O progresso de Campinas na antevisão de Taunay

The Campinas (SP, Brazil) Development in Taunay`s Forecast.

Por Luiz Roberto Saviani Rey – professor, jornalista. Titular da Cadeira Nº 14 do IHGG Campinas

Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay da História do Brasil, militar, político e escritor, além de uma das figuras exponenciais do período imperial –, foi, talvez, uma das mais entusiastas testemunhas do progresso e de pujança econômica e social de Campinas em meados do século XIX. Embora amiúde, ele decantou a cidade em sua obra e expôs seu perfil de centro regional e de aglutinação de pessoas com o fito do labor e da prosperidade, em uma antevisão do futuro que hoje se materializa na conformação de uma região metropolitana de grande relevância para o Brasil e o Mercosul, ostentando índices de economia, de industrialização, de serviços e de bem-estar social compatíveis com países desenvolvidos. Em seus livros, especialmente em Memórias e A Retirada da Laguna, Taunay faz exclamações de encantamento em relação a Campinas, prefigurando um futuro de grande expansão e de vitalidade social e econômica.

Mas não é apenas em suas declarações de afeto e de espanto que se pode encontrar essa antevisão futurística. As palavras de Taunay são traduzidas também em atos e atitudes que adotou em relação a ícones da cidade, como sua Catedral, ainda em construção, e o esforço da comunidade para adotar padrões imperiais de costumes e de relações sociais, em uma fase de transição do colonialismo para o Império.

Entre abril e junho de 1865, aos 33 anos de idade, como tenente-engenheiro do Corpo de Expedicionários em operação no Sul de Mato Grosso, criado pelo Exército Brasileiro por ordem de D. Pedro II para dar combate ao inimigo pelo flanco Norte do Paraguai, no episódio da Guerra da Tríplice Aliança, Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay estacionou em Campinas com um contingente de 1.770 soldados, comandados pelo coronel Manuel Pedro Drago. Foram 66 dias de acampamento no Largo Santa Cruz – hoje no bairro do Cambuí, à espera de ordens da Corte para marcharem rumo a Uberaba, MG, onde mais soldados se agregariam para a marcha rumo à Fazenda da Laguna, na divisa entre o Paraguai e o Mato Grosso, a fazenda de Solano Lopez, presidente do país, onde se deu o episódio épico da Retirada da Laguna.

Foram, na visão de Taunay, os 66 dias mais alegres de sua vida, de um convívio leve e agradável, de congraçamento entre os militares e membros da sociedade dos Barões do Café, que lhes ofereceram muitos jantares e proporcionaram momentos de entretenimento e de certo relaxamento nas buscas amorosas, nos namoricos com as moças campineiras.

Em 1865, Campinas havia deixado para trás quase todos os vestígios da era colonial, do período da cana-de-açúcar, e se consolidava como um polo econômico e um agregado urbano considerável. Havia em sua incipiente estrutura de ruas e ruelas, um forte comércio, de atividades variadas, que contrastava com períodos anteriores, em que se mostrava eminentemente como uma região rural. Lojas expunham as novidades trazidas do Rio de Janeiro, livrarias, cafés e charutarias, hotéis e pensões. Os produtores do café já haviam abandonado os casarões-sedes de fazendas e se estabeleciam em chácaras encravadas no entorno desse núcleo urbano, avivando o comércio com sua produção de frutas e de hortaliças.

Até então, Campinas não passava de uma área entre três descampados, no caminho de Goiazes, aberto no início do século XVIII por bandeirantes, primeiro, e por tropeiros, que seguiam na rota de Goiás, com variante para Minas Gerais, na busca da escravização de indígenas para atuarem como mão de obra nas lavouras, na corrida do ouro e por riquezas do interior brasileiro. Com a intensificação da produção de café, a cidade transforma-se no principal centro produtor e acumula riquezas que possibilitam às famílias a construção de casas de taipa e em um avanço significativo no plano de construção civil, e dos imensos solares, com configuração lusitana, incorporando ao rito social da cidade os padrões de convivência da Corte. O pequeno núcleo residencial se adensa e atrai novos habitantes e ainda sustenta problemas como o de higiene, apesar dos esforços das autoridades.

É nesse entremeio que a figura do engenheiro Taunay aparece e circula com olhos atentos e com sensibilidade para os avanços que constata em Campinas. Suas palavras de encantamento refletem a percepção de um ser bem constituído e integrado à vida da Corte, visto que seu pai, Félix Taunay, amigo de D. Pedro lI, dirigia a Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, fundada por seu avô, Nicolau Taunay, um dos artistas de Napoleão Bonaparte e membro da Escola Francesa.

No livro de minha autoria: “O Retiro Antes da Laguna: Taunay em Campinas”, de 2013, Editora Pontes – embora um romance histórico baseado nos escritos de Taunay e sobre a Guerra do Paraguai –, destaco, entre outros históricos, essa paixão do tenente-engenheiro de 22 anos pelos contornos da cidade e suas obras monumentais. Despertei-me para a necessidade de resgatar esse histórico ao me surpreender na leitura de “A Retirada da Laguna” com uma frase emblemática de Taunay, perdida entre os relatos do percurso das tropas: “Ah! Aquele tempo em Campinas, aqueles dois meses de estada, de 15 de abril a 20 de junho, aqueles 66 dias constituem um dos mais alegres e divertidos períodos de minha existência e de todos que tomaram parte na sucessão de jantares, partidas, piqueniques, festas, bailes e rega-bofes a se perderem uns dos outros, e sem deixar um momento de folga”.

