Sarah Bernhardt, o mito, em Campinas

Sara Bernhardt, the Legend, in Campinas (SP, Brazil).

Por Jorge Alves de Lima – advogado, historiador. Titular da Cadeira Nº  42 e ex-presidente do IHGG Campinas

Era palpitante a vida artística de Campinas no último quartel do século XIX, e a presença, aqui, de Sarah Bernhardt, a genial artista francesa, movimentou os meios sociais.

Em 2 de junho de 1886, a cidade tomou conhecimento de que a extraordinária atriz se apresentaria no final de junho e início de julho, em São Paulo, levando peças de seu repertório, como: Fedora, Dama das Camélias, Frou-Frou e Adriana Lecouvreur.

Dada a qualidade de ser a sua cidade a capital agrícola da Província de São Paulo, os campineiros contrataram a artista para levar ao Teatro Carlos Gomes, no dia 4 de julho, a aclamada peça A dama das Camélias, garantindo-lhe, como cachê, a alta soma de 7 contos de réis.

A notícia alvoroçou a comunidade. Os anúncios do grande evento foram inseridos nos jornais, destacando-se o publicado no Diário de Campinas, aqui reproduzido:

Teatro São Carlos: A Volta do Mundo de Sarah Bernhardt – direção de Enry E. Abbey e Maurice Grau – Empresa C. Chiacchi – hoje domingo 4 de julho – primeira e única representação da célebre artista Sarah Bernhardt com o drama em cinco atos de A. Dumas Filho: A Dama das Camélias, às 8 horas em ponto. Os bilhetes em casa dos Srs. João Azevedo e Comp. até às 11 horas do dia.

No dia do esperado espetáculo, o Diário de Campinas, em seu artigo de fundo assinado por Alberto Sarmento, saudou Sarah Bernhardt assim:

Campinas vai hoje apreciar a encarnação mais brilhante do gênio, da arte e do talento; vai extasiar-se diante da perfeição absoluta de uma artista genial e portentosamente sublime; vai conhecer a mais extraordinária das intérpretes da arte dramática em todas as suas manifestações; vai ter a suprema felicidade de aplaudir Sarah Bernhardt. A vinda da eminente artista a esta cidade, além de nos ser extremamente agradável, é duplamente honrosa, porque prova que o nosso público não poupa sacrifícios quando se trata de apreciar tudo o que há de mais notável. Ver e aplaudir espontaneamente a enorme artista é um dever que se impõe a toda pessoa de bom gosto: vamos, pois, cumprir hoje o nosso dever aplaudindo a rainha da arte e do talento. (sic)

O trem trazendo Sarah Bernhardt e sua companhia teatral chegou a Campinas no final da manhã. Uma multidão se aglomerou na estação para receber a artista. A colônia francesa local, significativamente urbana, colocou ali a banda musical de Azarias de Mello, tocando a Marselhesa. Quando ela desceu da composição, foi aplaudida, conversou com os seus compatriotas, autoridades, cidadãos, depois tomou a carruagem aberta e, no caminho, foi ovacionada pelo povo que se postou nas ruas para vê-la passar. Seguiu para o restaurante La Ville de Florence, de Dário Pisani, onde lhe foram preparados os aposentos para descansar.

A apresentação estava marcada para as 20h30. O Teatro São Carlos estava literalmente ocupado. Sarah Bernhardt, vivendo o papel de Margarida Gauthiert, protagonista da peça A Dama das Camélias, demonstrava o seu talento artístico. Assim escreveu o Diário de Campinas:

Logo que ela entrou em cena, foi saudada com uma prolongada salva de palmas. Depois (…) Margarida Gauthier revelou-se como nunca se revelara para os espectadores. Sarah Bernhardt encarnou-se naquela personagem de Dumas Filho: a princípio alegre e despreocupada; depois, amorosamente e terna, mais tarde, vertendo lágrimas e sacrificando-se inteiramente por aquele que ama; finalmente, sublime na dor — de morte tão real e verdadeira, que o espectador sente-se comovido em todo o seu ser. Uma artista como Sarah Bernhardt não pode descrever-se em qualquer de suas criações vê-se e admira-se. Descrever as cenas em que ela se apresenta e os prodigiosos recursos artísticos de que ela tem o segredo é impossível. Ao terminar cada ato, Sarah Bernhardt, por muitas vezes, foi chamada à cena e intensamente aplaudida e aclamada com as seguintes exclamações: prodigiosa! maravilhosa! esplêndida! monumental! Dos camarotes e das plateias foram-lhe atirados muitos ramalhetes de flores (sic).

O espetáculo repercutiu intensamente. Aqueles que assistiram jamais se esqueceram da sua interpretação, do seu lindo olhar e de como a atriz francesa conquistou a plateia. Findo o espetáculo, a atriz, após uma ligeira refeição no restaurante La Ville de Florence, partiu em trem com toda a sua companhia, à 1h30 do dia 5 de julho de 1886, para São Paulo, onde outro trem especial a conduziria à cidade do Rio de Janeiro.

Referência bibliográfica:

LIMA, Jorge Alves de. Crônicas de Campinas, séculos XIX e XX. Campinas: Komedi, 2011.

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