Mulheres Legionárias de 1932

Legionary Women of the Constitutionalist Revolution (Brazil, 1932).

Por Maria Conceição Arruda Toledo – jornalista, professora (in memoriam). Sócia fundadora do IHGG Campinas.

… Foi um tempo de aço cortante
de um brilho de aço, cortante e frio.
Vinham da terra, direitas, em retas
— como o rastilho que deixa na gleba
a lâmina firme dos nossos arados,
como os cafeeiros das nossas fazendas,
como os dormentes das nossas estradas.
como o listado da nossa bandeira
— vinham da terra, direitas, em retas,
filas e filas de voluntários…

… Foi quando uma nobre ave
— asas alvas e negras, crista vermelha
— tal lava na garoa o seu voo tutelar de…
página branca pautada
por Deus numa hora suprema
para que um dia uma espada
sobre ela escrevesse um poema…

Foi quando, no árduo labor das oficinas,
quem as viu perguntava:
“Quem são essas finas mulheres de raça
que lidam, que lutam, sem tréguas nem medos,
Que fazem da malha que tecem couraça
que trocam por calos as joias dos dedos?”

Essas mulheres de quem falava Guilherme de Almeida o poeta soldado, “Príncipe”, o campinense ilustre que não cansamos de venerar – ao agradecer em 1968 as homenagens recebidas do Governo do Estado de São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes, pelo cinquentenário de NÓS. Essas mulheres foram também as valentes Legionárias de 32, em Campinas, em cuja frente se achava o casal Gumercindo e Dulcinéa Guimarães, que franquearam sua casa para sediar-lhe o quartel-general, de onde saíam para arrecadação de fundos para manter a soldadesca paulista equipada, alimentada e agasalhada e para onde retornavam para prestação de contas diárias.

“Foi um tempo de aço cortante
de um julho de cor de aço cortante e frio…”

Foi um tempo em que acordaram nos corações os sentimentos de amor à pátria, de solidariedade ao irmão exposto aos perigos nos campos de batalha, de acato às leis constitucionais, de altaneiro espírito de independência, quando não se admitiam, a quem quer que fosse, a pusilanimidade e a inércia.

Nesse tempo, as Legionárias de Campinas, ostentando o capacete de feltro com os dizeres dourados, “Legião Feminina Barreto Leme”, saíam à rua à cata do “tostão do soldado”, encontrando irrestrito acolhimento por parte da população, pródiga a dar, inclusive as joias de família e as alianças, formando com elas a “moeda paulista, que vale mais do que vale o ouro maciço, / vale a glória de amar, sorrir, chorar, / lutar, vencer, morrer… / vale tudo isso que moeda alguma poderá comprar!”.

Na Cúria, Mr. Moura recebia as contribuições arrecadadas e lhes dava o competente destino. Os motoristas de táxi transportavam gratuitamente as Legionárias, apanhando-as nas ruas, exaustas, após a santa jornada diária. Os pequeninos escoteiros também queriam ajudar. Dulcinéa, à frente, transmitia entusiasmo a todos.

No primeiro 9 de julho em que Campinas o comemorou no Mausoléu do Soldado, no Cemiterio da Saudade, a legionária Elza Mendes de Paula desfilou com a bandeira paulista da Legião. Essa bandeira, conservada quarenta e dois anos com as bravas legionárias de Campinas, foi entregue as autoridades municipais no ano do bicentenário da cidade, para fazê-la figurar no Museu da Revolução de 32, solenemente reinaugurado a 15 de junho de 1975, Recebeu-a o secretário de Educação e Cultura à época, durante as solenidades realizadas diante do Mausoléu do Soldado Constitucionalista, das mãos de Dulcinéa Guimarães, juntamente com um diploma mandado por ela confeccionar, onde se podiam ler os nomes das 32 legionárias por ela lideradas: Nazareth S. Arruda, Helena Martins, Maria do Carmo Mendes, Maria de Lourdes Mendes, Maria Aparecida de Paula Eduardo, Elvira Brondi, Adélia Lucente, Laura Arruda de Camargo, Lourdes Arruda de Camargo, Diana Lucente, Dyla Abreu Colonese, Januária de Araújo Almeida, Marta Pires de Camargo, Alayde Ferreira de Moraes, Elza Arruda, Elza Mendes de Paula, Wilma Pimentel Pupo Nogueira, Maria de Lourdes Arruda, Gesse Malta Guimarães, Maria B. Pires, Luiza Schreiner Zuhlket, Dúlia Silveira Franco, Maria Aparecida Ferreira, Julieta Nogueira, Maria de Andrade Onolfi, Zélia Conceição Arruda, Flora Convizzi Borghi, Maria José de Castro Dias, Ana Maria Medeiros Soares, Adelzinha de Oliveira Maia, Tita Arruda, Angélica Franco.

Neste aniversário da Revolução de 32, repetimos com Paulo Bonfim:

Enquanto houver injustiça
enquanto houver sofrimento
enquanto houver a terra a chorar,
enquanto houver pensamento
enquanto a História a falar
enquanto existir beleza
enquanto o sonho for sonho
enquanto o sangue for sangue
enquanto existir saudade
enquanto houver esperança
enquanto os mortos velarem
— E sempre 9 de Julho!

Publicado na Revista do IHGGC, N.3. Campinas: Komedi, 2012, pp.31-34

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