A Contribuição dos Poetas da Inconfidência Mineira para a História do Brasil

Contribution the Inconfidência Mineira Poets to the History of Brazil.

Por Ivanilde Baracho de Alencar – poetisa, escritora. Titular da Cadeira Nº 10 do IHGG Campinas.

Há homens que nasceram em rebanhos, seguindo as idéias de um guia, e há homens que vieram ao mundo para gritar aos ventos o nome de sua liberdade. (Paulo Bomfim).

Através dos séculos, a Conjuração Mineira de 1789 há de manter viva a força e a coragem de Tiradentes, que jamais desaparecerá do coração dos brasileiros. A comemoração cívica de 21 de abril será sempre um ato de verdadeira justiça à memória do inesquecível mártir do absolutismo português. Seus descendentes foram declarados infames, destruíram-lhe a casa e salgaram o chão, porém seu sangue derramado ensinou aos brasileiros a morrer pela liberdade. Tiradentes, com seu grandioso e forte espírito e seu coração leal e bem formado, participou da alegria dos conjurados poupados do suplício da morte. Achava que só ele deveria ser castigado e que morria feliz por não levar consigo os homens que desencaminhara.

Os homens que participaram da Conjuração Mineira pertenciam a três níveis: os ativistas, os ideólogos e, em número maior, os que possuíam interesses a defender. O principal representante dos ativistas foi o alferes do Regimento dos Dragões de Minas, Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes. Os ideólogos eram representados por homens ricos, donos de ótimas bibliotecas com relevantes informações sobre o Iluminismo, e de sólida formação cultural. Eram eles o cônego Luís Vieira e os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Inácio José de Alvarenga Peixoto. Seriam esses os encarregados da elaboração das leis e da constituição do novo estado. No terceiro grupo estavam os contratantes e seus fiadores, gente devedora de grandes somas ao Tesouro Real. Além do traidor Joaquim Silvério dos Reis, João Rodrigues de Macedo, Domingos de Abreu Vieira, José Aires Gomes, Vicente Vieira da Mota, Dr. José Álvares Maciel e Luiz Alves de Freitas Belo.

O programa elaborado pelos inconfidentes expressava os interesses do variado grupo e espelhava-se na independência norte-americana. Se os impostos sobre o papel selado, o chá e o vidro haviam concorrido para a emancipação das colônias americanas, a cobrança dos quintos em atraso poderia conduzir Minas Gerais e talvez o Brasil à desejada independência.

Reuniam-se os conjurados na casa de Cláudio Manuel da Costa, em Vila Rica, hoje Ouro Preto, e ali projetaram as leis que comandariam os destinos da futura República, cuja capital seria São João del-Rei. A bandeira da nova República seria branca, com um triângulo azul, branco e vermelho ao centro, com um índio quebrando os grilhões. Sobre o triângulo, a famosa frase do poeta Virgílio nas Bucólicas: “Libertas quae sera tamen” (Liberdade, ainda que tardia). Seria instalada uma universidade em Vila Rica, implantadas manufaturas em todas as capitanias, criação de uma casa da moeda e uma fábrica de pólvora; perdoadas as dívidas para com a Fazenda Real; incentivos ao nascimento de crianças; permissão aos padres das paróquias para recolher dízimos, com a condição de manterem escolas, hospitais e casas de caridade. A ausência do Exército seria permanente. Todos os cidadãos portariam armas e serviriam na milícia nacional, quando necessário. Tomás Antônio Gonzaga governaria o país nos três primeiros anos e, após esse período, haveria eleições anuais. Em cada cidade seria instalado um parlamento, todos eles sempre subordinados ao da capital. As reuniões eram freqüentes e foram inúmeras, em especial na casa de Cláudio Manuel da Costa e também na varanda da casa de Gonzaga. Participavam dessas tertúlias seus primos Alvarenga Peixoto e Joaquim Antônio Gonzaga, o padre Luís da Silva, o naturalista Joaquim Veloso de Miranda, os intendentes Francisco Pinto Bandeira e Luís Beltrão de Gouveia, os doutores Diogo de Vasconcelos e Tomás Belo.

