A Informação no Cenário Contemporâneo

Information in the Contemporary World`s Scenario.

Por Marcel José Cheida – professor de jornalismo PUC Campinas. Titular da Cadeira Nº 42 do IHGG Campinas.

A sociedade da informação ou do conhecimento – e de consumo – apresenta paradoxos que se perpetuam e se disseminam em inúmeras disciplinas que se esforçam para encontrar respostas em favor da redução do conflito entre a capacidade econômica de adquirir bens e a disponibilidade monetária que expressa a identidade social para muitos. Nessa diferença, o discurso e os condicionantes mercadológicos procuram homogeneizar comportamentos de modo a estabelecer um modelo social viável e favorável ao consumo.

Nesse cenário, a produção, a oferta e a distribuição de informações adquiriram um potencial nunca visto. Ao mesmo tempo em que a sociedade tende a estabelecer um sentido comportamental homogêneo para o consumo, enfrenta a pluralidade de fontes de informações amparadas em indivíduos ou grupos de indivíduos operadores das tecnologias digitais.

Se considerarmos que cerca de 4 bilhões de indivíduos no planeta dispõem de um aparelho celular, resulta que todos eles podem alimentar o sistema em rede, multiplicando exponencialmente as informações e dados. A questão é: como conviver com tanta informação?

Homogeneização e oferta exponencial de informações oriundas de fontes diversas, multiplicadas pelo fator indivíduo combinam-se, num cenário de intensa complexidade e contradições. Como tratar desses fatores por meio da Ética, de modo a buscar respostas que possam satisfazer questões básicas dos costumes ou da moral que se contamina pelo modelo egoísta de sociedade?

O domínio dos meios de comunicação ao longo da história é uma síntese dos controles sociais. Dizer e não dizer constituem dois polos discursivos que condicionam práticas sociais de modo a manter as estruturas de dominação.

A população no planeta cresce cerca de sete vezes. No início do século XX, registrava-se um bilhão e meio de habitantes. Ao final, na virada do milênio, são pouco mais de sete bilhões de habitantes. O aumento exponencial da população compromete o consumo de alimentos, amplia a desertificação, acentua os conflitos entre povos em torno de territórios ricos em matéria prima e solo para cultivo. E, o mais grave, a disputa em torno das áreas aquíferas.

O cenário é agravado por um aspecto político e econômico: a concentração de riqueza. De acordo com dados divulgados pela ONG britânica Oxfam, no Fórum Mundial Econômico, Davos, janeiro de 2016, 1% da população (cerca de sete milhões de pessoas) detém 48% da riqueza.

Não apenas os economistas ou políticos se envolveram em tais temas. Essas questões contaminam as mais diversas instituições focadas no desenvolvimento. Num esforço para participar dos grandes problemas da contemporaneidade, até mesmo o Papa Francisco redigiu e divulgou uma encíclica que, pela primeira vez, debruçou a Igreja Católica sobre um tema de extrema atualidade: as condições ambientais do planeta. Entender tais fenômenos implica em considerar os fatores sociais da desigualdade.

Em perspectiva exclusivamente material, ou econômica, a combinação da concentração de riqueza com a devastação da natureza resulta em uma perspectiva nada esperançosa para o curto e médio prazos de tempos que se acenam extremamente graves. A discussão de tais fatores e de como avaliá-los numa nova narrativa que indique a superação de tais obstáculos depende de suportes para um debate orientado por processos educacionais que busquem valorizar a profunda reflexão sobre um projeto de sobrevivência da espécie como parte inexorável do sistema planetário. É nesse cenário que as tecnologias digitais condicionam comportamentos e novas formas de organização da sociedade, de modo a exaltar os recursos midiáticos como ferramental decisivo para uma economia que consiga conviver com as profundas diferenças sociais. Pois é pela mídia que o sistema consegue expandir a homogeneização consumista.

O controle sobre as mídias e a informação é o desafio maior dos conglomerados corporativos, que se orientam pelas doutrinas liberais do mercado. Na concepção denominada de neoliberal, formulada como a radicalização da liberdade econômica, encontra-se a ideia da neutralidade do mercado. Para um dos expoentes dessa doutrina, Friedrich Auguste von Hayek, o mercado é um ser natural perfeito do qual não se pode exigir moralidade. A frase compõe a análise de Caio Costa sobre os efeitos nas relações comunicacionais de um mercado monopolista que projeta a desigualdade sobre o controle da mídia e dos processos comunicacionais.

Costa busca no norte-americano Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de Economia o modelo da assimetria da informação. Para o economista, as pessoas sabem mais ou menos conforme a área na qual atuam e se especializam. Stiglitz fez os estudos no campo dos fluxos econômicos e financeiros, para demonstrar a disparidade ou a não-igualdade entre os agentes econômicos no trato da informação. Para Costa, no universo da comunicação há quem detenham mais ou menos informações e essa diferença projeta quem detém maior ou menor poder sobre um sistema.

