O Centro de Ciências, Letras e Artes: 117 anos

The Center of Sciences, Letters and Arts of Campinas, SP, Brazil: Founded in 1901.

Por Luiz Carlos Ribeiro Borges – magistrado e escritor. Titular da Cadeira Nº 3 do IHGG Campinas.

Fundado em 31 de outubro de 1901, o Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) nascia das aspirações e inquietações de estudiosos e intelectuais carentes de um espaço propício às discussões. Por lhe faltar o espaço onde debater mais organizadamente as suas idéias, aquela gente, oriunda do Instituto Agronômico e do Ginásio, reunia-se à noite em pleno Largo do Rosário.

João Cesar Bueno Bierrenbach, o idealizador do CCLA viria a rememorar, um ano depois:

Era propício o instante: equiparado ao Ginásio da União, o idêntico instituto local reclamava novos catedráticos — cujos concursos vieram dar a nossa terra a animação universitária dos grandes centros intelectuais; esses colegas, os profissionais do Instituto Agronômico e as corporações de clínicos, de advogados e de engenheiros tão bem representadas entre nós, bem como o seleto pessoal superior da grande ferrovia campinense — a Mogiana — constituíam, com os amadores e os estudiosos em geral, um grêmio a congregar.

A primeira reunião ocorreu na residência do engenheiro Edmundo Krug, na Rua São Carlos (hoje Avenida Morais Sales), no dia 25 de setembro de 1901. Daí em diante, precedidas de uma circular que conclamava os interessados na constituição de um Grêmio de Estudos de Ciências destinado a promover e propagar o estudo das Ciências Naturais e das que com ela se relacionem, promoveram-se as assembleias gerais realizadas sucessivamente nos dias 3, 19 e 31 de outubro no Clube Campineiro, então sediado na esquina das ruas Barão de Jaguara e General Osório.

Nas reuniões preliminares foram decisivas as participações de José de Campos Novaes, Francisco de Paula Magalhães Gomes, Henri Potel e de Adolph Hempel — além da atuação do próprio Bierrenbach, de Krug e de Coelho Netto. Este, recém-chegado a Campinas para lecionar no Ginásio, proveniente do Rio de Janeiro, já era um nome ilustre das letras nacionais, como membro da Academia Brasileira de Letras. Não teve dificuldades por isso, Coelho Netto, para logo se notabilizar no meio intelectual da cidade, inclusive através das reuniões que ele e a mulher faziam realizar em sua casa, na atual Avenida Francisco Glicério, onde ainda receberia a visita de Olavo Bilac. Dele partiu a proposta de ampliar o leque dos estudos que constituiriam o objeto da agremiação, de modo a compreender também as letras e as artes. E esta viria a ser, portanto, a sua definitiva denominação – Centro de Ciências Letras e Artes, aprovada, juntamente com os estatutos da sociedade, pelos 99 fundadores presentes à assembleia geral do dia 31 de outubro de 1901.

cclaantigo

A presidência de Leôncio de Carvalho logo seria assumida por José de Campos Novaes que, ao lado de Cesar Bierrenbach, foram os maiores incentivadores e sustentáculos do CCLA, em seus anos de formação e consolidação.

Assinalando a perfeita sintonia da nova sociedade com as ideias e acontecimentos de seu tempo, o primeiro ato consistiu, por sugestão de Coelho Netto, no envio de uma mensagem de saudações a Santos Dumont, que apenas poucos dias antes, em 19 de outubro, havia sobrevoado Paris em torno da Torre Eiffel.

O permanente entusiasmo; a inquietação intelectual capaz de animar tanto os debates que se travavam nas reuniões semanais, quanto até mesmo dissensões internas; a ênfase concedida ao estudo das ciências; a preocupação com os temas da atualidade que, amiúde, colocariam a entidade numa posição de vanguarda e pioneirismo — todas essas características marcariam os primeiros anos do CCLA, e algumas se estenderiam, em maior ou menor grau, ao longo da sua longa trajetória.

A partir de fevereiro de 1902, o CCLA passa a contar com sede própria. Tratava-se do pavimento superior do prédio situado no nº 23 da Rua Barão de Jaguara, cedido pela mãe de Cesar Bierrenbach e constituído de um grande salão (espaço destinado tanto às reuniões quanto às leituras dos usuários, e onde ainda se acomodavam a mesa da presidência e a tribuna dos conferencistas) e de mais duas ou três saletas, numa das quais o próprio Bierrenbach exercia suas atividades de secretário.

Assim, pela própria modéstia dessas instalações, já três anos depois se cogitava da implementação de outra sede, mais ampla. Afinal de contas, desde os primórdios da nova associação avolumou-se a doação de livros e revistas destinados a compor a sua biblioteca. Eram igualmente numerosas as dádivas endereçadas ao Museu de Ciências Naturais. E, desde fevereiro de 1904, quando, por sugestão de Bierrenbach formara-se o Arquivo Carlos Gomes, aumentava a coleção de cartas, partituras e objetos ligados à memória do maestro. Nessas condições procedia-se, em 1907, à aquisição de um terreno na Avenida Francisco Glicério, esquina com a Rua Conceição, defronte ao Largo da Catedral, destinado a nele ser erguida a nova sede social, a partir do projeto elaborado pelo engenheiro José Piffer.

