Artistas Campineiros na Semana de Arte Moderna de 1922

Campineiros Artists in the Modern Art Week of 1922 (Brazil).

Por  Lucas Camargo da Silva – historiador e genealogista. Cadeira nº 44. 

O modernismo que atingiu São Paulo e Campinas nas primeiras décadas do século passado foi gerado por contrastes e contradições de uma visão de mundo cujos padrões de comportamento se transformavam desde aproximadamente 1870, quando várias inovações técnico-científicas passaram a ser aplicadas na economia, na ocupação do espaço urbano, resultando em bem-estar sócio-cultural e na proeminência político-economia da elite paulista.

Conhecido inicialmente como um regionalismo paulista, o movimento que deu às letras pátrias algumas obras primas aplaudidas em todo o país, foi descrito pelo escritor José Maria Bello, naquela época, como um movimento efêmero como todas as modas (BELLO, 1959, p.319).

Os críticos em geral, que comparavam o movimento literário de São Paulo e a literatura nacional com as fontes de pesquisa de que se serviam, não conseguiam, naquela altura, elucidar as verdadeiras tendências literárias de São Paulo moderno. Acreditavam no êxito incontestável de alguns livros inspirados na ambiência regionalista, como Urupês, de Monteiro Lobato, Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral, e estabeleceram que essa escola é que assegurava a hegemonia literária de São Paulo no país.

Decerto, no meio das fábricas e arranha-céus, sob um céu fuliginoso de chaminés e máquinas, fez-se a revolução intelectual de 1922. O Teatro Municipal de São Paulo quase veio abaixo, abalado de aplausos e apupos, entre gritos rebeldes ou reacionários. E discutiu-se a Semana de Arte Moderna como se discutia uma queda de gabinete nos países parlamentaristas. A cidade das fábricas foi, também, a cidade dos livros. Discutiram-se cotações, mas teorias da arte. Produzia-se o café, mas escrevia-se, pintava-se, esculpia-se. Havia os apitos de fábricas, e as músicas de grandes artistas.

Tivemos, inicialmente, o futurismo, que foi uma espécie de quebra do padrão, com a morte do soneto, dos períodos rebuscados, dos discursos ramalhudos, dos deuses da Grécia e dos filólogos e acadêmicos preocupando a classe culta com acontecimentos notáveis de fatos diversos. Iniciaram-se as experiências cubistas, dadaístas, surrealistas, expressionistas. Um gosto acentuado para análises e generalizações. Cultura nova, sob novas bases. Sentimento mais profundo de humanidade, de nacionalidade, de raça, valores. Início de uma nova concepção de país: brasilidade com sentido novo. Curiosidades despertando, senso de descobertas, anseio de independências, inquietudes, enfim.

A propósito do evento que se realizou na noite de 15 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a pianista patrícia Guiomar Novaes dirigiu aos patrocinadores da Semana de Arte Moderna a seguinte carta:

Em virtude do caráter bastante exclusivista e intolerante que assumiu a primeira festa de Arte Moderna, realizada na noite de 13 do corrente, no Teatro Municipal, em relação às demais escolas de música, das quais sou intérprete e admiradora, não posso deixar de aqui declarar o meu desacordo com esse modo de pensar. Senti-me sinceramente contristada com a pública exibição de peças satíricas, alusivas à música de Chopin. Admiro e respeito todas as grandes manifestações de arte, independente das escolas a que elas se filiem, e é de acordo com esse meu modo de pensar que, acedendo ao convite que me foi feito, tomarei parte num dos festivais da Semana de Arte Moderna.
Com toda a consideração, (a) G. Novaes.
São Paulo, fevereiro de 1922. (NOVAES, 1922).

Embora não nascida em Campinas, Guiomar Novaes (1894-1979) mantivera aqui laços fraternais, frutos de suas noitadas musicais no Clube Semanal de Cultura Artística, ao lado do campineiro João Baptista de Castro Ferraz, exímio afinador de pianos e irmão do mecenas Antônio Benedicto de Castro Mendes. Este último era tio por consanguinidade de José de Castro Mendes, colaborador da revista A Onda (1921-24), um periódico campineiro com proposta modernista (embora não totalmente), e que contava com a figura de Manolo Romano (1895-1955), caricaturista e chargista crítico aos olhos sensíveis de Campinas.

