Os Anos de Chumbo

The Hard Years.

Por Odair Leitão Alonso – jornalista, escritor. Titular da Cadeira  5 do IHGG Campinas.

Sim, eu vivi os anos de chumbo e sofri muito com eles. Não gosto dessas lembranças e fico pasmo quando alguém fala em voltar àqueles tempos. É gente que não entende a democracia e não sabe o que aconteceu. Claro que houve aproveitadores dos dois lados. Até hoje tem gente lucrando, ganhando dinheiro com torturas que teria sofrido.

Não peguei em armas, não lutei no pantanal, mesmo porque servi ao exército e só lá atirei em toda a minha vida. Não gosto nem de caçar, não tenho armas em casa, participei da campanha do desarmamento, portanto, esperar que eu atire em alguém é o mesmo que esperar uma vaca voar.

Minha família gostava do Jânio Quadros e achava que ele daria um jeito nesse país. Mas ele acabou renunciando e deixando o país a beira do caos. A posse e as atitudes de João Goulart tumultuaram o ambiente. A inflação subia exageradamente e as greves sucediam em ritmo alucinante.

Não vou entrar em maiores detalhes e nem nos méritos das questões, embora fosse claro o interesse dos Estados Unidos da América em tomar conta do nosso imenso território, temendo uma escalada comunista. Para simplificar as coisas, nestas minhas memórias, em 1964 foi dado o golpe militar, mas o comando do país passou a ser de uma ditadura militar. Começaram as proibições, as cassaçôes de mandatos de senadores, deputados, governadores, prefeitos. A censura foi feita em jornais, televisão, emissoras de rádio, depois filmes, livros, peças de teatro, músicas, enfim tudo o que fosse relacionado a arte e a cultura nesse país.

Minha primeira grande tristeza com a ditadura aconteceu na casa de meu primo José Álvaro Moysés (o Varito), brilhante jornalista, escritor e sociólogo que na época era repórter e editor da Folha de São Paulo. Seu irmão, (meu primo, o Netinho) estava doente e internado em São Paulo, sua irmã, a Rosa Lúcia, também estava dedicada aos seus estudos e já com futuro em São Paulo. Eu ainda muito jovem fiquei sabendo da notícia: o Varito estava conversando à noite, com dois amigos, numa esquina em São Paulo, quando uma perua parou e o jogaram para dentro do carro. Ele estava preso pelo regime. Avisada, a Folha publicou em sua primeira página no dia seguinte:

Jornalista da Folha está desaparecido.

Nem é preciso dizer o que aconteceu com meu tio Nassim e minha tia Aninha. Eu estava de férias, peguei minhas coisas (tinha passado sempre as melhores férias de minha vida lá) e fui para a casa deles. Tio Nassim começou uma peregrinação por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, impetrando habeas corpus, gastando o que não tinha e sem sucesso. Eu ficava com a tia Aninha.

Cada manhã, quando chegava o jornal, ela tinha ataques de nervos, chorava muito, se desesperava, achava que o filho já estava morto:

Jornalista continua desaparecido. Ditadura não fala nada.

Eu conversava com tia Aninha, brincava, rezava junto, ajudava o tempo a passar. Fazia compras, duzentas vezes por dia. Ela estava sem cabeça para nada. Eu ia no mercadinho do seu Zé, no bairro Botafogo, perto do Campo do Mogiana e comprava ovos. Voltava e ela precisava de farinha. Mais uma vez e agora precisava de café. Eu não reclamava, sabia o estado em que ela se encontrava. Sofremos juntos. Tio Nassim só voltava à noite, quando voltava, pois às vezes ficava mais tempo lutando pelo filho. Até Dom Paulo Evaristo Arns, um santo na luta contra as torturas ajudou nesse caso.

Depois de muita pressão da Folha, o Varito foi descoberto no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo. Havia sido torturado e, de sua cela, ouviu horrorizado, durante dias e noites, os gritos de dor e desespero de outros presos políticos, que ali foram barbaramente torturados. Numa sexta-feira ele foi libertado. Falou para meu tio vir para casa, disse que iria resolver umas coisas e à noite estaria aqui em Campinas.

