Prefácio de: Mercados Urbanos, Transformações na Cidade: Abastecimento e Cotidiano em Campinas, 1859 – 1908

Preface to the: Urban Markets, Transformations in the City: Food Supply and Daily Life in Campinas, 1859 – 1908.

Maria Luiza Marcílio – professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

O tema mercados urbanos não é muito recorrente na História em geral. Na História do Brasil é mais raro ainda. Poucos são os autores que se debruçaram sobre o assunto. Valter Martins praticamente inaugura com seu livro um tema que é central — no sentido literal do termo — na dinâmica da cidade e da sobrevivência de seus moradores.

Mas essa não é a única razão da importância de: Mercados urbanos, transformações na cidade: abastecimento e cotidiano em Campinas. 1859 – 1908. Campinas: Editora da Unicamp, 2010. Nesse livro, Martins mostra como montar um trabalho dentro de uma visão analítica global, que não despreza nenhum componente de sua dinâmica: vai da análise econômica, cultural, topográfica — do estilo arquitetônico que se buscou para erguer o edifício pujante, belo, em uma cidade que se enriquecia com rapidez — aos personagens humanos gerados pelo Mercado e que foram compondo uma paisagem social nova, variada, rica, efervescente. Nada desse conjunto escapa ao olhar arguto e à pesquisa do expositor.

Em termos humanos, a cidade vivia mudanças significativas no período. O trabalho transitava do sistema escravista para o livre; entravam constantemente imigrantes portugueses, italianos e de outras nacionalidades da Europa que forçaram a introdução do trabalho assalariado e do trabalho autônomo. O tecido social da cidade tornava-se mais complexo, mais variado. A vida ali e no entorno do Mercado novo de Campinas ganhava nova vida. Aí se acotovelavam escravos, libertos e livres; ricos e pobres; homens e mulheres. Ficamos conhecendo mais de perto essas personagens no cotidiano do Mercado Municipal.

Mas o abastecimento de Campinas não esteve restrito ao Mercado. A seu lado, multiplicaram-se pela cidade em forte crescimento os mercadores ambulantes, as quitandeiras, os peixeiros, os açougues e as padarias. Havia lugar para todos, mesmo sob o olhar muitas vezes vigilante dos edis municipais.

Novos elementos entraram na vida da cidade e do comércio nesse período: a chegada do prolongamento da ferrovia em Campinas, que vinha do Porto de Santos, e a construção de sua variante para alcançar o local do Mercado Municipal, deram rapidez à chegada de produtos de todas as origens, até mesmo importados, enriquecendo o abastecimento local e regional. Outra novidade foi a unificação dos pesos e medidas, depois da oficialização, em 1879, do sistema métrico decimal no país. Essas novidades, somadas à crescente riqueza da ampliação da produção do café de Campinas, determinaram maior dinamismo no comércio local.

Acompanhei de perto a longa, árdua e trabalhosa pesquisa de Martins, em uma fase em que o computador pessoal ainda não estava tão popularizado como hoje. Arquivos contendo subsídios para a história da cidade de Campinas foram vasculhados com paixão e obsessão na UNICAMP, no Arquivo Público do Estado de São Paulo, em várias bibliotecas. Tudo que era encontrado em fontes diversas, manuscritas, impressas foi sendo anotado e catalogado. Ilustrações, fotografias do Mercado, da cidade foram copiadas. Esse corpus documental foi o fundamento da reconstituição aqui revelada. Um trabalho superior, de um verdadeiro historiador.

Difícil mostrar as dificuldades que o verdadeiro pesquisador de história encontra em nosso país. Um tempo precioso se gasta na leitura, sobretudo nas latas ou caixas onde estão os manuscritos amarrados aleatoriamente, na busca e na seleção dos dados que interessam ao tema do pesquisador. Martins obstinadamente vasculhou todos os volumes de manuscritos sobre Campinas, cada jornal publicado na cidade, no período em que analisava as Leis, o Código Sanitário e outros Códigos editados e de interesse para a vida do abastecimento de víveres, de carnes, de hortaliças de Campinas.

A análise e o resultado desse árduo trabalho está posto à disposição de um público maior, com a edição de: Mercados urbanos, transformações na cidade: abastecimento e cotidiano em Campinas. 1859 – 1908. O livro de Valter Martins tornou-se, assim, um referencial necessário para o estudo histórico não apenas dos mercados municipais, mas da cidade brasileira.

Valter Martins é paulista de Osvaldo Cruz. Doutorou-se em História Social pela USP, depois de fazer o Mestrado na Universidade Federal do Paraná e graduar-se em História pela UNICAMP. É autor de Nem senhores, nem escravos: os pequenos agricultores em Campinas, 1800 – 1850, publicado pelo Centro de Memória – UNICAMP, em 1996. É professor na Universidade Estadual do Centro-Oeste, Campus de Irati, PR, e Sócio Corresponde do IHGG Campinas pela mesma Cidade e Estado.

Referências Bibliográficas:

MARTINS, Valter. (2010). Mercados urbanos, transformações na cidade: abastecimento e cotidiano em Campinas, 1859 – 1908. Campinas: Editora da Unicamp. 384p.
MARTINS. Valter. (1996). Nem senhores, nem escravos: os pequenos agricultores em Campinas, 1800 – 1850. Campinas: CMU/UNICAMP. 176p.

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