Arcadas do Tempo: o Liceu Salesiano de Campinas, há 120 anos

Arcades of Ages: the Campinas, SP, Brazil Salesian Lyceum 120 years ago.

Por Ana Maria de Mello Negrão – professora de direito da Unisal. Titular da Cadeira Nº 25 do IHGG Campinas.

O livro agora apresentado aos leitores do IHGG Campinas foi dedicado ao centenário, em 1997, de uma instituição educativa de Campinas. Por isso e pela situação atual da Educação no Brasil, cumpre-nos refletir, embora fragmentariamente, sobre as peculiaridades da educação no Brasil – Colônia, Império e a 1ª República.

Na época colonial, a educação se concentrou nas mãos dos jesuítas até o momento em que eles foram expulsos pelo Marquês de Pombal. Esse tipo de ensino, de molde europeu, estabelecido por Portugal para submeter a elite colonial aos seus interesses, caracterizava-se como dogmático, acrítico e severo.

Após o afastamento dos jesuítas, o ensino no Brasil Colônia se fez através de aulas régias avulsas, que se limitavam ao ensino de latim, grego, filosofia, geografia, gramática, retórica e matemática, subsidiadas por um imposto literário. Mas, apesar da expulsão dos jesuítas, o Brasil não rompeu com a Igreja católica, e novas ordens religiosas vieram, posteriormente, administrar a educação em colégios.

No Brasil Império, a Assembleia Constituinte de 1823 debateu a instrução nacional. O ensino público elementar se reduziu às Escolas de Primeiras Letras, de responsabilidade das províncias. Elas ensinariam a leitura, a escrita, as operações de cálculo, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática portuguesa e a doutrina católica. Nas escolas femininas, a geometria era substituída pelas prendas domésticas.

Os professores das escolas públicas celebravam o compromisso de cultivar e ensinar a fé católica, pois, pela Constituição imperial, o catolicismo era a religião do Estado. Isso proibia que as escolas particulares defendessem quaisquer princípios opostos a essa religião. Entretanto, não havia somente o catolicismo e muitos imigrantes, como os alemães, professavam a fé protestante, bem como funcionários ingleses que aqui realizavam obras públicas.

A instrução pública, estendida a todos os cidadãos do Império, ficou apenas no texto da Lei. Na verdade, não se considerava relevante o ensino elementar, valorizando-se o ensino superior como meio de ascensão social e semeadura dos homens letrados que a nova ordem política e econômica do Império exigia.

Entre 1837 e 1838, com a fundação do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, houve a uniformização dos currículos nas províncias. Como modelo oficial de ensino no Brasil Império, esse colégio destinava-se à sociedade agrária, patriarcal e escravagista. Seu ensino caracterizava-se por ser informativo e enciclopédico. Nos moldes do Pedro II criaram-se liceus provinciais e colégios leigos e religiosos. Realizavam-se os exames de equivalência, cujas provas avaliavam a formação ministrada nas escolas não-oficiais, e assim se controlava a qualidade do ensino. Enquanto isso, políticos sugeriam que as províncias apenas investissem no ensino elementar, deixando o secundário para a iniciativa privada. Cumpre ressaltar que, na sociedade imperial, enquanto os grandes proprietários e comerciantes mandavam os filhos às escolas confessionais ou ao Pedro II, a população escrava e os mais pobres eram excluídos do sistema econômico e educacional.

No Segundo Reinado surgiu a preocupação com o ensino profissionalizante, pois já se vislumbrava o movimento pela abolição da escravatura. A sociedade brasileira passava por transformações, principalmente pelo surto migratório e o desenvolvimento industrial, trazendo consigo a urbanização. Isso acarretou um novo panorama: o surgimento de um grande contingente de pessoas não absorvidas pelas atividades comerciais e industriais. O ensino técnico-profissionalizante no Brasil teve, assim, sua gênese nas escolas para desvalidos.

A partir de 1879, os colégios e liceus que seguissem o mesmo programa do Pedro II teriam seus exames reconhecidos, se fiscalizados por inspetores públicos. Nesse mesmo ano, a reforma educacional de Leôncio de Carvalho traçou regras para o ensino primário e secundário: manteve-se a obrigatoriedade do ensino, dos 7 aos 14 anos, permitiu-se a frequência de escravos nas escolas e pregou-se a liberdade de ensino. Como consequência, proliferaram os colégios privados protestantes, principalmente os metodistas.

A Lei Saraiva, última reforma do ensino imperial, em 1881, vetou o direito de voto ao analfabeto e ao pobre, privilegiando os ricos e poderosos. Acirrou-se, assim, a discriminação social que transformou o analfabetismo em sinônimo de incapacidade e incompetência.

Até a Proclamação da República, a Igreja católica era submetida ao Estado, podendo o governo imperial nela intervir, pois as instituições eclesiásticas eram consideradas públicas e não particulares. No final do Império começou a separação entre Igreja e Estado e os padres não foram mais considerados como funcionários públicos. Em 1883 aboliu-se o juramento católico, os cemitérios tornaram-se leigos e criaram-se os cartórios de registro civil.

Nesse cenário, o Brasil entra no regime republicano (1889). A Constituição Republicana de 1891 manteve a proibição do voto ao analfabeto, a descentralização do sistema escolar, incentivou o positivismo, completou a laicização dos cemitérios e cartórios e instituiu o casamento civil.