Meu tio veio. A alegria era geral. Promoveu uma grande festa. Convidou a família e os amigos. Tinha comida e bebida à vontade. O Varito chegou tarde, mas chegou. Festejamos, comemos, bebemos, era o sossego enfim. Passou o sábado tranquilo, mas no domingo o seu espírito de jornalista, inquieto e de esquerda, se revelou de vez deixando tio Nassim maluco, a ponto de quase dar uma surra nele. Ao chegar a Folha de São Paulo lá estava a manchete e duas páginas inteiras:

Jornalista conta tudo sobre as torturas na prisão do Doi-Codi

Era o circo dos horrores. Ratos nas prisões; mulheres nuas com assassinos cruéis. Choques nas partes íntimas, assédios; espancamentos, enfim. Para quem ainda não leu, recomendo o livro: Brasil, tortura nunca mais! Uma aula do que não deve ser feito com seres humanos.

Na verdade, o que aconteceu é que os próprios militares perderam o controle da situação. Não eram os de grande escalão que ofereciam os maiores perigos. O maior perigo morava ao seu lado. Era o vizinho, o guarda civil, um PM, um soldado do exército, qualquer um que não fosse com sua cara, até um parente te denunciava. Pior: eles não tinham que provar sua culpa, mas sim você de que era inocente. Depois de ser torturado, você dizia que até sua mãe era perigosa.

Depois entrei na faculdade e no Correio Popular ao mesmo tempo. Trabalhei com grandes nomes do jornalismo nacional e todos eram visados. O censor riscava as matérias sem dó e nem piedade. O Estadão teve a brilhante ideia de combater a censura com astúcia e, quando tinha matérias cortadas colocava em seu lugar algumas estrofes de Os Lusíadas, ou receitas de bolos. Então, o leitor já sabia: o censor tinha colocado sua mão ali.

No Correio eu cobria a Pucamp, nada mais natural, eu estudava lá, conhecia a todos, desde o reitor até os funcionários. Mas, primeiro recebi uma advertência de um professor. Não parei. Depois foi o Carlito Tontoli (meu chefe), que recebeu uma advertência mais séria. ele me chamou e disse:

– Odair, vou tirar você das coberturas da Pucamp… ordens de cima. Fazer o quê?

Um dia fui designado para uma cobertura numa cidade da região. Um importante anúncio seria feito pelo Ministro Delfim Neto. Segui com o fotógrafo e disputamos lugar com dezenas de outros jornalistas. Levei tantos pontapés nas canelas, desferidos pelos seguranças que, ao voltar para a redação, mais parecia ter participado de uma partida de futebol, onde o zagueiro me agrediu o jogo todo. Era assim na ditadura, ninguém chegava perto do presidente, nem dos ministros e muito menos perguntar. A gente até tentava, mas apanhava. Muito.

Entendi que estávamos dentro de um limite bem apertado. Que não poderíamos extrapolar em nada. E isso ficou confirmado em matérias que fiz e que relato em duas outras crônicas: a dos assassinatos de dois jovens em Pirassununga, onde os verdadeiros assassinos nunca foram presos; e outra descendo o Rio Atibaia onde muitas denúncias foram retiradas cuidadosamente para evitar maiores problemas.

Por fim, passados mais alguns anos, recebi na Robert Bosch o meu ídolo maior: Geraldo Vandré. Quase não acreditava que ia conhecer pessoalmente aquele cara. Quando ele entrou na minha sala, a primeira surpresa: ali estava um homem envelhecido, de bigode, cabelos brancos, alquebrado, e as ideias na mais completa confusão. Ele foi solicitar apoio cultural para um projeto que a Bosch nunca deu (para meu desespero).

Falei para ele:

– Vandré, sabe o que você representou para a minha juventude? O que fez por nós?

Ele abaixou a cabeça e chorou. Chorei com ele. Depois ele pediu uma folha de papel e escreveu um poema. Meio sem nexo, mas texto de Vandré. Guardo comigo e guardarei até a minha morte.

Temos muito que melhorar. Mas só aprenderemos com o tempo. Errando, votando de novo. Colocando, fiscalizando, exercendo nosso direito de opinar. Mas nunca, jamais, em regime de exceção, pois ele castra, ele impede o surgimento de novos líderes, ele deixa o país estagnado. Não conheço nenhuma ditadura que tenha dado certo.

Hoje nós votamos. Eu esperei por muitos anos para votar, não aguentava mais as indicações de governantes da ditadura.

Referência bibliográfica:

ALONSO, Odair Leitão. Sessenta crônicas de uma vida. Campinas: Komedi, 2013, 302p.Versão 2

 

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