Outro campineiro que se destacou nessa altura foi Antonio Carlos Couto de Barros (1896-1966), neto da benemérita Maria Umbelina Alves Couto, idealizadora e fundadora do Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora. Oriundo da Semana de Arte Moderna, tem seu nome em quase todas as revistas modernistas da época: Klaxon, Estética, Revista do Brasil, Terra Roxa, Outras Terras e Revista Nova. Mário de Andrade, o artista da Paulicéia Desvairada,o evocou na conferência de 1942 sobre o movimento modernista:

É o filósofo da malta, Couto de Barros, pingando ilhas de consciência em nós, quando no meio da discussão, em geral limitada a bate-bocas de afirmações peremptórias, perguntava mansinho: Mas qual é o critério que você tem da palavra essencial? ou: Mas qual é o conceito que você tem do belo horrível? (ANDRADE, 1942, p.32).

É como conta Manuel Bandeira, na crônica de 7 de dezembro de 1955, da Flauta de Papel:

Um belo dia desapareceu da literatura só não; há vinte anos estou sem notícias dele e tenho pena, pois é das criaturas mais encantadores que já conheci. (BANDEIRA, 1957, p.100).

Guilherme de Andrade Almeida (1890-1969), campineiro da gema, poeta de maior sucesso popular, obtido aos 27 anos, com Nós (1917), a que se seguiram dois anos depois Messidor e A Dança das Horas e logo o Livro de Horas de Soror Dolorosa (1920) e Era Uma Vez (1922). Mais do que uma espécie de Paul Géraldy era, por sua arte de alta sofisticação, poeta da estirpe de um Amado Nervo. Graça Aranha citara as suas Canções Gregas (que comporiam A Flauta Que Eu Perdi, 1924), mas ao tempo da Revista Estéticao poeta, que viera ao Rio de Janeiro casar e morar, já, dentro da mesma requintada técnica do verso livre, se voltara para a sua terra e seu tempo. Em 1925, deu-se três livros definitivamente modernistas: Meu, Encantamento Raça. Mário de Andrade fez a crítica de Meu. Neste primeiro dos três livros com que ideou plasmar a sua precisão de nacionalidade, pela terra, pelo pensamento e pelo amor, mais do que olhou, amou a terra em que nasceu.

Annita Catharina Malfatti (1889-1964) é um nome definitivamente colocado na história da arte brasileira e que tomou papel saliente na Semana de Arte Moderna. Original e corajosa, foi ela antes de qualquer outro quem deu o grito de alarme, avisando a existência de uma arte contemporânea nascente. Quanto a isso, tem-se a polêmica, talvez superada, entre Lasar Segall e Annita derivada da atribuição de títulos. Isso foi em 1915, quando ela teve a coragem inconcebível de expor obras expressionistas dela, a quem juntara alguns trabalhos cubistas de pintores norte-americanos. Sabe-se, principalmente, que abandonou todo e qualquer modernismo tendencioso e berrante, se contentando simplesmente em ser moderna. Disse ela:

Conto lhe, pois, um pouco da minha pintura. Continuo trabalhando livremente sem seguir escola nem professor algum. Estou, portanto, bem dentro da minha época. Não me preocupo com originalidade. Isso vem por si. Procuro dentro da composição simples e equilibrada máximo de sutileza na qualidade da cor. Tento conservar e desenho os valores sempre juntos e severos. Explicaria melhor dizendo que todo lirismo do meu trabalho está na cor. É na cor que sempre busco dizer o que mais me comove. Na composição a forma e os volumes estão sujeitos às leis da ciência da pintura. Meus quadros não são coisas do acaso. Resolvo todos os meus problemas com antecedência. Depois executo rápido. Quando me deixo levar pela tentação do improviso é um não mais acabar de desesperos e dúvidas.” (MALFATTI, 1928)

Esta bonita citação de carta indica a seriedade com que Annita Malfatti trabalhava e onde podemos buscar suas tendências pessoais. Seu pai, o italiano Samuele Malfatti, republicano, fugindo de perseguições dos monarquistas, veio para Campinas, por volta de 1880, e aqui, teve importante participação política e social. Inicialmente, foi empregado da Companhia Mogyana de Estradas de Ferro e depois trabalhou como empreiteiro e começou a construir, em 1883, o Circolo Italiani Uniti, atual Casa de Saúde de Campinas.

Annita não nasceu em Campinas, pois sua família se exilara em São Paulo, em busca de salvaguardar a vida da febre amarela. Era sobrinha-neta da professora alemã Caroline Mary Caterine Krug Florence, esposa de Hercules Florence e proprietária do Colégio Florence, onde sua mãe Eleonora Elizabeth Krug Malfatti estudou.