Para o enriquecimento desse ambiente de homens ilustrados, contribuiu o talento poético de Tomás Antônio Gonzaga, talento que avultou quando ele, em pleno outono da vida (38 anos), conheceu a adolescente Dorotéia de Seixas (15 anos), a quem cognominou de Marília. A partir de então passou a viver o apaixonado Dirceu:

Noto, gentil Marília, os teus cabelos;
e noto as faces de jasmins e rosas;
noto os teus olhos belos,
os brancos dentes e as feições mimosas;
quem fez uma obra tão perfeita e linda,
minha bela Marília, também pode
fazer os céus e mais, se há mais ainda.
Marília, de que te queixas?
De que te roube Dirceu
o sincero coração?
E tu, Marília, primeiro
não lhe lançaste o grilhão?
Todos amam, só Marília
desta lei da Natureza
queria ter isenção!

E continua a poesia de celebração amorosa:

Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fatos da sábia, mestre História,
e os cantos da poesia.

A 10 de outubro de 1783, assumia o governo de Vila Rica o capitão-general Luís da Cunha Menezes, num ambiente extremamente tenso devido a exploração dos minérios que se tornaram escassos e aos impostos excessivos exigidos pelo insaciável fiscal português. O autoritarismo, os desmandos, a espoliação dos mineiros, o desrespeito às decisões da Justiça, agravavam ainda mais a situação. Tomás Antônio Gonzaga, como ouvidor geral da cidade, com frequência via suas decisões desrespeitadas. Opôs-se ao governador e contestou bravamente seus atos junto aos superiores. Finalmente, em carta, relatou à rainha todo o despotismo de Cunha Menezes.

À indignação crescente ele uniu seu talento poético e escreveu o famoso poema satírico, as Cartas chilenas, em número de 13. Cauteloso e evitando riscos, fez que o poema circulasse na clandestinidade, com o pseudônimo de Critilo. Cunha Menezes, o Fanfarrão Minésio, e Joaquim Silvério dos Reis, o Silverino, foram duramente criticados e satirizados em seus desmandos e abusos. O poeta Critilo dirigia-se ao amigo Doroteu como se os acontecimentos se passassem no Chile.

Houve retaliações e Gonzaga foi acusado de tirar proveito financeiro de suas sentenças judiciais. Na época desse conflito, Gonzaga recebeu do pai de Marília, o Dr. Bernardo da Silva Ferrão, a permissão para o casamento. Corriam os meados de 1787, e um ano antes fora Gonzaga elevado ao cargo de desembargador da Relação na Bahia. Recusando-se a ficar distante da musa e noiva, ele retardava essa transferência.

A Conjuração Mineira não passou dos planos. Joaquim Silvério dos Reis e mais outros devedores da Fazenda Real conseguiram o perdão de suas dívidas com a denúncia do movimento, em março de 1789, ao governador de Vila Rica, o Cunha Menezes, já sagrado visconde de Barbacena. O governador suspendeu a decretação da Derrama, a cobrança de todos os impostos atrasados, fato com o qual os inconfidentes contavam para o insuflamento da população local. Foram presos os principais implicados e instaurada a devassa que permaneceu por quase três anos. Cláudio Manuel da Costa suicidou-se na prisão e Tiradentes foi enforcado. Os outros sofreram degredo para a África.

As veias estão esgotadas e os poetas são obrigados a transformar seu sangue em palavras. (Paulo Bomfim).

A desgraça surgiu para Gonzaga com a acusação de conspirar contra o governo. Foi preso em 21 de maio de 1789. Dessa tragédia pessoal restou a marca indelével a Gonzaga, um dos nossos maiores poetas. Na masmorra, com a caneta de graveto de laranjeira, ele expande o sofrimento e a dor nas suas liras:

Nesta sombria masmorra,
aonde, Marília, vivo,
encosto na mão o rosto,
fico às vezes pensativo.
Ah! Que imagens tão funestas
me finge o pesar ativo!
Parece que vejo a honra
Marília, toda enlutada;
a face de um pai, rugosa,
num mar de pranto banhada;
os amigos macilentos,
e a família consternada.
Um frio suor me cobre,
lassam-se os membros, suspiro;
busco alívio às minhas ânsias,
não o descubro, deliro.
Já, meu bem, já me parece
que nas mãos da morte expiro.