É nesse clima festivo e de congraçamento social que Taunay circula por Campinas com juventude e curiosidade, e revela ter sido cativado por suas belezas, sua imponência e pelo esforço de sua comunidade, como dito antes, para adotar padrões imperiais.

É importante desatacar que nessas rondas, a pé ou a cavalo, pela malha urbana, Taunay encontra uma Campinas culturalmente fortalecida, com casas e casarões, e se encanta com o progresso que constata. Visita a rua Direita e se surpreende com seu charme, o charme dos cafés e das charutarias, sobretudo as lojas que expõem indumentárias e acessórios largamente difundidos na Corte, consolidando hábitos, maneiras e levando a sociedade local a integrar-se ao espírito do Império. Em uma de suas passagens pela rua, ao verificar nas vitrines capas e casacos com lapelas aveludadas, anquinhas, corpetes e espartilhos; gorros e bonets, chapéus de fino acabamento, luvas, bengalas e pince-nez, fica em suspense e animado ao mesmo tempo. É o momento de espasmo e de contentamento. Ele vê similaridade com a vida da Corte. Taunay olha para aqueles produtos e exclama: “Mas que coisa bela e bem afrancesada!”.

Contudo, ressalto que sua percepção vai além do regozijo desprendido desses momentos em que espairece e encontra símbolos de progresso na cidade. Na manhã de 19 de abril, após assistir à missa na Igreja do Rosário – temporariamente a Matriz da cidade, porque a Igreja do Carmo requeria obras de restauro –, Taunay descobre a Nova Matriz, a Catedral, ainda em construção, iniciada em 1807. Sorrateiramente penetra na imensa construção e vai ficando embasbacado com o que vê, sobretudo a altura das paredes, a dimensão do prédio, sua altivez e a imponência.

Inteira-se de seus elementos, complementos e minúcias de engenharia, e, naquela breve passagem, busca debater com os responsáveis pela obra questões insolúveis até aquele momento, como a da construção de duas torres, que se mostra um ensaio de engenharia dificultoso, dado que as paredes são erigidas em taipa. Taunay dá sugestões e se retira. Inquieto, à noite, proclama ao coronel Drago, que com ele estivera no templo: “O que temos aqui? Uma verdadeira catedral de fé e despojamento. A capela é de proporções majestosas, apresenta em seu interior um trabalho perfeitíssimo de obra de talha, prometendo vir a ser, quando concluída, um dos mais esplêndidos templos do Império!”.

À noite, mirando a Catedral soberana, da porta do Hotel do Francês, sob o efeito de suas impressões, Taunay deitou uma longa carta dirigida a seu pai, relatando de forma pormenorizada as condições econômicas e sociais de Campinas, com todas as suas constatações e enaltece o empenho de sua sociedade para a conclusão da Nova Matriz. Descreve a obra e conclui com um apelo veemente para que Félix Taunay interceda junto ao imperador Pedro II para que envie especialistas e recursos para a finalização do templo que aguçou seu espírito de engenheiro e o faz vislumbrar uma Campinas sede regional. Dias após, retorna com o corpo de engenheiros das tropas e se reúne com os empreiteiros e responsáveis pelas obras, ouve e dá sugestões que são acolhidas.

Em nova carta dirigida ao pai, datada de 18 de abril, Taunay a envia em mão por meio do administrador da Catedral, Antonio Carlos Sampaio Peixoto, introduzindo o personagem como “o ativo administrador das obras da magnífica Catedral que em Campinas se constrói!”. Em outra carta, indicava ao pai que apresentasse ao senhor Sampaio Peixoto um arquiteto conhecido da família. É notável o entusiasmo e o intimismo que revela em relação à cidade, empregados nessa missiva: “Temos aqui em Campinas a falta de bons operários, pedreiros e carpinteiros. Pai, por favor, é grave, relembre o senhor Sampaio que procure aí no Rio nosso querido arquiteto Job Justino da Silva, que ele dará conta de ajudar nessa sagrada empreitada!”.

No total, foram 22 cartas de sua lavra, todas elas exclamativas e apelativas no sentido de que Campinas, a seu ver, um centro de agregação pujante, já àquela época, consolidasse sua pujança econômica, coroando sua missão de polo regional com um templo de proporções gigantescas a materializar a fé de seu povo. Taunay, nessas letras, não se cansa de enaltecer a cidade e de desenhar seu futuro sólido e consistente.

Ao cabo dos 66 dias, as tropas partem rumo ao seu destino fatal e malfadado, embora épico. Mas Taunay parece nunca ter se esquecido do tempo em que esteve em Campinas. Mostra-se em sua obra um ser saudoso de um tempo inesquecível. E proclama vez ou outra: “’Ah! Campinas, nunca me esquecerei daquela clareira ensolarada e cheia de encantamentos!”.

Referência Bibliográfica
REY, Luiz Roberto Saviani. O retiro antes da Laguna: Taunay em Campinas. Campinas: Pontes Editores, 2013.

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