Arquétipos da Sexualidade Feminina em Pedro Nava – Megeras e Donzelas-mortas

Archetypes of Female Sexuality in Pedro Nava – Megeras and Dead-maidens.

Por Cecília Prada – jornalista e dramaturga, (prêmio Esso de Jornalismo / Reportagem, em 1980).

Nota do Editor: Além de premiada jornalista, Cecília Prada também é ficcionista e dramaturga, autora de 16 livros, entre os quais O Caos na Sala de Jantar (1978 – 3 prêmios literários) e Sou mulher, logo, não existo (autoficção). É efetiva da Academia Campinense de Letras e simpatizante do IHGG Campinas.

Quando, após 70 anos de uma vida dedicada principalmente à medicina, o mineiro Pedro Nava lançou em 1972, pela pequena editora Sabiá do Rio de Janeiro, um míssil literário chamado Baú dos Ossos, foi imediatamente reconhecido como escritor maior por um grupo de amigos da mocidade – encabeçado por Carlos Drummond de Andrade, que via nele uma lição esmagadora, enquanto Otto Lara de Rezende não hesitava em chamá-lo de livro fundador…que sozinho dá notícia de uma cultura, mais importante para a literatura brasileira que Marcel Proust para a cultura francesa.

Hoje, passados 35 anos de sua morte de sua trágica morte  – suicidou-se em 15 de maio de 1984, poucos dias antes de completar 81 anos –  os sete volumes de suas Memórias  permanecem como legado ímpar que permite tanto o desfrute de seu valor literário como o acesso a um inigualável cabedal de informações históricas, científicas, sociológicas e políticas – um desentranhamento da nacionalidade, da formação social e cultural do país, no período abrangido entre meados do século XIX e as décadas de 1940/50.

A sua, é uma memória crítica, que verruma o passado para questioná-lo, compreendê-lo, uma memória nunca complacente – lúcido instrumento que vai buscar uma colossal galeria de personagens minuciosamente descritos, vibrantes de paixões, paradoxos, cacoetes, grandeza e mesquinharia… dos quais diria: São como peças complexas de um puzzle, intrincadas, difíceis de enclavinhar, abarbadas, duras de combinar mas que, afinal engrenadas umas às outras, compõem a paisagem humana que quero descrever.

Nada melhor, portanto, para nos dar uma visão abrangente do caráter essencialmente falocrático da sociedade brasileira, que parece ter estabelecido no curso de nossa História apenas uma grande conversa entre homens – com a recorrente, e inquietante, passagem de personagens femininos ao fundo, apenas. Já dizia, na década de 1920, uma de nossas mais antigas feministas, Maria Lacerda de Moura : No Brasil temos vivido a civilização unissexual, a mulher não passou de espectador no cenário da vida.

Do colossal conjunto memorialístico de Nava ressalta um à vontade de ires e vires, de companheirismo desde a tenra infância, desde o tempo dos internatos (lugar por excelência da violência e do apartheid masculino), de relações pessoais ou profissionais, de amizades, amor, ódio, ressentimentos, competição – mas somente no mundo dos homens, que é a face aparente da sociedade, o lado direito do intrincado tecido da nacionalidade. Para a mulher, o lugar da sombra e do mistério, do incompreendido, o avesso do bordado – imprescindível, mas tão pouco olhado.

Em uma entrevista a Maria Aparecida Santilli, Nava confessou que se falou pouco de sua vida amorosa nas Memórias, foi por ter sido sempre muito tímido, com  poucas ligações, poucos amores até me casar (o que se deu aos 43 anos), e que isso se devia a um grande desgosto sentimental que tivera, um fantasma proibidor de uma amada que morreu. Dois arquétipos da sexualidade feminina aparecem muito bem delineados no painel traçado, realmente assombrando persistentemente sua vida afetiva e sexual e fornecendo elementos para uma análise dos processos fundamentais do inconsciente masculino, coletivo, da nossa cultura. São eles: a mulher-forte (megera) e a amada-morta.

Duas mulheres impossíveis, inatingíveis, colocadas em polos aparentemente opostos  mas na realidade muito semelhantes – quase duas faces de uma mesma moeda.

