A Hospedaria de Imigrantes Que Campinas Não Teve

Campinas (SP, Brazil) Immigrants’ Official Guesthouse That Did Not Open.

Por Duílio Battistoni Filho – historiador, professor. Titular da cadeira Nº 6 do IHGG Campinas.

Ao final do século XIX e até meados do século XX no Brasil, as hospedarias de imigrantes destinavam-se à recepção inicial e hospedagem de estrangeiros aqui chegados como imigrantes, dando-lhes assistência até seu encaminhamento como mão-de-obra para a lavoura ou para a colonização. Foram construções integradas organicamente à estrutura dos movimentos imigratórios patrocinados inicialmente pelo Império e conduzidos, em seguida, pela República, vinculadas ao contexto econômico vigente e que responderam a essa correlação não apenas como alojamentos de indivíduos em trânsito, mas como verdadeiras instalações médica e social, consignando-lhes um caráter para-hospitalar em sua ação cotidiana.

As nossas hospedarias de imigrantes descendem, em sua concepção geral, das hospedarias desenvolvidas na América do Norte durante o século XIX, constituindo um programa arquitetônico, podemos dizer, característico do Novo Mundo, criado nas circunstâncias que cercavam as grandes migrações transoceânicas registradas em virtude do amplo e complexo quadro histórico europeu decorrente do estágio de desenvolvimento do sistema capitalista com a Revolução Industrial.

No Brasil, os principais promotores desse tipo de imigração visavam a introdução do braço livre não só com o reconhecimento da iminência da abolição como também pela abertura de novas perspectivas de investimento no último quartel do século XIX: ferrovias, bancos e indústrias – alternativas, de diversificação de aplicação de capital cuja imobilização em manutenção ou aquisição de escravaria sugeria maiores vantagens com o trabalho assalariado. Em 1861 criava-se o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, tendo entre outras atribuições a questão da colonização e ao qual se subordinava a Agência Oficial de Imigração, organizada em 1863.

A pioneira de nossas hospedarias foi a da Ilha das Flores, ao norte de Niterói, em 1879, para recepcionar a grande maioria dos imigrantes aqui chegados com a subvenção do governo central. O modelo da brasileira pode ser identificado no Castle Gardens, de Nova York, criado em 1855. Entretanto, a mais importante hospedaria brasileira foi a de São Paulo, criada em 1882 por iniciativa do Presidente da Província, Conde de Parnaíba, o qual também participou da fundação da Sociedade Promotora de Imigração.

O objetivo da hospedaria era receber os imigrantes europeus que desembarcavam no porto de Santos e enviá-los para as lavouras de café do interior paulista. Vale ressaltar que, muitas lavouras cafeeiras já tinham uma experiência com a mão-de-obra livre europeia. Com isso, houve um aprimoramento do sistema de trabalho que seria implantado de forma generalizada nas fazendas de café do oeste paulista: o colonato. Esse sistema possibilitou organizar e controlar o trabalhador nas lavouras de café, apresentando-se mais rentável e a custos reduzidos. Nesse regime de trabalho, o fazendeiro estabelecia um contrato coletivo, isto é, com o colono e os membros de sua família. O colono podia também manter roças intercaladas com o café, garantindo uma economia de subsistência.

Assim, por volta de 1886, iniciou-se uma grande imigração subsidiada para o Brasil. Foram introduzidos e canalizados para as lavouras cafeeiras paulistas milhares de imigrantes europeus, principalmente italianos. Estima-se que entre 1887 e 1900 entraram no Estado de São Paulo cerca de 910 mil imigrantes europeus, dos quais aproximadamente 565 mil italianos. Essa imigração, ao garantir a oferta de grande contingente de mão-de-obra para a cafeicultura, deu início também à constituição de um mercado de trabalho livre no país.

