O Café do Povo

The Café do Povo.

Por Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado e escritor. Titular da Cadeira Nº 3 do IHGG Campinas.

Muitos dos meus primeiros textos foram concebidos entre as mesas do saudoso Café do Povo, citado no short paper anterior do colega Jorge Alves de Lima. O Café do Povo era um espaço que, no ângulo em cujas extremidades ainda hoje resistem o Eden Bar e o Giovanetti, à noite reunia, como os dois outros bares, intelectuais, estudantes, aspirantes a cineastas ou a guerrilheiros, e até mesmo simples mortais que não aspiravam mais que consumir canecas e canecas de chope.

Entre os frequentadores nenhuma mulher, visto que então não se concebia pudessem elas estar em semelhantes lugares, reduto exclusivo de homens. Por isso, não foi sem causar geral perplexidade que, determinada noite, uma miúda prostituta ali ousasse entrar, inconscientemente rompendo uma convenção. Foi, de imediato, alvo das chacotas mais cruéis, até ser retirada do recinto (mais tarde ainda a veríamos bem em frente, no Largo do Rosário praticando, possessa, um strip-tease, cercada das zombarias e dos aplausos sarcásticos de toda uma legião de notívagos).

O Café do Povo instalava-se no piso térreo de um prédio histórico, o sobrado senhorial que o Visconde de Indaiatuba, um dos principais cafeicultores de São Paulo, mandara construir em meados do século XIX. Mais tarde também serviu como sede do ativo Clube Campineiro, onde, em 1901, ocorreria a fundação do Centro de Ciências, Letras e Artes.

Depois que o Café do Povo fechou suas portas, ali funcionou um estabelecimento comercial, no ramo de tecidos. Um incêndio destruiu o edifício em 1994. Tombado pelo Conselho do Patrimônio Artístico e Cultural, o imóvel teve as fachadas e o telhado reconstruídos para abrigar uma casa de jogos eletrônicos, Bingo e, atualmente, é a sede de um cartório.

O desaparecimento do Café do Povo, culminando com o incêndio que reduziu o interior do prédio que o abrigava em cinzas, de certa forma lhe conferiu uma dimensão mítica, simbolizando, de resto, a demolição que a própria cidade sofreu ao longo dos anos, destruindo preciosos exemplos da arquitetura do período imperial e do início da República.

Essa dimensão que procuro recuperar nas páginas do livro de 2002, que têm como título o próprio nome do Café. Mostra o personagem sentado à mesa de um Café desaparecido, que rememora um tempo de sua vida enquanto aguarda a improvável chegada de antigos companheiros. O herói da novela empreende uma viagem no tempo, retrocede aos anos de 1960 quando, no mesmo local, se reunira a três ou quatro amigos. Transitando entre um ano e outro, vai desfiando alguns temas obsessivos: a inquietação sexual, a militância política, os mecanismos da sedução, a angústia existencial – até o desfecho final, amargo e irônico como todos os desfechos.

Duas partes que integravam o contexto, sob as formas de um roteiro cinematográfico e de um conto que interrompiam o curso da narrativa, foram desentranhadas, na presente versão, e adquiriram vida própria, já sob a forma autônoma de dois apêndices – Flagelação e Dor do Anacoreta Antenor e A Sedução do Exemplar Cidadão, sem quebra, espera-se, da unidade, eis que têm ambos a ver com um dos temas recorrentes do texto principal, o da sedução.

Referência bibliográfica:

BORGES, Luiz Carlos Ribeiro. O Café do Povo. Campinas: Komedi, 2002.

cafe dp povo

4 comentários

  1. Prezado Fernando

    Bom dia!

    Consigo esse livro do professor Luiz Carlos Ribeiro Borges? Pois meu tio Nassim Moisés foi o proprietário do Café do Povo e tenho interesse de conhecer essa história contada por ele.

    Abraços

    Odair Alonso

    Curtir

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