Exemplo de mulher forte (antes, terrível) é sua avó materna, a mineira da gema Maria Luísa da Cunha Pinto Coelho Jaguaribe, Inhá Luisa, matriarca mais temida que amada e que viveu entre 1847 e 1913. Na síntese do neto: Minha avó Maria Luísa, que foi mãe admirável, sogra execrável, sinhá odiosa para escravas e crias, amiga perfeita de poucas, inimiga não menos perfeita de muitas e corajosa como um homem – era de boca insolente e bofetada fácil. Te quebro a boca, negra. E quebrava. Em pleno século XX  mandava cultivar varas de marmelo cruéis como chicotes, pois  não tomara conhecimento do 13 de maio e chegava a ratamba não só nas suas crias como nas empregadas assalariadas.

Mas envelhece amargamente, feia, solitária, desleixada, avarenta, indiferente e distante. Mesmo assim – diz Nava – tinha uma autoridade imanente, uma imposição natural e uma majestade espontânea que me fascinavam. O menino abrigado sob a sua sombra dos oito aos dez anos, seguia-a como um cachorrinho casa a dentro, ou pela chácara, até o dia em que teve a primeira ideia de ter penetrado psicologicamente uma pessoa, tê-la adivinhado completamente – estava formado nele o escritor, assumido somente seis décadas mais tarde.

Contrapartida extrema da mulher forte e concreta (Inhá Luísa é apenas uma das várias que descreve) é a imagem recorrente da donzela-morta que de quando em quando se enfia pelas suas lembranças – belíssimas e imaculadas virgens adolescentes, santinhas de cera ceifadas na flor da vida e preservadas para sempre na sua qualidade de inatingíveis. A morte na infância e na mocidade era, claro, um elemento constante em tempos anteriores à penicilina e de precários recursos médicos – morria-se de uma simples infecção, de tifo, de coqueluche, de apendicite, sem contar a ceifa da epidemia de gripe espanhola, em 1918.

É desta última que o escritor extrai a sua melhor imagem de donzela morta – Nair, uma sua parenta, belíssima, que deveria casar-se logo mas que, colhida pela epidemia, transforma-se apenas no jacente de uma Noiva de mármore. No arquétipo capaz de causar no adolescente Pedro um frisson de reconhecimento inconsciente – olhando para um dos dois espelhos venezianos do salão onde velavam a jovem, ele vê que um reproduzia o outro e os dois repetiam numa cripta imensa de cada lado da sala, dez, vinte, cem, mil, undesmil virgens mortas cujos rostos iam se cavando e arroxeando na medida que progredia o dia.

Mas há mais – vinte páginas antes, ao falar de Nair viva, saudável e jovial, o escritor já a prende em um imperativo estatuário característico do imaginário romântico. Descreve-a feita com a amplitude da estatuária clássica e diz que poderia subir num pedestal, pois era amada por todos os homens da casa – dos meninos aos adultos – por ser a um tempo una e múltipla, antepassada e descendente, materna, fraterna, filial, consanguínea e bem amada. Capaz de ressurgir da cova, intacta e mumificada cinco anos depois da morte, porque fora preservada por uma camada petrificada de lama – e diz o escritor, fechando-a para sempre na condição ideal de bela incorruptível, a estátua de mármore tornara-se estátua de bronze.

Há mais, muito mais a ser estudado nessa simples passagem – como acontece em cada episódio das colossais Memórias. No aprofundamento (que não cabe aqui) da série completa de virgens-mortas-impossíveis da sua obra  encontramos uma das mais explícitas ilustrações da antinomia santa/pecadora, anjo/demônio, que vem assombrando, séculos afora – até hoje – o imaginário da sociedade patriarcal, e conflituando o relacionamento homem/mulher. Affonso Romano de Sant´Anna analisou bem em O canibalismo amorosoessa persistência do amor pela mulher-morta, na literatura romântica. A mulher ideal, justamente porque impossível, eterna, imobilizada, incapaz de expressão, de vontade, de exigência – a mulher-objeto por excelência, objeto de um desejo cerebrino, masturbatório e também ele natimorto.