Em carta dirigida ao Diário Nacional, datada de 18 de novembro de 1927, um leitor faz uma crítica:

Os esforços de modernização de Annita Malfatti, o sacrifício que ela fez com as exposições dela, de nada valem. Di Cavalcanti, Gomide foram inúteis. A estilização brasileira de Tarsila passou em branca nuvem. O divertidíssimo salão da Semana de Arte Moderna não converteu ninguém. Ou por outra: não desconverteu ninguém. Os pintores continuam religiosíssimos e fazem questão de ganhar o reino dos céus. E infelizmente já muito se sabe o que é o reino dos céus destes pintores: entrar para as galerias bocós dos novos ricos mais ignorantes que paralelepípedos e receber de entrada uns bons cobres financeiros. Pintura no Brasil é uma religião comercial. (Diário Nacional, p.2)

Não posso esquecer o lituano Lasar Segall, ofuscado na Semana de 22, mas que em 1913 realizou uma mostra nos salões do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas (CCLA), e que, juntamente com aquela realizada em São Paulo no mesmo ano, são consideradas as primeiras exposições de Arte Moderna no país. Detinham muitos campineiros obras suas, como, entre outros, o médico e político Celso da Silveira Rezende e o benemérito Sallustiano de Camargo Penteado.

Outro aspecto a ser destacado é o início de um processo de compreensão dos elementos modernos de sua obra, a partir da crítica de Campinas, sem dúvida mais bem informada que a de São Paulo. Os críticos campineiros perceberam que os erros do impressionista não deviam ser desculpados – como fizeram seus colegas paulistanos – mas ressaltados como qualidade de expressionista. Além disso tudo, foi grande o número de artistas brasileiros que visitaram suas exposições.

Outro campineiro, o violoncelista Alfredo Gomes, formado em Bruxelas e filho do maestro e compositor João Pedro de Sant’Anna Gomes (1834-1908), tomou parte, juntamente com Fructoso de Lima Vianna, Ernani Braga, Lucília Villa-Lobos e Paulina d’Ambrósio, dos festejos musicais da Semana de Arte Moderna.

Nos bastidores também estava a mulher de fibra, Olívia Guedes Penteado (1872-1934), afilhada do Barão e Baronesa de Jaguara e descendente do fundador de Campinas, Francisco Barreto Leme do Prado (1702-1782). Na sua infância, Olívia, que morava defronte ao Largo da Matriz Velha, avistava os presos da Cadeia Velha (atual monumento-túmulo de Carlos Gomes) e foi testemunha de eventos que ali ocorreram. Amante das artes, reunia toda semana intelectuais da época, como pintores, escritores, escultores, poetas, como os supracitados e outros mais que participaram da Semana de 22. Sua casa em São Paulo foi construída por Ramos Azevedo e em seu túmulo há uma escultura do modernista Brecheret, além de ter sido tia de Yolanda Penteado, mais tarde Matarazzo, que organizou a primeira Bienal de São Paulo.

Tarsila do Amaral (1886-1973), que participou da efervescência do movimento, era sobrinha de Anna Leonízia do Amaral Camargo, esposa de Cândido Ferreira (homenageado com seu nome dado ao Hospital Psiquiátrico), este filho do Barão de Itatiba, Joaquim Ferreira Penteado.

Muitos campineiros ainda poderiam ser citados. É o caso de Alfredo Gustavo Pujol, que aqui se casou, em 1891, com Áurea Salles e, por muitos anos, esteve à frente de jornais desta cidade. Além de Paulo Prado e Martinho Prado, da velha aristocracia bandeirante, e que em Campinas possuíam terras na região Sul, hoje loteada e batizada com o sobrenome da família, Parque Prado.

Coube-me neste breve artigo acolher esses campineiros de envergadura e trazer à baila fatos ora esquecidos.

Referências bibliográficas

ANDRADE, Mário de. (1942). O Movimento Modernista. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil.
BANDEIRA, Manuel. (1957), Flauta de Papel.Rio de Janeiro: Alvorada.
BELLO, José Maria. (1959). História da república (1889-1953). 4 ed. São Paulo: Nacional.
LEITOR. (1927). Diário Nacional: A democracia em marcha. São Paulo: Ano I, n. 110.
MALFATTI, Annita. (1928). São Paulo: Diário Nacional, 11 de fevereiro de 1928.
NOVAES, Guiomar. (1922). Correio Paulistano: n. 21. 056, 15 de fevereiro de 1922.
PRADO, Paulo. (1997). Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. 8. ed. São Paulo: Companhia das Letras.

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