Nessa época, as pessoas de posse frequentemente contratavam professoras particulares, em geral estrangeiras, para ensinar seus filhos, sobretudo as meninas, que deveriam dominar o francês, a etiqueta social e o piano. Outra alternativa comum eram os internatos, para onde se enviavam as crianças a fim de que se ocupassem com estudos e demais práticas educacionais.

A criação do Colégio Culto à Ciência, em Campinas, teve grande repercussão por atender ao positivismo de Augusto Comte, que não admitia ensino com influência religiosa. A proposta educativa deveria ter base científica e racional. Daí a denominação Culto à Ciência. Esta foi a primeira escola inteiramente leiga em Campinas.

O período entre 1880 e 1890 foi marcado por um gesto incomum. Foi fundada a Escola do Povo, custeada pelo Barão de Itatiba. Sob a direção do professor Joaquim de Toledo, era destinada aos filhos do povo. Passou a denominar-se, mais tarde, Escola Ferreira Penteado e restringiu-se ao público feminino. Embora o número de escolas fosse significativo, não havia acolhida aos desvalidos. A iniciativa da Escola do Povo, ao que tudo indica, só atendeu meninas.

No ano de 1889 a epidemia de febre amarela em Campinas ceifou muitas vidas e fez com que famílias abandonassem seus lares, buscando refúgios nas fazendas e municípios vizinhos. Segundo o médico e historiador Lycurgo de Castro Santos Filho, algumas casas do bairro Guanabara eram usadas como lazaretos, isto é, locais para tratar e isolar os enfermos, enquanto não houvesse hospital adequado. Crianças órfãs eram acolhidas, provisoriamente, em casas de família.

Dona Maria Umbelina Alves Couto iniciou então uma campanha para fundar uma casa de caridade aos órfãos da febre amarela, oferecendo-lhes conforto e educação. O jovem cônego João Baptista Corrêa Nery, vigário da Matriz de Santa Cruz, já havia abraçado a causa das vítimas da doença no auge da epidemia. Distribuíra a medalha benta de Nossa Senhora Auxiliadora. O cônego Nery, na sua convicção, atribuiu a melhora à intervenção de Maria Santíssima. E, assim, levando à frente o espírito de caridade, uniu-se a Maria Umbelina para realizar o projeto da casa beneficente para órfãos.

A semente lançada germinou, comoveu e moveu a população que, sem esmorecer, lutou para a consolidação da obra. Organizaram-se festas, quermesses, bingos e espetáculos teatrais. Os beneméritos, Barão e Baronesa Geraldo de Resende, Francisco Bueno de Miranda e sua esposa Amélia Alves Bueno de Miranda, doaram ao cônego Nery a área de pouco mais de 43 mil metros quadrados no bairro do Guanabara, subúrbio de Campinas, que fazia limite com as propriedades dos doadores e a estrada pública do Taquaral. O local era afastado do centro, mas muito aprazível.

A planta do edifício ficou aos cuidados do engenheiro salesiano Domingos Delpiano. É digno de permanecer na memória o dia 9 de outubro de 1892, quando lançou-se a pedra fundamental do edifício, sob os auspícios de Nossa Senhora Auxiliadora.

Ao que tudo indica, Dom Nery optou por inaugurar o Liceu, mesmo inacabado, por não estar mais em Campinas desde 23 de maio de 1897, pois fora sagrado bispo e assumira a Diocese do Espírito Santo. Precisava entregar o quanto antes a obra aos salesianos. Ademais, já havia dois salesianos para dar início às primeiras atividades e captar recursos para a continuidade da construção.

Foi um momento de júbilo. Pudéssemos penetrar no âmago do ser, veríamos dois corações inundados de felicidade e gratidão a Deus: o de Maria Umbelina e o de Dom Nery. Era o coroamento do esforço comum, da solidariedade, de todos que se empenharam naquele sonho que atingia a concretude. Com sacrifício, apoio público e doações de pessoas beneméritas, após cinco anos do lançamento da pedra fundamental, no dia 25 de julho de 1897, inaugurava-se uma parte do colégio, o Lyceu de Artes e Officios.

Nesse momento, o edifício do Liceu tinha apenas um terço da área construída: o corpo central e a lateral direita, com três andares, e a lateral esquerda, com apenas o pavimento térreo. A porta de entrada era precedida de um pórtico, cuja laje se sustentava sobre quatro pilares, encimados por três grandes arcos de estilo romano. Esse pórtico estendia-se por toda a lateral já edificada, ornado por treze arcadas apoiadas em colunas. O pé direito variava de 4,5 metros a 5,5 metros, para evitar o calor. No último andar do corpo central destacava-se o nicho de Nossa Senhora Auxiliadora e o relógio ofertado por João Engler. Igreja, revestimentos internos, banheiros, salas de aula, escadarias… quanto ainda havia por fazer!

O engenheiro Domingos Delpiano utilizou no projeto elementos dos estilos gótico e romano, numa composição caracterizada pelo ecletismo predominante na arquitetura do final do século XIX e início do século XX, fazendo o colégio assemelhar-se a construções europeias desse período.

Finalmente, no dia 27 de agosto de 1900, Dom Nery, através de escritura lavrada no cartório do 1º Ofício de Campinas, oficializou a doação do Lyceu de Artes e Officios de Nossa Senhora Auxiliadora, no valor de cem contos de réis, à Congregação Salesiana.

Referência bibliográfica:

NEGRÃO, Ana Maria de Mello. Arcadas do tempo: o Liceu tece 100 anos de história. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 1997. 220p.Arquivo Escaneado1a

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