Assim, as corporações ou os agentes de poder buscam pesquisar, controlar e distribuir os conteúdos por meio dos suportes ou plataformas midiáticas, o que lhes dá um poder incomensurável sobre os fluxos de informação e seus efeitos. Ocorre que o controle padece de fragilidades gritantes. Os agentes que criam, desenvolvem e manuseiam a Tecnologia da Informação por meio das linguagens e sistemas digitais também selecionam, priorizam ou descartam informações e dados. Ou seja, agem técnica e ideologicamente para oferecer os conteúdos.

Nesse universo paradoxal, aquele ser de memória exógena e estimulado para a alienação digital, é submetido por aquele que detém os processos e suportes midiáticos. Assim, as informações são distribuídas também assimetricamente, e reforçam o estado de desigualdade que se projeta no aparato econômico. À medida que a desigualdade econômica e midiática estão casadas, os cônjuges são, de fato, os que acumulam um poder pouco visto na história da humanidade.

À concentração de poder, surgem e são amplificados – em contraponto – os valores éticos que indicam a reação social. Compartilhar, interagir a gratuidade e a criatividade comum, ou coletiva, sugere a presença de uma moral que Costa intitula de provisória no exercício do Jornalismo, mas que contamina toda iniciativa em torno do universo digital. Acessar e descartar são condutas rotineiras que embutem a moral provisória, pois a ação não mais busca definir o caráter ou a respeitabilidade social, mas apenas a exposição momentânea do sujeito e um instante virtual. A visibilidade imediata se sustenta na presentificação, no tempo presente absoluto, no qual o passado se encontra na memória exógena e o futuro é o aqui e o agora. Assim, os fatos ou as coisas nunca são completos nos relatos que deles se apoderam e são distribuídos pelas redes. Há, então, uma permanente perplexidade sobre o mundo, inacabado, fragmentado, pois a oferta de informações e opiniões é, geralmente, inconclusa, incompleta.

E as informações produzidas e distribuídas decorrem não de um processo crítico, reflexivo, de constatação, verificação sobre as fontes ou processos que geram fatos e assuntos. A informação predominante nas redes trata de impulsos emocionais, conforme já detectado por Zygmunt Bauman, ao descrever o modo de socialidade que se distingue da sociabilização.

Se a socialização é delineada no tempo, sempre visando o tempo que ainda não existe, a socialidade, por mais que durem as formas que gera, vive totalmente no presente. Se a socialização é um processo cumulativo, apoiando-se em realizações de ontem para alcançar o alvo de amanhã, a socialidade é plana, tudo a um só nível, movendo sem mudar de lugar, começando a cada momento novo; diversamente da socialização, a socialidade não tem nenhuma biografia e interrompe, antes que ‘faz’, a história. (p. 182)

A planificação do mundo social se dá na rede, na qual um sujeito em Tóquio troca informações com sujeitos em outros locais ao mesmo tempo, em um espaço comum, a internet. A socialidade é, para Bauman, a troca de impulsos emotivos, amparados por sentimentos e não reflexões ou abordagens críticas, cognitivas. O que é partilhado é o sentimento, portanto, numa troca de afetos e desafetos, mesmo sob os valores de compartilhamento, colaboração, interatividade etc.

Se a rede oferece a sensação de proximidade entre as partes, e também de ubiquidade, pois eu posso estar em vários lugares ao mesmo tempo por meio dos terminais (desktop, tablet, smartphone), é a munição emocional que trafega e expõe a expressão dos indivíduos. A alteridade é consumida e desidratada nas relações digitais, nas quais o indivíduo e sua intensa subjetividade abarca o todo e afoga o outro no oceano emotivo, afetivo. É a liquefação proposta por Bauman (2001) é metáfora adotada por vários círculos acadêmicos para descrever as relações inconstantes, fluídas e incertas ocasionadas pela rotulada pós-modernidade, que abrange os avanços tecnológicos.

A fluidez, frente ao celerado processo de inovações tecnológicas, condiciona, portanto, comportamentos instáveis, reconfigura a cultura em tempos mais breves, estanca o sentimento de estabilidade e amplia a ansiedade da informação.

E, por sinal, esse tema tem sido muito debatido desde os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América, em 2016, e recentemente no Brasil.

Referências bibliográficas:

BAGDIKIAN, Ben. O monopólio da mídia. São Paulo: Scritta Editorial, 1993.
BAUMAN, Zygmunt. Ética pós moderna. São Paulo: Paulus, 1997.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Paulus, 2001.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CASTELLS, Manuel. A galáxia internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2003
COSTA, Caio T. Ética, jornalismo e nova mídia: uma moral provisória. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
DUPAS, Gilberto. Ética e Poder na Sociedade da Informação. São Paulo: Editora Unesp, 2000,
GLEICK, James. A informação – uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
INNIS, Harold A. O viés da comunicação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
SANTAELLA, Lucia. Comunicação Ubíqua: repercussões na cultura e na educação. São Paulo: Paulus, 2013.
SILVER, Nate. Por que tantas previsões falham e outras não. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

cropped-arquivo-escaneado-17.jpeg

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s