No entanto, no penúltimo volume das Memórias, O Círio Perfeito, Nava, já encarnado em definitivo no personagem de seu alter-ego José Egon, conta outro episódio da série donzela-morta – e desta vez, mesmo mascarando-a com tintas de idealização e trocando o nome real por um Lenora saído diretamente da famosa morta de Poe, dá-nos uma personagem que é viva, concreta. É real o trauma sofrido pelo jovem médico  Egon (Pedro) quando, em Belo Horizonte, lhe chega a notícia do inexplicável suicídio da amada, no Rio. Somente 47 anos mais tarde, por intermédio de um primo de Lenora, inteirou-se da verdade: ela se matara por estar condenada a viver somente mais uns poucos meses. Tinha leucemia e, diz o escritor, quando viu que a moléstia ia desfigurá-la, aviltar-lhe o corpo maravilhoso e a cabeça divina – retirou-se em beleza e foi ao encontro dos deuses seus irmãos. Note-se que mesmo em relação a essa moça, a única de seu meio social que tenta namorar, aliás namoro platônico conforme a época e partilhado com outros adoradores, o adjetivo que usa é divina – a iniciativa da aproximação fora dela e ele mantém-se o tempo todo deslumbrado pela sorte de ter sido escolhido por quem era nem mais nem menos a coisa mais insigne e admirável e peregrina da cidade, mas torna-se incapaz de agir e viver plenamente a relação . Contenta-se em descrever a série de perfeições da amada, vendo transparecer nela a máscara das heroínas trágicas : Seria Antígona, Electra ou Jocasta de cabeça divina… com um pescoço de coluna grega – só que viva.

Como impossível, nebulosa e distante, nos transmite também a figura de sua mãe, Diva, cujo apelido era sintomaticamente Sinhá Pequena – em comparação com a sinhá grande que era a terrível avó. Mulher corajosa, feminina, Diva inventava mil recursos, culinários ou artesanais, para manter os quatro filhos. O Narrador das Memórias entremostra-a apenas, mal esboçada, ao fundo do cenário. Ela se encaixa no culto à mãe, ou marianismo, analisado por Gilberto Freyre como elemento ideológico essencial do imaginário masculino brasileiro – mais uma, a principal mulher impossível da nossa cultura.

Possíveis, numerosas, descritas à exaustão, são em compensação as prostitutas que entretêm todos os machos, na sagração orgiástica normal da sociedade – não há na literatura brasileira elementos melhores que os de Nava para estudo da vida sexual dupla, costumeira tanto para rapazes solteiros como para sisudos chefes de família, os pilares da sociedade, e aceita passivamente pelas moças e senhoras da boa sociedade, sob o olhar complacente da Santa Madre Igreja.

Esse grande homem que foi Pedro da Silva Nava, ao revelar (ou não revelar) os refolhos da sua sexualidade, da sua timidez diante da mulher, atribuída à desilusão com a noiva morta, e, de outro lado, escancarar até detalhes ridículos ou obscenos suas orgias em bordéis, seu desfrute das negrinhas empregadas (autorizado e encorajado pelo sistema familiar), expõe até o âmago o homo brasiliensis do seu meio e da sua época – um ser complexo, dividido, contraditório. Feito de silêncios, sombras, tradição e privilégios, e também de sofrimento e frustração.

Para remate: – perpassam, porém, ao fundo da memorialística naviana, algumas vagas, mal-esboçadas sombras femininas, admitidas contra a vontade, parece, como se fossem meras figurantes de terceira fila do grande espetáculo do século XX. Alguns tipos de mulheres diferentes, reais, que se firmavam com identidade própria, emergindo da máquina patriarcal e buscando a custo uma colocação própria no mundo,  nos quadros profissionais masculinos. Em raríssimas passagens o escritor dá conta dessa modificação – registra que naquele ano de 1926…uma certa liberdade feminina começava a apontar, mas identifica-a exclusivamente com as mudanças da moda, vinha de trás, com os cabelos à la garçonne. Gasta meia página nos detalhes de cabelos, decotes e modelos copiados das divas do cinema, para depois dizer apenas começava-se timidamente a conversar nos portões com as amadas ou a abordá-las rapidamente nas ruas.

Em outra passagem, porém, deixa passar uma informação surpreendente: a existência de universitárias do sexo feminino já na turma de seu pai, formado em medicina no Rio de Janeiro em 1901. Descrevendo um dos docentes daquela Faculdade, diz: …ficava furioso quando via saias, que a Medicina, no seu entender, era profissão de macho. Quando tinha alunas, trocava-lhes o sexo, dando-lhes nomes masculinos.

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