Campinas foi grande centro receptor de mão-de-obra estrangeira introduzida em São Paulo. Foram enviados para as lavouras do município, de 1882 a 1900, 10.631 imigrantes estrangeiros, dos quais 75% eram italianos; 11,3% portugueses; 7,9% espanhóis; 3,9% alemães e 1,8% de outras nacionalidades. A imigração do tipo individual foi predominante ate 1886 para as principais nacionalidades, porém a imigração familiar acabou sendo responsável por 73% do total do movimento imigratório ocorrido entre 1882 e 1900.

Com a epidemia da febre amarela, o movimento imigratório europeu foi pouco expressivo no ano de 1890 – entraram apenas 292 imigrantes – porém em 1891 foi registrado o maior volume anual de imigrantes com destino às lavouras de Campinas: 2.927 estrangeiros, totalizando 4.317 até 1900. Esse movimento justificou a criação de uma hospedaria de imigrantes em Campinas. Com a autorização do Ministério da Agricultura ela vai ser construída na rua Sales de Oliveira (Vila Industrial) graças à iniciativa dos vereadores José Paulino Nogueira, Bento Bicudo e Antonio Álvares Lobo. O prédio, segundo a planta, tinha a forma retangular medindo 110 por 87 metros, com a seguinte distribuição: rez-do-chão, salas de bagagem recebida e por expedir, corredor de entrada, passadiço de acesso para o refeitório e varandas, escada de madeira para o 1º andar, onde havia latrinas, dois pavilhões laterais com dormitórios de recebimento, enfermarias com tanques e latrinas.

É preciso acentuar que outra hospedaria seria instalada provisoriamente no Largo Santa Cruz, no galpão da antiga fábrica dos irmãos Bierrembach. Mas dela, pouco sabemos. Os trabalhos da hospedaria da Vila Industrial, apesar da maior parte dos trabalhos estarem adiantados, faltando alguns acabamentos como cobertura, escadas e muro – foram interrompidos por falta de recursos. Por isso, a cidade passa a depender lamentavelmente de sua congênere de São Paulo. As reclamações da população eram intensas, já que os imigrantes pernoitavam na plataforma da Estação da Paulista, amontoados como gado numa promiscuidade anti-higiênica. Ali, fazendeiros e imigrantes discutiam os pormenores dos contratos de trabalho. O Visconde de Indaiatuba reclamava dessa situação. Nessas discussões cabia ao fazendeiro pagar uma certa quantia por cada mil pés cuidados, geralmente com quatro carpas anuais, sendo esse pagamento feito quase sempre parceladamente, depois das carpas. O colono ainda recebia uma quantia estipulada por alqueire de café colhido. A primeira retribuição era fixa e não dependia do preço do café, a segunda, às vezes, sofria interferências do preço do produto. Nos primeiros anos do século XX, a embora Campinas continuasse a receber imigrantes, a crise cafeeira e a febre amarela começaram a expulsar a população do Município e de sua região.

Somente nos anos de 1920 a cidade ressurgia das cinzas. Houve profundas modificações no mercado de trabalho e no processo de urbanização. Entretanto, não podemos negar a forte influência do elemento estrangeiro para o desenvolvimento econômico e urbano de Campinas.

Bibliografia consultada:

AMARAL, Leopoldo. Campinas em 1900. Campinas, Typographia Livro Azul.
CAMARGO, João Francisco. Crescimento da população do Estado de São Paulo e seus aspectos econômicos. Estudos Econômicos, nº14 IPE-USP, 1981.
Cidade de Campinas, 11/6/1897, p.2.
Diário de Campinas, 15/9/1894, p.1.
Diário de Campinas, 23/8/1890, p.1.
LAPA, José Roberto do Amaral. Campinas, os cantos e os antros. São Paulo, Edusp, 1996.
PETRONE, Maria Tereza. “Imigração” In História Geral da Civilização Brasileira, tomo III, 1977, vol 2.
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas e hospedarias de imigrantes. São Paulo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº30, 1989.

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