Carlos Gomes, Flores e Pedras: o Império e a República

Carlos Gomes, Flowers and Stones: the Brazilian Empire and the Republic.

Por Maria Eugênia Lima Montes Castanho – educadora, professora. Titular da Cadeira  36 do IHGG Campinas e membro da Rede de Apoio à Docência no Ensino Superior (RADES).

Neste mês de setembro (2018) foram publicados no site do IHGG de Campinas ricos artigos sobre o maestro campineiro Carlos Gomes, por exemplo, de Regina Márcia Moura Tavares: Carlos Gomes musicando o Brasil, e de José Alexandre dos Santos Ribeiro, além do excelente História da composição musical em Campinas: a família Gomes, o intitulado Por que não Antônio Carlos Gomes?

A leitura no mínimo intrigou-me porque o título do artigo é justificado apontando que no nosso País se hesita incluir as obras de seu mais famoso maestro nas parcas temporadas líricas oficiais. A curiosidade levou-me a pesquisar sobre o compositor, hoje tão incensado por toda Campinas. Registre-se que, à sua época, ele pôde ir para a Itália e lá atuar com bolsa e apoio de D. Pedro II.

Em meio a muita informação, especialmente pela Internet, descobri dados do contexto em que viveu Carlos Gomes que me emocionaram e uma vez mais mostraram-me que, quer queiramos ou não, a política se insere no cotidiano pessoal de cada ser humano, em qualquer sociedade.

Elegi dois pesquisadores que publicaram detalhes sobre o homem tema desse artigo: a musicóloga Lenita Waldige Mendes Nogueira (cujo pai, o falecido jornalista Bráulio Mendes Nogueira, foi dono de um dos maiores acervos sobre o compositor) e o crítico Marcus Góes. Aspectos pessoais e profissionais do compositor nos fazem sentir junto com ele o que sentiu. A musicóloga Lenita escreveu A lanterna mágica e o burrico de pau: memórias e histórias de Carlos Gomes, esmiuçando obras especializadas e documentos do maestro que estão guardados em museus. Tudo documentado com notas de rodapé indicando de onde a informação foi obtida. O objetivo foi dar ao público leigo, sem qualquer formação em música, a importância das composições.

Os dados revelam uma carreira com muito mais pedras do que flores. Carlos Gomes foi o autor da primeira revista musical italiana -– Se sa minga (sabe-se pouco), o inovador e o desbravador de caminhos na transição do melodrama italiano (Rossini, Verdi etc.) para o verismo de Puccini, Leoncavallo (e outros), o compositor de óperas italianas mais representado no Theatro Alla Scala de Milão, depois de Verdi.

No entanto, Lenita, com sua pesquisa rigorosa, mostra que a imagem do maestro regendo, consagrado, esconde a saga do homem comum que, em vida, viajou rapidamente do ostracismo à fama, e na mesma velocidade viu aplausos se transformando em vaias. Perdeu amigos e, deprimido no final da vida, admitiu que a felicidade só existia na memória.

Em agosto de 1893, com a doença do filho os gastos aumentaram. Desesperado diante de suas precárias condições financeiras, escreveu diversas cartas ao Brasil propondo a criação de conservatórios em Campinas, Pernambuco, Pará e Minas Gerais, sem obter respostas. Escreveu a Theodoro Teixeira Gomes, em 1893, sobre a possibilidade de estabelecer-se na Bahia com os dois filhos dando aulas de música. Concluía: […] ando desesperado.

Escreveu ao amigo Cândido Alves abrindo seu coração pedindo apoio para fundar um conservatório em Campinas e nada conseguiu. Ao amigo César Bierrenbach, em 1895, escreveu: No Rio de Janeiro não me querem nem para porteiro do conservatório, em São Paulo nem para bolieiro, em Campinas não me compreenderam, julgando-me um impostor, um forasteiro. Assim, pois, tudo acabou em eiro, isto é, sem cheiro.

