, faz falta à gente. Que fazer? Ir-se foi opção sua, ficar sem ele é o que nos resta.

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