Coleção Memória de Campinas

Memory of Campinas (SP, Brazil) Collection Books.

Por Duílio Battistoni Filho – historiador, professor. Titular da Cadeira Nº 6 do IHGG Campinas.

Aprendemos em nossa vida prática que Memória é a faculdade de lembrar e conservar estados de consciência passados e tudo quanto a eles está relacionado. Sem Memória, a pessoa não se reconhece e deixa de existir.

O historiador tem a tarefa de construir a consciência histórica, principalmente quando nossa época está marcada pela desagregação das certezas, pelo fim das ideologias, pela violência, pela crise dos costumes. Portanto, cabe a ele resgatar a história e os pontos positivos da cultura de uma comunidade, como é o caso de Campinas.

Cada geração se preocupa com a memória dos acontecimentos de seu lugar. Quantas recordações com a morte de nossos avós que nos ensinaram a conduzir pelos caminhos e atalhos da vida? As lembranças que ouvimos de pessoas idosas têm assento nas pedras da cidade, presentes em nossos afetos mais do que podemos imaginar. Vide Marcel Proust e a recuperação do tempo perdido.

Na memória política, os juízos de valor intervêm com mais insistência, na medida em que o indivíduo julga e reafirma sua posição. Campinas, como as demais cidades coloniais, proveio do trabalho duro do machado, das derrubadas, da enxada e do fogo, cavando e aplainando o terreno para o começo de um mundo novo. Assim nasceu uma economia de subsistência, sendo o tropeiro, o aventureiro e o agricultor os grandes atores.

As condições concretas da vida urbana se apresentavam não só extremamente modestas como problemáticas. A identidade não era, pois, constituída dos padrões coloniais. Somente no Império, com os recursos das lavouras canavieira e cafeeira e, na República, com suas ideias positivistas, trouxeram a Campinas a modernidade e a organização disciplinada do espaço, de acordo com os ideais burgueses. Da conjunção da cidade rural com a urbana nasceram os sonhos de grandeza. Ainda persistia um certo atraso, mas uma elite estava engajada em um projeto de prosperidade. Além dos serviços públicos, ponto nodal que coloca a cidade como um problema e que se desdobra nas questões técnicas e sanitárias, essa elite pensava também sob um ângulo estético.

Nos primeiros tempos republicanos, a cidade passou por uma série de dificuldades como a febre amarela, o tracoma e a gripe espanhola, que aleijaram e ceifaram vidas preciosas, e a pobreza, que determinava as péssimas condições de saúde, educação e cujos habitantes moravam em sórdidos cortiços. Em vista disso, posturas municipais procuravam apagar esses indícios.

Entretanto, nos anos 1920, Campinas apresentava sinais de desenvolvimento, fazendo com que aparecesse um grupo de intelectuais advindos das camadas médias urbanas, extremamente preocupados com a cultura local, o analfabetismo e o descaso com a formação da mulher. São tantos personagens a destacar, como os fotógrafos Austero Penteado e Geraldo Sesso Júnior, os jornalistas Júlia Lopes de Almeida, Álvaro Ribeiro e Júlio de Mesquita, os poetas Orlando Carpino, Apolônio Hilst, Aristides Monteiro e da poetisa Aída Venere, dos escritores Hildebrando Siqueira e Rodrigues de Abreu. Enfim, são tantos nomes a destacar nesse sutil panorama destinado a abrir a Coleção Memória de Campinas, do nosso Instituto Histórico, que me perdoem as omissões.

O progresso da cidade foi notável quando se implantaram, nos anos de 1950, várias indústrias de grande porte e de capital estrangeiro, que modificaram profundamente as características do parque industrial campineiro, fazendo com que a cidade progredisse com transformações urbanas.

Na verdade, podemos dizer que a cidade leva no seu caudal de lembranças, correndo sobre o mesmo leito, acontecimentos notáveis, instituições e organizações públicas, empresas privadas, monumentos, edifícios e personagens que a sociedade precisa rememorar.

Com esses retábulos históricos, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas está no firme propósito de levar a história campineira para as ruas e as praças da cidade. Alguns projetos já foram realizados, como a homenagem ao centenário da morte dos operários na greve geral de 1917, diante dos mausoléus do Cemitério da Saudade; o pedido de tombamento do muro da Rua Guilherme da Silva, o último remanescente edificado do antigo stadium da avenida Júlio de Mesquita, um moderno parque esportivo que funcionou de 1922 a 1931 e foi demolido para dar lugar a empreendimentos imobiliários de alto padrão; ou a singela homenagem ao menino herói da guerra paulista de 1932, o escoteiro Aldo Chioratto, que morreu como mensageiro dos revolucionários paulistas no bombardeio da força aérea comandada por Getúlio Vargas, nas proximidades da atual Estação Cultura, a antiga estação de trens da Cia. Paulista de Estradas de Ferro.

A gestão do presidente Fernando Antônio Abrahão frente ao Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico inaugura, com o volume Crimes e Criminosos da Campinas Cafeeira: 1880 a 1930, a Coleção Memória de Campinas, uma série de livros destinada a dar vazão aos estudos sobre diversos matizes da nossa sociedade, oferecendo esses conhecimentos ao debate. Decerto, esta novíssima Coleção dará, também, um novo ânimo intelectual para quem vive esses tempos de memórias e histórias viajando nas nuvens e na Internet.

2 comentários

  1. Excelente. Tenho muito interesse em estudar mais profundamente a instalação dessas empresas na década de 50. Vou entrar em contato em breve. ABS, Isabela.

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