O Misterioso Fim de Nhá Biana

Who killed Carlos Gomes’s Mother?

Por Carlos Alberto Marchi de Queiroz – professor de direito e escritor. Titular da Cadeira Nº 43 do IHGG Campinas.

Na manhã fria e nebulosa de 26 de julho de 1844, uma sexta-feira, um cadáver de mulher foi encontrado em uma das trilhas do Largo do Jurumbeval, em Campinas. Ela fora morta na noite anterior, a tiro e punhaladas. A vítima era Fabiana Maria Cardoso Gomes, de 28 anos, segunda esposa e terceira mulher de Manuel José Gomes, o Maneco Músico, de 51 anos, mestre-de-capela da Matriz Velha, atual Basílica do Carmo.

O local corresponde, hoje, à quadra que fica à frente do Mercado Municipal. Durante muitos anos a autoria do crime ficou envolta em mistério. Na época não havia imprensa em Campinas, nem fotografia. A cidade tinha polícia, delegado, promotor e juiz municipal.

No último trimestre de 1916, o jornalista Benedito Octávio publicou pela primeira vez, na Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), as circunstâncias trágica da morte da mãe do famoso maestro Antonio Carlos Gomes. O autor, mesmo referindo-se a Manuel José Gomes como suspeito principal, levanta corajosamente uma segunda hipótese. O assassino teria sido um escravo, a mando de uma rica fazendeira, cujo marido se apaixonara perdidamente por Fabiana, mãe de José Pedro de Sant’Anna e Antonio Carlos, de 10 e 8 anos, respectivamente.

Em 1936, no Centenário do nascimento do maestro, alguns escritores retomaram a investigação. Odécio de Camargo levantou uma terceira hipótese. Fabiana teria sido seduzida por um riquíssimo jovem, filho de família importante. Após encontrar-se com ela no fundo do quintal da casa de Maneco, na Rua das Flores, hoje Rua José Paulino, nº 1222, o assassino a matou e desapareceu.

Ainda em 1936, Jolumá Brito, pseudônimo do radialista da PRC-9 Rádio Educadora de Campinas, João Batista de Sá, revelou que Maneco provara, no transcurso do inquérito, mediante álibi, que no momento do crime ele jogava cartas com amigos em uma casa de tavolagem na Rua de Baixo, hoje Rua Lusitana. A testemunha chave era um irmão do marido de sua filha casada, Marciana, do seu relacionamento com Anna Thereza de Jesus Garcia, sua concubina e segunda mulher. O musculoso, violento e ciumento mulato afastava a acusação de crime passional, para desespero da perícia policial.

Ítala Maria Vaz de Carvalho, filha de Carlos Gomes, no mesmo ano levanta a quarta hipótese. Fabiana teria sido vítima de um latrocínio no quintal da casa que fazia frente para a Rua da Matriz Nova, atual Rua Regente Feijó, nº 1251. Na noite enluarada de 25 de julho, a linda mestiça de cabelos negros foi despertada por ruídos produzidos por ladrões que queriam se apoderar da valiosa rabeca de Maneco. Ao defender o patrimônio do marido músico, na presença dos meninos, foi morta com um tiro e punhaladas.

Em 1970, o jornalista e escritor Geraldo Sesso Junior, ampliou a segunda hipótese, sustentando que o assassino fora um escravo. Deixou escrito que Mestre Tito de Camargo Andrade, ex-escravo alforriado pelo capitão-mor Floriano de Camargo Andrade, intercedeu junto à riquíssima baronesa de Campinas, depois viscondessa, dona Maria Luzia de Souza Aranha, esposa de José Egidio de Souza Aranha e mãe de Joaquim Egidio de Souza Aranha. Mestre Tito, idealizador e construtor da Igreja de São Benedito, pediu à baronesa que comprasse a liberdade de seu amigo, o escravo Francisco Chico Zuanda, pertencente ao riquíssimo coronel Arouche Rendon, do Largo dos Curros, atual Praça da República, em São Paulo.

Alforriado, Zuanda chegou a Campinas, ainda uma pequena cidade de oito mil habitantes, no anoitecer de 25 de julho de 1844, sendo detido na manhã seguinte, perto do corpo da mãe de Carlos Gomes. Tinha em seu poder três valiosíssimas moedas de ouro, conhecidas como Dobras, com valor de 12.800 réis cada, cunhadas em homenagem à declaração da maioridade de Dom Pedro II, em 1841. Nessa mesma noite de 26 de julho, Chico Zuanda foi retirado da antiga Cadeia Pública, onde se encontra hoje o monumento-túmulo do maestro. A seguir, ele foi torturado e morto a pauladas no porão da casa grande de uma fazenda abandonada, no bairro do Chapadão.

Em 1994, 150 anos após o crime, Rubem Fonseca, ex-comissário de polícia, atribui novamente a autoria do crime a Maneco Músico no livro O Gênio da Ópera. Porém, na pressa de escrever um roteiro televisivo, não aproveitado e depois transformado em livro, cometeu dezenas de erros crassos. Atribui a paternidade de Tonico, o nosso maestro, a um tal de Manuel Gomes da Graça… Afirma que o crime aconteceu no dia 26 de julho de 1848…

O cartorário Jolumá Brito assegura que houve inquérito, infelizmente desaparecido. André Rebouças, Taunay e o Juiz Guimarães Junior, amigos íntimos e biógrafos do maestro Antonio Carlos Gomes, não tocam no assunto. Decorridos 174 anos, é muito delicado indigitar alguém. A morte é causa extintiva da punibilidade, pois todos os mortos tornam-se coisa sagrada.

Referências bibliográficas:

QUEIROZ, Carlos Alberto Marchi de. Quem matou a mãe de Carlos Gomes? Se sa minga. 2a Edição. Campinas: Pontes Editores, 2018.
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Um comentário

  1. Na Padaria Nossa Senhora de Fátima, aqui no Taquaral, trabalha o amigo Valter Rampazo casado com uma descendente direta de Carlos Gomes. Na residência dele (muito próximo à Padaria) existem algumas recordações de família sobre Carlos Gomes. Caso haja interesse do Professor Carlos Alberto tenho a certeza que o Sr. Valter e espôsa terão disponibilidade para responder perguntas, contribuindo assim para a história de Campinas. Parabéns pelo didático artigo! Paulo Espíndola Trani O e-mail do Valter é valrampazo@gmail.com ________________________________

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