O Universo Caipira no Curso de Nossa História Literária: Final

The Caipira Universe in the Brazilian Literary History: Final.

Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado, escritor. Titular da Cadeira  3 do IHGG Campinas.

Continuação da edição anterior.

Levaria alguns anos até que a configuração mais exata do caipira, inclusive nesse seu desdém pela posse e conservação dos bens materiais, viesse a ganhar contornos informados por critérios históricos e sociológicos. E ela viria através de Antônio Cândido. Que em sua obra fundamental Os Parceiros do Rio Bonito, de 1964, no capítulo intitulado O Caipira e sua Cultura, assim escreve:

Tendo conseguido elaborar formas de equilíbrio ecológico e social, o caipira se apegou a elas como expressão da sua própria razão de ser, enquanto tipo de cultura e sociabilidade. Daí o atraso que feriu a atenção de Saint-Hilaire e criou tantos estereótipos, fixados sinteticamente de maneira injusta, brilhante e caricatural, já neste século, no Jeca Tatu de Monteiro Lobato.
Em verdade, esse mecanismo de sobrevivência, pelo apego às formas mínimas de ajustamento, provocou certa anquilose da sua cultura. Como já se tinha visto no seu antepassado índio, verificou-se nele certa incapacidade de adaptação rápida às formas mais produtivas e exaustivas de trabalho, no latifúndio da cana e do café. Esse caçador subnutrido, senhor do seu destino graças à independência precária da miséria, refugou o enquadramento do salário e do patrão, como eles lhe foram apresentados, em moldes traçados para o trabalho servil. O escravo e o colono europeu foram chamados, sucessivamente, a desempenhar o papel que ele não pode, não soube ou não quis encarnar. E, quando não se fez citadino, foi progressivamente marginalizado, sem renunciar aos fundamentos da sua vida econômica e social. Expulso da sua posse, nunca legalizada; despojado da sua propriedade, cujos títulos não existiam, por grileiros e capangas – persistia como agregado, ou buscava sertão novo, onde tudo recomeçaria. Apenas recentemente se tornou apreciável a sua incorporação à vida das cidades, sobretudo como operário.

 É importante, todavia, retornando ao aspecto ficcional, destacar a obra de um contemporâneo do próprio Lobato: Valdomiro Silveira. Nascido em Cachoeira Paulista em 1873, Valdomiro Silveira passou a infância e a adolescência em Casa Branca. Após formar-se em direito, ingressou na carreira do Ministério Público, atuando em Santa Cruz do Rio Pardo e, mais tarde, em Santos, onde veio a falecer em 1941. É autor de vários livros de contos voltados para a temática rural, entre os quais Os Caboclos (1920), Nas Serras e nas Furnas (1931) e Leréias (1945, edição póstuma).

Diferentemente de Lobato, Silveira, mesmo nos contos narrados em terceira pessoa, adota os pontos de vista e, sobretudo, o linguajar dos caboclos, dos caipiras. Procura, portanto, focalizar o universo rural e seus habitantes de dentro para fora, amiúde assumindo e incorporando a persona do protagonista.

Esse processo fica ainda mais evidente em seu último livro, Leréias (expressão algo equivalente às estórias de Guimarães Rosa). Nas narrativas que compõem o livro, é o próprio caipira quem toma da palavra, falando na primeira pessoa e dirigindo-se a um interlocutor, algumas vezes identificado, noutras vezes oculto. Em alguns contos, esse interlocutor é uma pessoa letrada.

Com essa técnica narrativa, em que o autor vai incorporando termos e expressões próprios do léxico do caipira, Silveira antecipa, portanto, um procedimento que posteriormente seria adotado por Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão – Veredas, onde a narrativa é conduzida pelo próprio herói, o jagunço Riobaldo, que em seus relatos dirige-se a um interlocutor culto e bem informado, que pode ser o próprio escritor, o próprio Rosa. É ainda curioso observar que Silveira utiliza com frequência o adjetivo estúrdio, que seria outra das marcas do linguajar de Rosa.

Valdomiro Silveira elimina, portanto, os seus pontos de vista a respeito do universo rural; quaisquer que sejam eles, deixa-os na sombra, e permite que o próprio caboclo expresse a sua visão do mundo, seus desejos e paixões, o seu peculiar modo de falar. É uma forma de respeito e reverência pelas formas populares de expressão cultural

Leia-se, a título de ilustração, o trecho inicial de Ao Correr das Águas:

Eu ‘tava encostado ali na capororoca, na veira do rio, perto do rebojo, fazendo as contas da minha vida e triste de devéra. Uma tabarana plancheou em riba da água, atrás dum lambari-tambiú que largou seu pulo de desesperado e foi cair saluçando na lóquinha de pedra, rente c’uma touceira de capituva.

