Estelinha Epstein e a biografia que não foi escrita

Estelinha Epstein and the biography that was not written.

Por Rubem Costa – educador e jornalista. Titular da Cadeira Nº 20 do IHGG Campinas.

Exatamente a 11 de novembro de 1937, rasgando outra vez a Constituição que, por decorrência da revolução de 32, fora outorgada ao Brasil em 34, o mesmo Getúlio Vargas viria impor à nação o abjeto Estado Novo. Regime político de exceção de que resultou a suspensão de todos os direitos e garantias individuais. Instante trágico a zombar da nacionalidade inquieta, quando foi criado o famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que, dirigido por Lourival Fontes, tinha por função, entre outras: superintender a propaganda nacional, interna ou externa, fazer censura do Teatro, do Cinema, de funções recreativas e esportivas, da Radiodifusão, da Literatura e da Imprensa.

Quem bem define as agruras impostas à imprensa e às artes é Mário Erbolato, advogado formado na primeira turma de Direito da PUC-Campinas (1952-1956), e jornalista diretor da sucursal de O Estado de S. Paulo e diretor de redação do Diário do Povo – à época, meu companheiro de redação nesse periódico. Em trabalho publicado na revista Comunicarte (Ano II, nº 4), Erbolato recorda que, além do processo penal porventura cabível e artificialmente engendrado, o DIP aplicava duras penalidades de suspensão do exercício profissional, apreensão de exemplares, fechamento das oficinas, entre outras.

Mas, vivíamos a resistir de qualquer forma e a sociedade preparava orgulhosamente os festejos do bicentenário de Campinas, cuja dubiedade já foi por mim explicada no artigo anterior: As lindas pernas de Carmem Miranda.

A euforia dominante levou os organizadores a requestar a presença da pianista campineira de fama internacional, Estelinha Epstein. Virtuose aos dez anos, em 1924, já se apresentava com Orquestra – Concerto de Mozart – no Teatro Municipal de São Paulo, quando foi contemplada com bolsa de estudo na Europa, concedida pelo então presidente do Estado, Washington Luiz.

estelinha
Na Alemanha, Estela Epstein estudou com Arthur Schnabel, considerado o maior interprete de Beethoven da primeira metade do século XX. Em 1933, quando da ascensão do nazismo. Estelinha já era nome consagrado na Europa. Acontece, entanto, que sendo ela de origem judia, passou a ser objeto de restrições por parte da polícia de Hitler, circunstância que a obrigou a cancelar importantes apresentações já programadas. Segundo notícias correntes na época, só escapou da prisão graças à intervenção do embaixador Osvaldo Aranha, que providenciou seu retorno ao Brasil. Esse incidente, revestido de saga, ampliou na época o prestígio de Aranha nas lindes pianísticas. A ocorrência teve ampla repercussão porque o Embaixador fora o único integrante do governo a discordar da implantação do Estado Novo, em 1937.

A vida, entanto, velha e caprichosa mestra, ensina sem ninguém pedir, quando menos se espera. Foi assim que, ao mesmo tempo em que destrambelhava a ética e agredia a moral, Getúlio descobriria a grandeza do aforismo eterno: não há regra sem exceção.

Quando em 1940, fugindo ao nazismo, Emil Ludwig veio ao Brasil, já trazia no rol de obras consagradas as biografias de Goethe, Napoleão, Lincoln, Bismarck e Bolívar, além do célebre Jesus der Menschensohn considerado pela crítica como o maior de seus livros.

Dando curso a sua ilimitada ambição política, Vargas vislumbrou na presença do escritor ilustre a possibilidade de ser também incluído no elenco das grandes figuras internacionais. Picado pela mosca azul, não se pejou. Ele, que flertava com Hitler e editara em 1937 a trágica Polaquinha, arremedo de constituição (copiada da Carta polonesa) que restringia os direitos políticos e a liberdade de expressão, recebeu o semita festivamente no Palácio Catete, sede do Governo, na vaidosa expectativa de alcançar o privilégio de uma biografia de âmbito internacional que o tornasse famoso no exterior.

Não contava, entanto, com a presença de um traço de caráter – a dignidade – que lhe era estranho, mas latente no escritor que, na caminhada pelo mundo, já residira na Suíça e vinha então dos Estados Unidos da América com uma visão plena de democracia. Assim, trazia por intenção conhecer o Brasil e sondar, até por auto-segurança, as tendências atuais daquele contraditório ditador multifaces que, em 1935, desbaratara a intentona comunista com auxílio dos integralistas e, em 1937, destrambelhara os camisas verdes, amigos de ontem, mandando deportar Plínio Salgado, Miguel Reali e Gustavo Barroso para garantia de sua sobrevivência política.

Ardilosamente, Ludwig começou por indagar se o presidente tinha inimigos.

Vargas respondeu com seu inefável sorriso: Inimigos? Não sei se os tenho. Mas se os tiver, não serão jamais tão inimigos que não possam vir a ser amigos.

Dúbia e artimanhosa, a resposta cínica era a definição da amorfa política vigente no Brasil. Na culinária de princípios heterodoxos, Getúlio assinava ali sua amoral receita de governar sem ética: prendendo, corrompendo. Solução ambígua, mas convincente.

Trocava entre si os extremos da proposição difundida por Machiavel, onde os fins justificam os meios. Na alternativa, a primeira hipótese era instantânea: solucionava o problema da inimizade com a polícia de Filinto Miller cuidando de adversários recalcitrantes, a quem não era dada sequer a possibilidade de olhar para traz, a exemplo do episódio bíblico da mulher de Ló – que virou sal.

Na segunda suposição, firmada no princípio cínico de que é dando que se recebe, ampliava o prestígio com a corrupção, aumentando progressivamente a Côrte de uma intelectualidade bajuladora, tornando mais cômodo pelo suborno governar sem crítica, ganhando aplauso.

Sobejamente conhecedor do método heterodoxo, Ludwig, que na grande obra – Jesus, Filho do Homem – já confrontara (no topo do Getsêmani) a humanidade e a divindade de Cristo, entendeu facilmente a mensagem. Nela, à sombra de uma ameaça, se continha a proposta indecorosa do suborno. Infenso à corrupção, o escritor sorriu.

Desdenhoso, despediu-se, irônico, deixando um cartão com seu nome semita na mão do ditador desolado. E se foi, sem escrever a sonhada biografia. Por precaução e repugnância. Naquele exato momento, já se sabia que, presa pela polícia de Filinto Miller, Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, judia, sem o devido processo legal, estava sendo recambiada à Alemanha para gáudio dos beleguins de Hitler e náusea do escritor.

Referência bibliográfica:

COSTA, Rubem. Bicentenário de Campinas: a saga que a cidade amou, 1739-1939. Campinas: Komedi, 2013.

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