Gonzaga, prisioneiro, foi enviado para a fortaleza de Ilha das Cobras e, durante os interrogatórios, insistiu sempre em sua inocência. Não deixou de escrever a sua dura e triste experiência servil de constante tema poético nos seus versos.

Em outubro de 1791, foi transferido para outra prisão na Ordem Terceira de Santo Antônio. Contava, ainda, com um círculo de amigos e, graças a eles, a primeira parte das liras de Marilia e Dirceu foi publicada em Lisboa, em 1792. Nesse mesmo ano, veio a sentença de degredo em Moçambique. Fora comutada sua pena anterior mais severa. Bem recebido em Moçambique, onde chegou em meados de 1792. Estava endividado.

Graças aos seus conhecimentos jurídicos, tornou-se indispensável ao ouvidor daquela colônia. Ganhou dinheiro como advogado e também com o comércio de bebidas. Casou-se com a herdeira de uma grande fortuna, a analfabeta Juliana de Sousa Mascarenhas. Em 1806, voltou ao cargo oficial de procurador da Coroa e da Fazenda. Em 1809 alcançou o posto de juiz da Alfândega.

Gonzaga faleceu em 1810, quando já se tornara um poeta famoso com as edições de Marília de Dirceu, alcançando grande sucesso, com traduções para o francês e o italiano. Com base na edição francesa, o poeta russo Aleksandr Púshkin traduziu uma das belas liras de Gonzaga.

Marília permaneceu inconsolável e solteira, e nem ao menos despediu-se do noivo amado. Faleceu em 1853, aos 85 anos, em Ouro Preto, a mesma cidade que a viu nascer.

É da natureza do amor ser refém do destino. (Zaygman Bauman, em Amor perfeito).

Inácio José Alvarenga Peixoto era casado com a digna e nobre mineira D. Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, a primeira figura de mulher que surge em nossa história, numa insurreição puramente republicana. Era loucamente idolatrada por Alvarenga Peixoto, sobre quem exercia forte influência. Foi ela a dedicada e incomparável colaboradora do marido nos planos da Conjuração Mineira.

Alvarenga Peixoto foi um dos últimos a ser preso. Taciturno e recluso, foi dominado por vis idéias e furtava-se ao convívio familiar. Bárbara adivinha seus intuitos e resolve interpelá-lo. Embora vacilante, Alvarenga Peixoto confia na sua dedicada esposa e narra-lhe a catástrofe iminente e a única salvação: a denúncia. Desesperada, ela suplica-lhe que enfrente a tirania e poupe a família da mancha da delação. Alguns dias depois, Alvarenga foi preso, algemado e conduzido ao Rio de Janeiro. Nas sinistras masmorras da Ilha das Cobras, ele escreve o belo poema:

Bárbara bela,
Do norte estrela
Que o meu destino
Sabes guiar.
De ti ausente
Triste somente,
As horas passo
A suspirar.
Por entre penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar.
Porém não vejo
Mais que o desejo,
Sem esperança,
De te encontrar.
Eu bem queria
A noite e o dia,
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa,
Sorte invejosa,
Desta fortuna
Me quer privar.
Tu entre os braços
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar.
Priva-me a estrela
De ti e dela:
Busca dois modos
De me matar.

Alvarenga Peixoto, após quase três anos aguardando o término do processo, foi condenado ao degredo temporário na África. A sentença declarava infame sua prole e isso fez com que a valente Bárbara Heliodora mergulhasse no desânimo e na desolação, e ela submergiu numa loucura pacífica. Sorria, cantava e recitava os versos que o marido lhe enviara do exílio. E foi assim que morreu a intrépida mulher inconfidente.

Destarte, vamos perpetuando um fato relevante da história do Brasil.

Referências bibliográficas:

BOMFIM, Paulo. Colecionador de minutos. São Paulo: Ed. Gente, 2006.
CABRAL, Veiga. História do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Livraria Francisco Alves. 1941.
MACHADO, Duda. Marília de Dirceu e Cartas chilenas. São Paulo: Ed. Ática, 2001.
NADAI, Elza e NEVES, Joana. História do Brasil, 20ª ed. São Paulo: Ed. Saraiva, 1997.

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