Ou em Aquela Tarde Turva:

Vancê não devéra de me preguntar por que é que eu não casei e moro aqui, triste e suzinho, neste recanto de terra: se a gente não matraqueia as coisas de sua vida, alguma rezão há de ter, p’ra ter um fecho na boca. E remexer no que passou muitas vezes é peior do que lidar com sangue ou com barro de enxorrada…

Mesmo quando, excepcionalmente, o autor faz intervir a sua condição de homem culto, a sua erudição, age de forma bastante sutil. É o caso, por exemplo, do conto intitulado Sonharada, onde são espalhadas alusões a Dante Allighieri e à sua A Divina Comédia: o nome do protagonista, Virgilio (guia e companheiro de Dante na descida ao inferno e ao purgatório); as próprias referências ao inferno, ao purgatório, bem como à selva oscura, presente nos versos introdutórios da obra dantesca; os trajes com que se apresenta a mulher amada Anica, em clara alusão aos trajes com que Beatriz é vista na Vita Nova; e finalmente na menção ao próprio nome de Dante, insinuado sob o adverbio dante.

Campinas também tem a sua contribuição nessa inserção do mundo rural na literatura. Misto de novela e de memorial, Landina – Os Fios da Memória reúne as lembranças de sua autora, Dayz Peixoto Fonseca, tendo a figura da avó como fio condutor.

Trata-se de um olhar para o passado, para o histórico familiar representado por sua protagonista emblemática, em torno da qual se articula a construção, reminiscente, de um inventário de ícones, hábitos, crenças e rituais, que são signos de uma época que a modernidade desfez e de uma cultura – rural, caipira – que só resiste através de remanescências literárias, musicais, sociológicas, pictóricas.

É por isso que, no livro, multiplicam-se símbolos do imaginário caipira, vale dizer, do patrimônio imaterial, memorial, de uma imensa parcela da população paulista (e dos Estados adjacentes), daqueles que em algum momento empreenderam o percurso do sertão para a cidade, do arcaico para o contemporâneo. E são: lamparinas, velhas fotografias em poses solenes, festas de reis, um jardim à frente da casa, cisternas e fogões a lenha nos quintais.

No território da poesia há pelo menos um nome a destacar, o de Ricardo Gonçalves, contemporâneo e amigo de Monteiro Lobato. Em seu livro Ipês, Gonçalves desenvolve um belo trabalho poético em torno do universo rural, dentro do qual se destaca o poema Fazenda Velha, que se inicia com os seguintes e preciosos versos:

Neste retiro os longos dias passo
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras cobrirem-se de flores.

(E preciosos, estes versos, não apenas por sua intrínseca beleza, mas por representarem, na formação do autor do presente texto, ainda no período de sua alfabetização, um dos primeiros e reveladores contatos, em verdadeira descoberta, com a magia e o lúdico da poesia).

Num outro contexto, o da música popular, vale registrar parte da letra da canção De Papo pro Ar, de Joubert de Carvalho, escrita pelo poeta Olegário Mariano, em seu bem-humorado elogio à opção de vida do homem do campo, do camponês:

Não quero outra vida, pescando no rio de Jereré.
Tem peixe bom, tem siri patola de dá com pé.
Quando no terreiro, nas noites de luá,
Vem a saudade me atormentá,
Eu me livro dela tocando viola de paro pro á…

Ainda no terreno da música popular, mereceria destaque certa ideologiada moda-de-viola, na medida em que seus compositores cultuam o modo de vida e os valores, sociais e culturais, da nação caipira. Mas isto é assunto para um causo ainda mais maior

Referências bibliográficas

CÂNDIDO, Antônio. (2017). Os Parceiros do Rio Bonito. São Paulo: Ed. USP.
FONSECA, Dayz Peixoto. (2011). Landina – Os Fios da Memória. Campinas: Pontes.
GONÇALVES, Ricardo (1921). Ipês. São Paulo: Ed. Monteiro Lobato.
ROSA, Guimarães (2001). Grande Sertão – Veredas.Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
SILVEIRA, Valdomiro (1962). Os Caboclos. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira.
________ (1975). Nas Serras e nas Furnas. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira.
________ (2019) Leréias. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Foto destacada:

Livro: MARTINS. Valter. (1996). Nem senhores, nem escravos: os pequenos agricultores em Campinas, 1800 – 1850. Campinas: CMU/UNICAMP. 176p.

2 comentários

  1. Apaixonante leitura. Quanto aprendi sobre o universo caipira! Quanto desconhecia sobre toda a riqueza que o autor, com maestria e beleza, nos mostra! Referências de busca excelentes para que continuemos nosso aprendizado. Parabéns, dr Borges!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Neste, como em todos seus textos, Borges é excelente. Na poesia, na crônica, no romance, na crítica – em tudo onde faz deslizar o cálamo com graça e elegância, Borges destaca-se como virtuose da palavra. Neste texto em que aborda o tema do caipira na literatura pátria ele se supera, indo buscar joias nos mais insuspeitados grotões. Bela iniciativa de nosso editor dos posts do IHGGC!

    Curtido por 1 pessoa

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