Marcus Góes, que viveu anos na Itália e cujos instrumentos são a crítica, a musicologia, a pesquisa, a biografia e seu tema, como se fosse sua partitura é Carlos Gomes, escreveu três livros com detalhes sobre o compositor. O maestro campineiro surge como empreendedor intrépido, artista cheio de gana e inovador, homem problemático, brasileiro buscando sua afirmação em um mundo de oportunidades e armadilhas. No clube das celebridades da música na Itália daquele tempo, os membros deveriam ser discretos, elegantes, refinados. E Carlos Gomes não o foi nem na separação conjugal, nem nos outros acontecimentos de sua atribulada vida.

ccla-museu-carlos-gomes - Copia

O Império e a República

A relação do compositor com o Império, aponta a autora Lenita Nogueira, foi sem dúvida alguma a pá de cal na carreira artística. A obra Lo Schiavo, por exemplo, baseada em um libreto do Visconde de Taunay, teve o texto original totalmente desfigurado, com a mudança da etnia do herói (que passou de negro para índio), bem como pelo recuo da ação em cerca de 200 anos. Carlos Gomes não só dedicou a obra à Princesa Isabel, como se aliou ideologicamente a uma monarquia que se esfacelava. Por isso, a elite passou a considerá-lo com uma pessoa sem ligação com o Brasil.

Também na Itália o compositor sempre foi tratado como intruso. A xenofobia o perseguia desde quando começou os estudos em Milão. Em 1870, auge da carreira, os brasileiros se orgulhavam do artista lotar o Teatro Alla Scala de Milão. Mas por lá o tratavam como um latino-americano que se intrometia em um espaço pertencente aos talentos europeus. Era até tratado pelo apelido Cabeça de Leão que ironizava a cabeleira parecida com uma juba. O próprio maestro, nas cartas do final da vida, resumiu o que sentia: era considerado estrangeiro tanto lá como cá. Acabou como um cidadão sem pátria.

O maestro por ele mesmo

Alguns trechos da correspondência escrita por Carlos Gomes:

Com a faca, vou cortando os cipós e os espinhos que me embaraçam o caminho designado. Não pretendo derrubar perobas nem jequitibás porque a faca é pequena para cortar gigantes, mas contudo vou indo devagarzinho pela mesma estrada.

Por aqui, não há urutu ou cascavel na mata. Mas conheço cada bicho medonho, que faz arrepiar. Alguns desses bichos ferozes têm por nome: Imprensa.

Oh, amigo, agora quem dá vaias é o tempo, rigoroso tempo, que precede sempre seriamente, severamente, mesmo em tempos de alegria. Seja deste ou daquele modo, ele passa sempre sobre nossa existência sem se rir, sem avisar mortal algum. Uma coisa só me consola: que o tempo é igual para todos.

O que eu não daria para voltar aos tempos de correr com papagaio e malhar o Judas … Quanta poesia, quanto aroma embalsamado em todo aquele conjunto sublime, em todas aquelas cores que, ao passo que escrevo, estou vendo passar diante de meu pensamento saudoso, com uma lanterna mágica, como um sonho mentiroso…

Museu em Campinas

O Museu Carlos Gomes, aberto ao público de 2ª a 6ª feira, está no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) de Campinas e tem o maior acervo sobre a carreira de Carlos Gomes: instrumentos musicais, medalhas, cartas, partituras, pinturas, libretos, programas de concertos, batutas, correspondência. O CCLA www.ccla.org.br fica na Rua Bernardino de Campos, 989, Centro de Campinas.

Imagem destacada:

Colher usada por Santos Dumont na colocação da pedra fundamental do monumento-túmulo do maestro e compositor Carlos Gomes. Foto de Martinho Caires.

Referências:

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar ed., 1995.
GÓES, Marcus. <https://carlosgomes.campinas.sp.gov.br/artigos/marcus-g-es-entrevista-e-detalhes-sobre-carlos-gomes&gt; acessado em 10/9/18.
_______________. A força indômita. Belém do Pará: Secult, 1996.
NOGUEIRA, Lenita Waldige Mendes. A lanterna mágica e o burrico de pau: memórias e histórias de Carlos Gomes. Campinas, SP: Arte Escrita; São Paulo: FAPESP, 2011.
_______________. Maneco músico, pai e mestre de Carlos Gomes. São Paulo: Arte e Ciência, 1997.
_______________. Música em Campinas nos últimos anos do Império. Campinas: Editora da Unicamp/Centro de Memória da Unicamp, 2001.
VERZIGNASSE, Rogério. Livro conta detalhes surpreendentes da vida do maestro. Baú de Histórias. Revista Metrópole. Correio Popular. Edição online. 14/11/2013.

 

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