Em dezembro do mesmo ano foi lançada a pedra fundamental. Os registros da época revelam que a construção demandou o investimento de elevadas somas, arrecadadas através das pequenas reservas da própria entidade, de donativos de sócios, de contribuições de terceiros e de campanhas várias, tais como a realização de quermesses e a obtenção de empréstimo através do lançamento de títulos (debêntures). A realidade é que as obras puderam desenvolver-se de maneira célere e já no ano seguinte, em 31 de outubro, data do aniversário do CCLA, era celebrada em sessão solene a sua inauguração.

As fotografias e as descrições de que se dispõem do prédio que durante mais de três décadas abrigaria as dependências do CCLA mostram a sua beleza arquitetônica – violada e demolida, juntamente com tantas outras, pelas máquinas do progresso vertiginoso. Concebido com o aspecto exterior de um templo grego, em estilo adequado aos fins culturais da instituição, compunha-se o prédio de dois pavimentos: no térreo instalaram-se as duas bibliotecas do CCLA, a saleta reservada para café; no pavimento superior localizava-se o amplo salão de festas, com palco, dois pianos de cauda e paredes ornamentadas com uma série de quadros. Na fachada, bustos de Wagner, Michelangelo, Lineu, Claude Bernard, Gonçalves Dias.

Esse prédio o CCLA o deixaria no início de 1940, para se instalar provisoriamente em outro situado na Rua Regente Feijó, enquanto se processavam as obras de construção de sua atual sede social, localizada na Rua Bernardino de Campos, esquina com Francisco Glicério. Também esse empreendimento exigiu a aplicação de alentados recursos, advindos da venda da antiga sede, de empréstimos e de verbas públicas, concedidas pela municipalidade. Projetada pelo engenheiro Lix da Cunha, a atual sede foi inaugurada em sessão magna realizada em 9 de junho de 1942, como relembra Carlos Francisco de Paula em sua Monografia histórica sobre o Cinquentenário do CCLA.

Desde sua fundação, nas palestras e nos estudos que no CCLA encontram apoio e divulgação, circulam ideias as mais multiformes, abrangendo folclore e filosofia, cultura indígena e astronomia, religião e psicanálise, medicina e filologia, botânica e ficção, música e previdência, teatro e sexologia forense, engenharia e crítica literária, pecuária e poesia, história e arte.

Por isso, por seus órgãos diretivos, por seus palcos e auditórios, pelas páginas de sua revista, pelos quadros de sua pinacoteca, pelas partituras de seu museu e pelos livros de sua biblioteca desfila um grupo heterogêneo de figuras notáveis: Bierrenbach, Campos Novaes, Coelho Netto, Alberto Faria, Rafael Duarte, Benedito Otávio, Nelson Omegna, Santos Dumont, Rui Barbosa, Vital Brasil, Almeida Júnior, Lasar Segall, Benedito Calixto, Pedro Alexandrino, Marcelino Velez, Raul Porto, Egas Francisco, Bernardo Caro, Lélio Coluccini, Guiomar Novais, Ana Stela Schick, Sônia Rubinsky, Eudóxia de Barros, Fernando Lopes, Julio Cesar Huertas, Agripino Grieco, Olavo Bilac, Mário da Silva Brito, Pietro Maria Bardi, Décio Pignatari, Amaral Lapa, Benedito Sampaio, Paulo Sales Gomes, Rudá de Andrade, Antônio Cândido, Caio Prado Júnior, Lígia Fagundes Teles, Procópio Ferreira, Ziembinski, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Regina Duarte, Sant’Anna Gomes, Carlos Gomes, Diogo Pacheco, José Eduardo Gramani, Cida Moreira, Niza de Castro Tank, Ademar de Barros, Carlos Lacerda…

O número 65 da Revista do CCLA ilustra exemplarmente essa postura bifronte, voltada simultaneamente para direções opostas, passado e presente, tradição e ruptura – aliás, não só as Revistas do CCLA como também as Atas das reuniões merecem um artigo especial. Ao mesmo tempo em que Rafael Duarte, uma das muitas figuras exponenciais da entidade, partícipe de sua fundação, ocupante de sua presidência, poeta, romancista e teatrólogo, é homenageado em artigo escrito por seu neto, Milton Segurado — nas páginas finais estendem-se os poemas de Amêndola Heinzl, em explícita adesão ao movimento Concreto recentemente deflagrado em São Paulo, explorando graficamente os espaços.

Contudo, nenhuma dessas posições conceitua com exclusividade o que seja o Centro – ambas o definem. O CCLA é feito disso, dessa alternância, dessa mistura, dessa ambivalência, dessa dialética, desse convívio de diferenças. Esta é a sua própria essência, a razão de ser que explica o ter sobrevivido galhardamente por mais de 100 anos.

Pois a unir todas essas diferenças, a conferir coerência a essa miscelânea, coro de contrários, antíteses que se somam, encontra-se fogo simbólico que cada geração transmite à seguinte, encontra-se o amor a essa ideia, a essa abstração, a esse sonho que se convencionou denominar CCLA; o amor que irmana rebeldes e conservadores, converte a continuidade em transgressão e as reconverte. Aí reside, portanto, a sua força-motriz: a seiva amorosa, a substância fecunda que, irrompida há mais de cem anos, ainda não perdeu a sua vitalidade e insiste em apontar para um futuro ainda mais dilatado.

A persistência desse sonho prodigioso e a pertinácia de quantos o tem sonhado constituem o fermento que lhe assegurará, ao Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, a conquista de outros aniversários.

Referência bibliográfica:

MAZZOLA, Gustavo Omar e BORGES, Luiz Carlos R. Centro de Ciências Letras e Artes – CCLA – Ano 101. Campinas: Komedi, 2002.Arquivo Escaneado 12

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